Tillerson: EUA não admitem concorrência no “quintal”

O secretário de Estado estadunidense Rex Tillerson pode ser acusado de muitas coisas, menos de ser dissimulado. Ex-executivo-chefe da gigante petroleira ExxonMobil, ele prefere a linguagem direta do big business aos floreios e volteios diplomáticos. Por isso, não fez rodeios sobre o objetivo central da sua viagem a cinco países da América Latina e do Caribe (México, Argentina, Peru, Colômbia e Jamaica), entre 1 e 7 de fevereiro: reafirmar a hegemonia dos EUA no Hemisfério Ocidental, diante da presença crescente da China e da Rússia na região. Em outras palavras, colocar ordem no “quintal” hemisférico.

Oficialmente, segundo o boletim do Departamento de Estado, o objetivo genérico da viagem é “promover um hemisfério seguro, próspero, democrático e com segurança energética”. Às vésperas da viagem, Tillerson fez um discurso no Instituto de Estudos Latino-americanos da Universidade do Texas em Austin, no qual deu mais detalhes sobre tal agenda.

Sobre energia, observou que o continente “tornou-se a força energética deste século, em grande medida, graças à rápida expansão na produção de gás natural e óleo de folhelhos… O resto do hemisfério pode usar a experiência norte-americana como modelo. Nós vemos um futuro onde a conectividade de energia do Canadá ao Chile poderá construir e aproveitar a integração energética através das Américas, provendo uma maior segurança energética ao hemisfério e estabilidade às economias em crescimento”.

“A América do Sul é abençoada com abundantes recursos energéticos. A Colômbia, o Peru, o Brasil, a Guiana e a Argentina, todos têm significativos depósitos de petróleo e gás natural não desenvolvidos. Os EUA estão sequiosos de ajudar os nossos parceiros a desenvolver os seus próprios recursos de forma segura e responsável, na medida em que a demanda de energia continua a crescer”, disse Tillerson (grifos nossos).

Considerando que as perspectivas da exploração dos hidrocarbonetos de folhelhos nos EUA são, no mínimo, incertas, pode-se especular que Washington estaria buscando assegurar a continuidade dos negócios do setor, expandindo a área de atuação das empresas estadunidenses. Um recém-publicado estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) sobre a exploração dos folhelhos em Dakota do Norte observou que a tecnologia foi responsável apenas pela metade da produtividade dos poços no estado, com o restante vindo da exploração dos poços mais favoráveis (Financial Times, 26/01/2018). Traduzindo: os lucros dependem da contínua expansão das áreas de exploração mais promissoras.

Entretanto, o mais interessante e irônico do discurso foram as diatribes disparadas por Tillerson contra a China e a Rússia, rotulando-as como “atores predatórios” e, particularmente, referindo-se à China, “potência imperial”. Candidamente, chegou a afirmar que “a América Latina não precisa de uma nova potência imperial” – além dos EUA, bem entendido.

Lamentando que a China já seja o principal parceiro comercial da Argentina, Brasil, Chile e Peru, o secretário acusou o país asiático de “oferecer a aparência de um caminho atrativo para o desenvolvimento, mas, em realidade, isto envolve troar os ganhos de curto prazo pela dependência de longo prazo”.

Sem ruborizar-se, ele advertiu que “a nossa região deve ser diligente em precaver-se contra potências distantes que não refletem os valores fundamentais compartilhados nesta região”.

Tillerson e seus pares têm motivos para preocupar-se. Em 22 de janeiro, ocorreu em Santiago do Chile o segundo encontro interministerial do Fórum China-Celac, no qual os representantes dos 33 Estados membros da Comunidade de Estados Latino-americanos e do Caribe (Celac) endossaram oficialmente a Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, na sigla em inglês), o vasto programa de desenvolvimento econômico e integração física da Eurásia, manifestando igualmente a intenção de participar ativamente dele. Embora as nações do hemisfério precisem acautelar-se para que as suas relações com o gigante asiático não sejam de subordinação, a BRI sinaliza uma perspectiva um tanto superior às iniciativas de “soma zero” oriundas do eixo Washington-Nova York, quase invariavelmente, o maior beneficiário delas.

Não por acaso, em dezembro, a Fundação Nacional para a Democracia (NED), braço oficioso do “governo paralelo” estadunidense, divulgou um alarmante relatório sobre a crescente presença chinesa no hemisfério. Nele, lamenta que a China esteja oferecendo à região a possibilidade de “oportunidades econômicas” que os EUA e seus aliados não podem equiparar.

Quanto à Rússia, afirmou que a sua “crescente presença na região é alarmante”, por continuar a “vender armas e equipamentos militares a regimes não amigáveis que não compartilham ou respeitam valores democráticos”.

Considerando que a Argentina, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela operam armas e equipamentos militares de fabricação russa, fica-se com a impressão de que a contrariedade do secretário decorre mais da perda de parte de um mercado que anteriormente era quase cativo de Washington, do que de qualquer profissão de fé democrática.

Até porque ele não hesitou em sugerir nada menos que um golpe de Estado contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro: “Na história da Venezuela e dos países sul-americanos, é frequente que os militares sejam os agentes de mudança quando as coisas são tão ruins que a liderança não pode mais servir ao povo.”

Em agosto último, o chefe de Tillerson, presidente Donald Trump, afirmou que os EUA estavam contemplando o uso da força militar para solucionar a crise política na Venezuela.

A agressividade de Tillerson contra a China e a Rússia sugere a intenção de travar uma nova “guerra fria” contra as duas potências, pela audácia de operar com tamanha desenvoltura na América Latina, que as elites estadunidenses sempre consideraram como o seu “quintal” exclusivo. Com a visível erosão do controle hegemônico do Grande Oriente Médio pelos EUA, frente ao novo protagonismo exercido pela Rússia na região, e o desafio ao domínio do petrodólar, lançado pela China, o Hemisfério Ocidental se apresenta como um campo prioritário para uma reconfiguração do poderio anglo-americano, que por sua natureza recusa-se a admitir o esgotamento das suas pretensões de hegemonia global.

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