Ucrânia: titereiros movimentam cordeis para quebrar trégua

Aeroporto-Donetsk

Apesar de o cessar-fogo acordado na conferência de Minsk se encontrar vigente desde fevereiro, um número crescente de evidências sugere que a trégua na Ucrânia poderá não durar muito, uma vez que o governo de Kiev e seus titereiros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) parecem determinados a retomar as hostilidades contra os insurgentes do Leste. E o objetivo, que não fazem questão de ocultar, é motivar uma intervenção militar da Federação Russa, dentro da insana agenda do “Partido da Guerra” – a coalizão belicista que tem dado as cartas em Washington e Bruxelas – para deflagrar um conflito de alta intensidade no Leste da Europa e adiar sine die qualquer perspectiva de cooperação entre a União Europeia (UE) e a Rússia, quanto ao desenvolvimento conjunto da vasta região eurasiática.

Nas últimas semanas, as milícias de autodefesa da região de Donbass têm denunciando que, ao contrário do estabelecido pelo cessar-fogo, as forças de Kiev não só não retiraram a sua artilharia pesada da zona neutra estabelecida ao redor da área conflagrada, como têm realizado repetidos exercícios de tiro real, com o claro intuito de intimidar os insurgentes.

Outra violação do acordo, ostensivamente ignorada pela mídia e pelos governos ocidentais, é a presença de centenas de “assessores militares” estadunidenses, canadenses e britânicos, além de um número indeterminado de mercenários da empresa Academi (a antiga Blackwater) junto às forças de Kiev. Segundo o Ministério da Defesa russo, militares pertencentes da 173ª Brigada Aerotransportada dos EUA estariam participando de “treinamentos” na região de Donetsk, a apenas 20-30 quilômetros da zona de conflito.

Além disso, de forma significativa, o treinamento proporcionado envolve o emprego de armamentos de fabricação estadunidense, e não das armas e munições de origem russa e ucraniana, tradicionalmente utilizadas pelos militares do país – uma indicação firme de que Washington pretende concretizar a entrega de armamentos letais a Kiev.

Um aspecto adicional é que grande parte da colaboração envolve as forças da Guarda Nacional ucraniana, infestadas por elementos neonazistas e perpetradoras das ações mais ferozes durante as recentes campanhas ofensivas no Leste, inclusive, contra a população civil. Até agora, o conflito já provocou cerca de 6 mil mortes na região, entre civis e milicianos. O número de baixas das forças de Kiev é desconhecido, mas se estima que esteja na mesma ordem de grandeza.

Nos últimos dias, o buliçoso embaixador estadunidense em Kiev, Geoffrey Pyatt, voltou a reforçar a campanha de propaganda anti-russa, afirmando nas redes sociais uma declaração alarmista sobre “a maior concentração de forças de defesa antiaérea russas no Leste da Ucrânia desde agosto”. Para “corroborar” a afirmativa, exibiu como prova uma fotografia de um sistema de defesa antiaérea Buk, prontamente desmentida como tendo sido tirada em uma exposição militar realizada em Moscou – em 2013!

Em Washington, Pyatt recebeu o reforço do Departamento de Estado, na figura da porta-voz Marie Harf, já célebre entre os jornalistas sérios pelos malabarismos retóricos que faz para explicar o inexplicável. Confrontada com a mesma acusação sobre a presença de armas antiaéreas russas em Donbass, ela não soube responder sobre o número das alegadas tropas de Moscou na região. “É realmente difícil ter informações precisas sobre o número de tropas russas, especificamente, mas nós sabemos que há uma substancial presença russa”, desconversou.

Vários comentaristas que têm acompanhado o conflito, como o irlandês Finnian Cunningham, receiam que, além das ostensivas mentiras sobre a presença militar russa na região, o desespero dos belicistas de Washington poderá levá-los a provocar ataques terroristas do tipo “bandeira falsa” (false flag, no jargão de inteligência), que seriam atribuídos aos insurgentes. “Tal atrocidade, amplificada pela obediente mídia ocidental, poderia, por sua vez, ser citada como uma ‘justificativa’ para a retomada das hostilidades”, escreveu ele, em um artigo reproduzido em numerosos sítios (Strategic-Culture.org, 26/04/2015). Em suas palavras:

Os fatores combinados nessa equação não auguram nada de positivo. Tropas dos EUA e da OTAN no terreno, no Leste da Ucrânia, trabalhando com paramilitares neonazistas, mais renovadas e audaciosas tentativas midiáticas de criminalizar a Rússia. Esse conjunto de fatores equivale a um retorno a uma guerra aberta, desta vez com a participação da OTAN. As provocações à Rússia têm que ser vistas no contexto ainda mais preocupante do acúmulo de tropas, aviões de combate, navios de guerra e mísseis da OTAN liderada pelos EUA, em todo o Leste Europeu – todos voltados contra a Rússia. Isto leva à conclusão inevitável de que Washington está coreografando os eventos para uma guerra aberta com a Rússia.

Para complicar, o surto de irracionalidade que tem acometido a UE em relação à questão ucraniana parece estar se agravando. Pelo menos, a julgar pelas declarações quase inacreditáveis de alguns dos seus altos representantes, feitas em um recente seminário promovido pelo Centro Wilfried Martens para Estudos Europeus, ligado ao Partido do Povo Europeu (EPP, na sigla em inglês), dono da maior bancada no Parlamento Europeu.

No evento, que discutiu a posição europeia frente à Rússia, o eurodeputado polonês Jacek Saryusz-Wolski, vice-presidente do EPP, vociferou: “O tempo de conversas e persuasão acabou. Agora, é hora de uma política dura, uma política realista [sic] e concentração em defesa e segurança, porque o flanco oriental da UE se sente vital e existencialmente ameaçado.”

Ainda mais agressivo, o vice-diretor do Centro, Roland Freudenstein, lamentou o que considerou o despreparo europeu para um eventual confronto nuclear com a Rússia: “Isso precisa mudar… Nós temos deixar claro que, sim, estamos dispostos a ir à guerra, pelo que consideramos os princípios existenciais do futuro da Europa… Na Alemanha, neste momento, a deterrência nuclear da OTAN consiste de 20 bombas do tipo B-61 de queda livre e enferrujadas, que poderiam ser varridas por um único golpe das forças russas. Essas são as coisas que temos que mudar – temos que entrar em forma.”

Para o aguerrido conferencista, os líderes ocidentais deveriam transmitir à Rússia uma clara mensagem de que o seu comportamento é “inaceitável” e que a Europa está preparada para resistir.

Um século depois do morticínio da Primeira Guerra Mundial e a poucos dias da celebração do fim da Segunda na Europa, chega a ser quase surreal ver lideranças europeias ávidas por uma nova conflagração no continente – e com armas nucleares! Em suas tumbas, devem estar rolando de indignação e vergonha os líderes da geração que vivenciou as duas tragédias mundiais – Charles de Gaulle, Konrad Adenauer, Alcide de Gasperi, Robert Schumann e outros, que fazem os seus atuais sucessores parecerem anões deformados.

x

Check Also

Santa Sofia e Jerusalém, duas faces da mesma moeda do “choque das civilizações”

Em 10 de julho, o presidente turco Recep Erdogan anunciou em cadeia nacional de televisão ...