Um mundo pré-industrial: proposta dos ambientalistas para a economia pós-pandemia

Era inevitável que o aparato ambientalista internacional fosse mobilizado para influenciar as discussões que se travam em todo o mundo em torno da reorientação da economia mundial, passada a emergência sanitária criada pela pandemia de covid-19. Após um primeiro momento de perplexidade, ocasionado pela concentração quase total das atenções globais no combate à pandemia, em detrimento das pautas alarmistas de grande repercussão midiática e popular com as quais ocupavam a ribalta dos debates mundiais, os mentores do aparato reagiram rapidamente e trataram de adaptar a sua agenda anticivilizatória, para ajustar-se à percepção crescente e compartilhada em todo o planeta, de que a organização da sociedade e da economia no período pós-pandemia imediato não poderá ser um mero retorno à situação anterior.

A pandemia explicitou a disfuncionalidade e a vulnerabilidade acarretadas aos sistemas produtivos e às populações do planeta pelos critérios de maximização de lucros, dividendos e bônus de executivos, reunidos sob o rótulo da globalização financeira, que irão exigir não poucas mudanças no “day after”, passada a emergência sanitária. Diante dessa constatação, os mentores do ambientalismo estão promovendo ativamente a colocação da sua insidiosa agenda da “descarbonização” da economia no centro das pautas da reconstrução pós-pandemia, juntamente com uma série de medidas que implicariam não apenas em uma “desglobalização”, mas em um virtual retorno ao mundo pré-Revolução Industrial, que converteria o planeta em um utópico agregado de comunidades autossuficientes interligadas por redes digitais.

Assim, contrabandeadas em meio a propostas de reforma e re-regulamentação financeira e investimentos públicos, imprescindíveis para a reconstrução socioeconômica em bases compatíveis com o potencial civilizatório da humanidade, os ideólogos “verdes” pretendem reduzir drasticamente os fluxos de comércio entre os países e dentro deles, viagens aéreas (alguns propõem a substituição dos aviões de carreira por veleiros para viagens internacionais), concentração da produção agrícola com critérios “ecológicos”, condicionamento da produção industrial a critérios de “baixo carbono” e outras propostas do gênero, que parecem saídas de alguma novela de ficção ou roteiro de filme distópicos.

Mas não se pense que tais propostas provêm de militantes ambientais desconectados da realidade, mas estão contidas no âmbito de uma vasta agenda de “esverdeamento” da economia mundial colocada em marcha nos últimos anos, com o objetivo geral de promover uma “financeirização” das questões ambientais, com ênfase nas relacionadas ao clima, que se pretendem colocar no centro das atividades econômicas, implantando a “neutralidade de carbono” como um novo padrão econômico e financeiro de aplicação global. Tudo isso já estava em andamento bem antes da eclosão da pandemia de covid-19, como observamos na edição de 10 de outubro de 2019 deste Alerta:

Para tanto, está sendo ampliada a toque de caixa a já existente estrutura internacional para a emissão e comercialização de títulos “verdes” (green bonds), incluindo a necessária rede de agências de classificação de “risco climático” baseada na “neutralidade de carbono” das atividades econômicas, a exemplo do que é feito em relação aos títulos de países e empresas. A pressa é ainda maior em função da situação crítica do sistema financeiro internacional, às voltas com uma montanha de ativos submetidos a taxas de juros nulas ou negativas avaliada em 18 trilhões de dólares, cerca de um terço do montante de títulos de dívidas existente e um quarto do PIB mundial. Esta hipermegabolha especulativa, que pode estourar a qualquer momento, é resultante das maciças injeções de liquidez feitas pelos principais bancos centrais para contra-arrestar a crise de 2008, as quais, em lugar de se direcionarem predominantemente ao financiamento das atividades produtivas, inclusive os investimentos em infraestrutura imprescindíveis tanto ao desenvolvimento como ao enfrentamento dos problemas ambientais reais, acabaram retidas no próprio sistema financeiro em atividades especulativas desvinculadas da economia real.

Em paralelo, o sistema financeiro centrado no dólar vê a sua hegemonia crescentemente contestada pela mudança do centro de gravidade geoestratégico e geoeconômico do planeta para a região eurasiática, impelida pela sinergia China-Rússia, parceiras na construção de um novo paradigma cooperativo nas relações internacionais, cujo carro-chefe econômico é a Iniciativa Cinturão e Rota ou Nova Rota da Seda, vasto programa de desenvolvimento de infraestrutura interligando a Ásia com a Europa e a África.

Daí a pressa para o “esverdeamento” das finanças internacionais, tanto para proporcionar uma válvula de escape para a massa de ativos especulativos ameaçados de implosão, como para elevar a um novo patamar a utilização do meio ambiente como critério de desenvolvimento dos países, função para a qual o movimento ambientalista foi criado há mais de meio século, com a seleção das atividades econômicas merecedoras dos investimentos sintonizados com as exigências dos novos tempos.

Sem surpresa, as propostas mais delirantes vêm da Europa, onde tal agenda está mais adiantada. Em meados de abril, a recém-criada Aliança Europeia para uma Recuperação Verde divulgou um manifesto assinado por 180 líderes políticos, executivos de multinacionais, lideranças sindicais, representantes de ONGs e especialistas em várias disciplinas científicas, pedindo que a “luta contra a mudança climática” seja colocada no “núcleo da estratégia econômica” da União Europeia (UE) para o pós-pandemia.

Entre os signatários, estão 79 deputados do Parlamento Europeu, 37 executivos-chefes de multinacionais e grandes empresas, 28 associações empresariais e federações sindicais e ONGs como o WWF, Birdlife e Climate Action Network (CAN), muitos deles, não por acaso, engajados na agenda da “financeirização verde”.

O manifesto afirma, em parte:

Após a crise, será hora de reconstruir. Este momento de recuperação será uma oportunidade para repensar a nossa sociedade e desenvolver um novo modelo de prosperidade… Esses maciços investimentos devem deflagrar um novo modelo econômico europeu: mais resiliente, mais protetor, mais soberano e mais inclusivo. Todos estes requisitos residem em uma economia construída em torno de princípios verdes. De fato, a transição para uma economia neutra em clima (sic), a proteção da biodiversidade e a transformação dos sistemas agroalimentícios têm o potencial para prover rapidamente empregos, crescimento e melhorar o meio de vida de todos os cidadãos em todo o mundo, e contribuir para a construção de sociedades mais resilientes.

Isso não é uma questão de criar uma nova economia do zero. Nós já temos todas as ferramentas e muitas tecnologias novas. Nos últimos dez anos, um tremendo sucesso tem sido obtido na maioria dos setores da transição, desenvolvendo novas tecnologias e cadeias de valores e reduzindo dramaticamente o custo da transição (inclusive, entre outros: energia renovável, mobilizade de emissão zero, agroecologia, eficiência energética…). Há dez anos, veículos de emissão zero eram apenas protótipos. Há dez anos, a energia eólica era três vezes mais cara do que hoje e a solar, sete vezes. (…)

Os signatários se comprometem a trabalhar juntos, “compartilhar conhecimentos, trocar experiência e criar sinergias” para viabilizar os necessários investimentos de “recuperação verde”. Além disso, endossam o chamado Pacto Verde da Comissão Europeia, por ter um “enorme potencial para reconstruir” a economia do bloco.

Um importante reforço à agenda veio do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, para quem os investimentos dos governos para a proteção das empresas prejudicadas pela pandemia deveriam privilegiar as que criem “empregos verdes” e as atividades que promovam “crescimento sustentável e inclusivo”. Esses recursos, afirmou, não devem “socorrer indústrias ultrapassadas, poluentes e intensivas em carbono” (The Guardian, 28/04/2020).

Falando no Diálogo Climático de Petersburg, uma videoconferência que reuniu representantes de mais de 30 países, Guterres recebeu o apoio da chanceler alemã Angela Merkel, que afirmou: “É importante que os programas de recuperação sempre mantenham um olho no clima. Não devemos colocar o clima de lado, mas investir em tecnologias climáticas (sic).”

Colaboração francesa para o radicalismo “verde”

Entretanto, é na França que os grupos mais radicais estão se manifestando. Um exemplo é a Convenção Cidadã para o Clima (Convention Citoyenne pour Le Climat), grupo de 150 cidadãos supostamente escolhidos aleatoriamente na sociedade, na esteira das manifestações semanais dos “Coletes Verdes” (Gilets jaunes), encarregado pelo presidente Emmanuel Macron de “definir uma série de medidas que permitirão se obter uma redução de pelo menos 40% nas emissões de gases de efeito estufa até 2030 (comparadas às de 1990), em um espírito de justiça social”.

Em um boletim de imprensa divulgado em 10 de abril, o grupo se manifestou

(…) em favor de uma saída da crise [da pandemia – n.e.], “que não seja obtida em detrimento do clima, dos humanos e da biodiversidade” e “que prepare para um umdelo econômico e societário diferente, mais humano e resiliente”. Ademais, eles [os membros do grupo – n.e.] instam o governo a assegurar que “o financiamento que seja mobilizado no âmbito da recuperação da crise seja socialmente aceitável e dirigido a soluções verdes”, e que “os investimentos sejam concentrados em setores orientados para o futuro e amigáveis ao clima”. Eles se expressam em favor de uma “reconfiguração das relações internacionais… em um espírito de justiça social”, com uma regulação da globalização que seja “amigável ao clima” e uma “relocação de atividades em setores estratégicos, para assegurar a nossa segurança alimentícia, de saúde e energética”.

Embora o grupo não tenha divulgado o elenco de propostas discutido nas suas reuniões virtuais, um rascunho obtido pelo sítio Climate Change News (17/04/2020) proporciona um vislumbre do alcance das mesmas:

– um plano de investimentos para a agricultura: promovendo redes de alimentos locais, assegurando que 50% das terras agrícolas sejam desenvolvidas de acordo com práticas agroecológicas até 2040;

– redução da pegada de carbono da indústria e produção, pelo incentivo às redes locais de distribuição, reduzindo a poluição e incentivando abordagens sustentáveis;

– promoção da produção de energia renovável em pequenas unidades, para assegurar que todos os cidadãos, negócios e autoridades locais possam contribuir para a produção de eletricidade verde a partir de 2023;

– banimento da propaganda dos produtos mais poluentes, com base em uma pontuação de emissões de CO2 e incentivando mensagens públicas contra o consumo excessivo;

– assegurar que o apoio público à inovação seja alinhado com objetivos de redução de emissões e promoção de tecnologias limpas até 2025;

– reformar as políticas comerciais da UE, para promover as redes locais de distribuição e evitar o consumo excessivo.

Qualquer semelhança com a agenda da “financeirização verde” não é coincidência, pois as conclusões da Convenção Cidadã não resultaram de um debate franco entre cidadãos escolhidos ao acaso entre a sociedade francesa. O seu comitê de governança é copresidido por Laurence Tubiana, presidente e diretora-executiva da European Climate Foundation (ECF), e Thierry Pech, diretor-executivo da Terra Nova, think-tank ligado ao Partido Socialista francês e próximo das posições do presidente Emmanuel Macron, que controlam a agenda e as discussões, direcionando-as no rumo desejado. A ECF é uma das principais fundações privadas engajadas na promoção da agenda dos “negócios climáticos”, abraçada pelos socialistas franceses e por Macron (ele próprio, ex-membro do partido).

Em meio a essas elucubrações, emergem ideias extremamente delirantes, como a da ONG francesa Wings of the Ocean, que propõe a substituição de grande parte do transporte aéreo por veleiros oceânicos, chegando a sugerir que as instalações da Airbus em Toulouse poderiam ser parcialmente convertidas para a construção de cascos de veleiros. Outra proposta é o redirecionamento dos recursos públicos destinados à proteção da estratégica indústria aeronáutica francesa para o estabelecimento de “microgranjas” em todo o país, para assegurar a segurança alimentícia nacional. Um vídeo de seis minutos descreve estas e outras propostas da ONG, que responsabiliza a aviação mundial pela proliferação do coronavírus (seguramente, escapou aos seus dirigentes que a Peste Negra do século XIV chegou à Europa em navios à vela provenientes da Ásia).

Visões e propostas delirantes como essas devem ser esperadas, em volume crescente, no ambiente pró-apocalíptico em que têm ocorrido as discussões sobre as questões ambientais, em especial, as referentes ao clima global. Este é um fator que tende a dificultar ainda mais os cruciais debates sobre as imprescindíveis mudanças para o cenário pós-pandemia, que, para países como o Brasil, representam uma oportunidade singular para uma guinada histórica rumo à construção de uma Nação próspera, inclusiva e protagonista global, compatível com os seus enormes recursos humanos e naturais.

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