Na sexta-feira 19 de maio, Oiapoque (AP) tornou-se o centro de um debate que o País não pode mais adiar, sobre os interesses aos quais respondem as políticas ambiental e indígena nacionais. Na cidade que assinala o limite norte do Brasil, lideranças políticas do Amapá e outros estados amazônicos, inclusive indígenas, acadêmicos, técnicos e cidadãos comuns, reuniram-se para discutir o veto do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) à perfuração de um poço exploratório da Petrobras no chamado Bloco 59, a 160 km do litoral do estado, anunciado dois dias antes.
O ambiente era de indignação e inconformismo com a decisão, que impede a Petrobras de investigar a viabilidade comercial da Bacia da Foz do Amazonas, parte da chamada Margem Equatorial Brasileira, conjunto de bacias sedimentares considerado como um “novo pré-sal” em potencial e já explorado com grande sucesso em áreas semelhantes na Guiana e no Suriname (embora não tenha se provado viável na Guiana Francesa).
Pouco antes, em nota oficial, o governador do Amapá, Clécio Luís, resumiu o clima geral: “Essa foi uma decisão muito mais argumentada na ideologia de quem decidiu, de gabinete, frágil, totalmente fora da realidade da Amazônia. (…) Somos o estado mais preservado do Brasil, o mais protegido. Não é possível que nos seja negada a possibilidade de diversificarmos a matriz econômica do Amapá. Para proteger e preservar a Amazônia, tem que ouvir quem mora na Amazônia. (…) Entendemos que a exploração é uma operação extremamente complexa e, com certeza, vamos defender nossas riquezas naturais. Mas o que estamos defendendo é a pesquisa responsável, segura, ambiental e economicamente viável. Não podemos impedir o desenvolvimento sustentável do Amapá (Diário do Amapá, 18/05/2023).”
José Elito, líder do povo karipuna de Oiapoque, apresentou uma visão bem diferente da que os militantes do indigenismo internacional costumam atribuir coletivamente aos indígenas brasileiros: “Que venha o desenvolvimento, não só pro Oiapoque, mas pra todo o Amapá. A expectativa é de que aconteça. Estamos apoiando este grande empreendimento. A gente não está contra, estamos sempre a favor, pois trará benefícios pros povos indígenas (Diário do Amapá, 19/05/2023)”.
O também indígena vereador Luiz Fernando Anká (Avante), reforçou: “Eu penso nos meus filhos e meus netos. Estamos aqui para escutar quais serão os benefícios e contrapartidas para o município e comunidades indígenas.”
Manifestações como essas são emblemáticas do profundo abismo existente entre o mundo real vivido pelos amazônidas e a visão idílica de uma “Redoma Amazônia”, promovida pelo aparato ambientalista-indigenista internacional e implementada pelos comandados da ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, a quem o Ibama é subordinado. Agenda para a qual a Amazônia representa uma peça vital, como prestadora de “serviços ambientais”, principalmente, a captura de carbono, para justificar a continuidade do uso de combustíveis fósseis pelas economias industrializadas e a conversão de parte da colossal massa de ativos especulativos sem lastro que circula nos mercados financeiros internacionais por investimentos “sustentáveis”, o novo mantra das finanças globalizadas encarnado na “agenda ESG”, sigla em inglês para meio ambiente, social e governança.
Um agravante do problema é o fato de o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter na titular do MMA a sua principal fiadora junto à sacrossanta “comunidade internacional”, em especial, as potências que apoiaram entusiasticamente a sua campanha eleitoral e, nas últimas décadas, têm investido uma montanha de recursos a fundo perdido no financiamento das políticas ambiental e indígena nacionais. Não por acaso, desde fevereiro, o Brasil tem recebido uma procissão de visitas de representantes daqueles países, virtuais interventores neocoloniais, que vieram cobrar os compromissos assumidos por Lula com a agenda da “sustentabilidade”. Na mesma semana em que a decisão do Ibama foi anunciada, estavam aqui o fundador e presidente vitalício do Fórum Econômico Mundial (WEF), Klaus Schwab, e o presidente da Open Society Foundations do megaespeculador George Soros, Mark Malloch-Brown, para promover as maravilhas da “economia verde”. Ambos são velhos parceiros na elaboração de agendas de “engenharia social” a serviço das oligarquias internacionais do eixo Washington-Wall Street-Londres-Bruxelas (e ambos estiveram reunidos com Marina na reunião anual do WEF, em Davos, Suíça, em janeiro).
Na edição de 1º de maio, o jornal Hora do Povo denunciou: “A Open Society Foundations, uma arapuca de propriedade do bilionário e especulador húngaro-americano George Soros, com o objetivo de impor a obediência aos ditames de Washington e financiar as ‘revoluções coloridas’ nos países rebeldes pelo mundo afora, está em campanha contra os planos da Petrobrás de exploração das reservas de petróleo na Margem Equatorial, na região norte do Brasil.”
Vale registrar que o jornal é órgão do PCdoB, partido da base de apoio do governo.
No campo ideológico oposto, a Gazeta do Povo de 8 de maio observou: “Dentre as ONGs brasileiras que receberam recursos de Soros em 2021, a maior beneficiada foi o Instituto Clima e Sociedade. A entidade recebeu US$ 1,5 milhões (pouco mais de R$ 8 milhões). A ONG é comandada por Ana Toni, que presidiu o Conselho do Greenpeace Internacional e foi diretora da Fundação Ford no Brasil. Assim como a Open Society Foundations, a Fundação Ford promove causas progressistas mundo afora.”
Atualmente, Ana Toni é secretária de Mudança do Clima do MMA.
A importância do bloqueio da exploração petrolífera na Margem Equatorial foi evidenciada pela ultrajante nota com a qual o Observatório do Clima (OC) saudou o ukase do Ibama: “Ibama adia o fim do mundo ao negar licença ao Bloco 59 – País não pode abrir nova fronteira de petróleo em plena aceleração da crise climática (OC, 17/05/2023).”
O OC é uma coalizão de ONGs engajadas na pauta ambiental-climática-indígena. No início de maio, Marina Silva participou do encerramento da sua assembleia anual, demonstrando a sua afinidade com as atividades das “tropas de choque” do aparato ambientalista-indigenista.
Em entrevista à Rádio Bandeirantes (22/05/2023), o ex-deputado federal e ex-ministro Aldo Rebelo não mediu palavras: “É uma decisão política, e da pior política possível. A decisão do Ibama não é contra os interesses da Petrobras, é muito pior do que isso, é uma decisão contra os interesses do Brasil, contra os interesses da região mais pobre do nosso País, que é a Amazônia.” A origem da decisão, afirmou, está ligada a “interesses internacionais que estão representados no Ministério do Meio Ambiente, é duro dizer isso, e no Ibama, são esses interesses que prevalecem nas decisões, principalmente, nas relacionadas à Amazônia. Infelizmente, essa é a realidade”.
O desfecho desse imbróglio será determinante para o futuro imediato do Brasil. É hora de proclamar: Não ao “governo mundial”! Somos todos Amapá!

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