Um outro 5 de junho

Nem todos sabem que 5 de junho, data escolhida como o Dia Mundial do Meio Ambiente, é uma referência ao início da Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, realizada em 1972. Mais conhecida como Conferência de Estocolmo, por ter sido realizada na capital sueca, foi a primeira grande reunião que colocou a nascente questão ambiental no primeiro plano da política internacional. Nela, foram assentadas as bases da poderosa máquina de influência política e comportamental em escala global, em que se converteu o movimento ambientalista e a sua ramificação indigenista, ao ponto de influenciar de forma determinante as políticas econômicas e de desenvolvimento em todo o planeta.

Desde o início, o movimento não teve nada de espontâneo, mas foi engendrado, promovido e manipulado como um instrumento político de eficiência crescente por elites oligárquicas do Hemisfério Norte, interessadas em neutralizar o impulso de industrialização que então propelia as nações em desenvolvimento, entre elas o Brasil. Por isso, as suas principais campanhas e palavras de ordem sempre estiveram vinculadas a iniciativas contrárias às perspectivas de desenvolvimento e bem-estar desses países, desde a esdrúxula agenda dos “limites do crescimento”, apresentada pelo Clube de Roma no final da década de 1960, à avassaladora campanha atual de “descarbonização” da economia mundial, em nome de uma inexistente ameaça climática. As mais recentes envolvem conceitos esdrúxulos como o da “pegada ecológica”, cujo falacioso corolário é o de que seriam necessários os recursos de quatro planetas para que toda a população mundial pudesse desfrutar dos níveis médios de progresso atingidos pelas nações industrializadas.

No “currículo” do movimento, constam, entre outras questionáveis façanhas:

* O banimento do DDT, pesticida responsável pela preservação de centenas de milhões de vidas que, de outra forma, seriam perdidas para doenças transmitidas por insetos, como a malária, que ainda vitima centenas de milhares de pessoas todos os anos (embora os efeitos deletérios a ele atribuídos nunca tenham sido cientificamente comprovados).

* O banimento dos clorofluorcarbonos (CFCs), versáteis substâncias utilizadas em refrigeração e dúzias de aplicações, pelo seu suposto impacto sobre a camada de ozônio estratosférico (apesar de o mal denominado “buraco” na camada de ozônio ser um fenômeno natural observado desde a década de 1920, anteriormente à invenção dos CFCs).

* A demonização da energia nuclear para a geração de eletricidade, a despeito do seu histórico de segurança em mais de seis décadas de utilização, grandemente responsável pelo fato de a geração nuclear encontrar-se virtualmente estagnada em todo o mundo, há mais de duas décadas.

* A obstaculização, retardamento e encarecimento injustificados de incontáveis projetos de desenvolvimento, especialmente, de infraestrutura física, por questionáveis critérios “socioambientais”, quase sempre definidos por critérios ideológicos e políticos. O Brasil tem sido alvo preferencial desta linha de ação, nas últimas três décadas.

* Uma virtual lavagem cerebral em grande parte da população mundial, em especial, os jovens, sobre a relevância desproporcional dos temas ambientais na lista dos grandes problemas mundiais. Em uma pesquisa realizada em 2016 pelo Fórum Econômico Mundial, para estabelecer os 15 maiores problemas enfrentados pela humanidade, envolvendo 26 mil jovens nascidos desde 2000, em 181 países, 45,2% deles apontaram as mudanças climáticas e a destruição dos recursos naturais como os principais (a pobreza ficou em quarto lugar, com 31%; a educação em sétimo, com 16,5%; alimentação e água em nono, com 15,1%; falta de oportunidades econômicas em décimo, 14,2%; assistência social e saúde, em 11º, com 10,9%; falta de infraestrutura, em último, com apenas 3,4%).

Por conta dessa avalanche alarmista, que começa nos livros escolares, a maior parte da população ignora que os cenários catastrofistas pintados pelos ambientalistas não se baseiam no melhor conhecimento científico disponível, que, com freqüência, costuma desqualificá-los.

Um exemplo desconcertante foi a constatação de que, desde a década de 1980, registrou-se um aumento geral de 40% na biomassa vegetal do planeta, representando um incremento de 36 milhões de quilômetros quadrados de superfície “verde”, equivalente a três vezes a área da Europa ou duas vezes a dos EUA, como atestado por vários estudos independentes. O aumento se deveu, evidentemente, às concentrações crescentes de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, devido ao papel de “fertilizante” do gás, convertido em vilão ambiental número um pelos alarmistas, apesar de tal função ser do conhecimento de qualquer estudante de Ciências do Ensino Fundamental.

Da mesma forma, cientistas politicamente engajados (e seduzidos por generosas verbas para pesquisas seletivas) se esmeram em apresentar cenários cada vez mais alarmistas sobre supostas conseqüências do aumento das temperaturas globais, em modelos matemáticos calibrados para ressaltar o papel do COna dinâmica climática global. Enquanto isso, deixam-se convenientemente de lado as evidências de que, durante o Holoceno (a época geológica em que a civilização tem existido, nos últimos 11.700 anos), houve temperaturas e níveis do mar superiores aos atuais e as taxas de variações destes parâmetros (gradientes), em nada diferem das registrados nos últimos dois séculos, em que a humanidade tem utilizado combustíveis fósseis em grande escala.

Igualmente, a lavagem cerebral do catastrofismo “verde” faz com que sejam subestimadas ou ignoradas as grandes emergências globais reais, a exemplo do déficit de saneamento básico que afeta a metade da humanidade e constitui a principal causa da poluição dos cursos hídricos, doenças e milhões de mortes evitáveis nos países em desenvolvimento. Ainda mais vergonhoso é o fato de mais de um bilhão de habitantes do planeta não disporem de um reles banheiro, sendo obrigados a fazer suas necessidades fisiológicas ao ar livre.

As tecnologias necessárias para corrigir o problema são conhecidas há séculos, mas o discurso ambientalista prefere ignorar o assunto, concentrando-se em apresentar “soluções de mercado” para a inócua captura de carbono atmosférico ou propondo tecnologias mirabolantes para reduzir o albedo terrestre (proporção entre a luz solar incidente sobre a superfície do planeta e a refletida), como a chamada geoengenharia, com projetos que contemplam até mesmo a instalação de espelhos refletores em órbita do planeta.

Agora, esse poderoso aparato político se prepara para a etapa final de sua campanha de mais de meio século contra o pleno desenvolvimento da humanidade. O plano envolve a “financeirização” dos temas ambientais em geral, e climáticos em particular, utilizando a “neutralidade de carbono” (ou “pegada de carbonob”) como uma nova métrica de referência para intercâmbios e investimentos internacionais, com critérios e pontuações devidamente estabelecidos por agências de classificação vinculadas ao aparato ambientalista, semelhantes às que avaliam os títulos soberanos e corporativos nos mercados financeiros.

Para tal propósito, já está montada uma vasta estrutura envolvendo ONGs ambientalistas, fundações, grandes empresas transnacionais e órgãos governamentais de certos países industrializados. As recentes manifestações em massa de estudantes adolescentes pela causa do clima, em numerosos países, estão estreitamente vinculadas a esse esforço (ver “A Cruzada das Crianças Verdes”, Alerta Científico e Ambiental, 04/04/2019).

Nesse esquema, o papel reservado para países como o Brasil é o de meros fornecedores de matérias-primas e provedores de “serviços ecológicos”, como a captura de carbono em suas áreas florestadas, além de recebedores de investimentos “sustentáveis”, de acordo com as pontuações e classificações estabelecidas pelas agências.

Além disso, todo esse pano de fundo oculta a realidade de que inexistem quaisquer impedimentos objetivos para a perspectiva de se estender a virtualmente todos os cerca de 10 bilhões de habitantes do planeta, esperados para 2050, um nível de vida médio equivalente ao desfrutado pelos habitantes da Europa Ocidental. Os obstáculos para isto não são físicos – escassez de recursos naturais e água, limites ambientais etc. –, mas, essencialmente, políticos e mentais. O maior deles é o sistema financeiro internacional em sua atual forma hiperespeculativa e divorciada da economia real, de longe, o maior fator de “insustentabilidade” para toda a humanidade. No entanto, os valorosos cruzados do meio ambiente, de qualquer idade, costumam ignorar solenemente este fato de difícil contestação.

Reconhecidamente, para se começar a considerar tal perspectiva, que elevaria a civilização global ao patamar permitido pelo atual estágio do conhecimento científico-tecnológico, será preciso um esforço sério para se superar meio século de lavagem cerebral “verde”, além de se lutar para inseri-la na formulação das políticas nacionais.

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