Semana didática sobre o alarmismo climático

A semana passada foi pedagógica na exposição da natureza política do alarmismo baseado na falaciosa percepção de que as atividades humanas estariam afetando a dinâmica climática em escala global.

Na segunda-feira 24 de outubro, a Organização Meteorológica Mundial (OMM), órgão das Nações Unidas, divulgou mais um boletim em tom apocalíptico sobre os supostos efeitos do aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera.

Abusando da linguagem alarmista que tem caracterizado as discussões e posicionamentos de autoridades sobre o assunto, o boletim de imprensa da OMM informa ao mundo que as concentrações médias globais de CO2 “atingiram a marca simbólica e significativa de 400 partes por milhão [ppm] pela primeira vez em 2015 e subiram novamente a novos recordes em 2016, como consequência do evento El Niño muito poderoso (OMM, 24/10/2016)”.

Segundo a OMM, as concentrações permanecerão “acima de 400 ppm durante todo o ano de 2016 e não baixarão daquele nível durante muitas gerações”.

O boletim admite que a elevação foi alimentada pelo forte El Niño (aquecimento das águas do Oceano Pacífico Oriental) que começou em 2015 e teve um forte impacto no clima de boa parte deste ano. E adverte que “isso provocou secas em regiões tropicais e reduziu a capacidade dos ‘reservatórios’ [de carbono] como florestas, vegetação e os oceanos, para absorver o CO2”, saturando-os e aumentando a fração do gás que permanece na atmosfera.

Com uma redação confusa para leigos desavisados, o boletim avisa que:

Entre 1990 e 2015, houve um aumento de 37% no forçamento radiativo – o efeito de aquecimento sobre o nosso clima –, devido aos gases de efeito estufa de longa vida [permanência na atmosfera – n.e.], como o dióxido de carbono, metano e óxido nitroso (N2O), das atividades industriais, agrícolas e domésticas.

Em seguida, o secretário-geral da OMM, o finlandês Petteri Taalas, dá a sua contribuição para o esclarecimento da humanidade preocupada:

O ano de 2015 inaugurou uma nova era de otimismo e ação climática, com o acordo de mudanças climáticas de Paris. Mas também fará história como o marco de uma nova era de realidade de mudanças climáticas, com altas concentrações recordistas de gases de efeitos estufa. O evento El Niño desapareceu. As mudanças climáticas, não.

Como um competente tecnocrata a serviço da indústria aquecimentista, Taalas adverte que:

Sem enfrentar as emissões de CO2, nós não podemos enfrentar as mudanças climáticas e manter os aumentos de temperaturas abaixo de 2oC acima da era pré-industrial. Portanto, é da maior importância que o Acordo de Paris entre em vigor bem antes do roteiro, em 4 de novembro, e que aceleremos a sua implementação.

Para tanto, o boletim informa que a OMM e seus parceiros estão trabalhando na criação de um Sistema Integrado de Informações Globais sobre Gases de Efeito Estufa, para ajudar as nações a implementar as suas metas nacionais de cortes de emissões desses perigosíssimos gases.

Desafortunadamente, em momento algum, o boletim informa que as concentrações de CO2 não condicionam as temperaturas atmosféricas, como mostram os registros geológicos que apontam concentrações até 10-15 vezes maiores que as atuais, sem que haja uma correlação precisa entre ambas (vide a Fig. 1). Mas, como a falsa correlação CO2/temperaturas se tornou a justificativa para a existência da indústria aquecimentista, que movimenta recursos da ordem de centenas de bilhões de dólares anualmente, com o mercado de créditos de carbono, equipamentos de captura de carbono, consultorias, financiamento de pesquisas acadêmicas e uma pletora de outras atividades, não seria a OMM que estragaria esse festim.

Fig. 1 – Concentrações de CO2 na atmosfera x temperaturas, nos últimos 550 milhões de anos antes do presente (AP). Observe-se que a regra geral na história geológica do planeta são concentrações bastante superiores às atuais, sem que isto tenha causado qualquer “desordem” na evolução das temperaturas atmosféricas (Fonte: R.A. Barner e C.R. Scotese).

Talvez, inspirados por tanto alarmismo, especialistas ouvidos pelo New York Timesacrescentaram mais uma calamidade à já quilométrica lista de fenômenos atribuídos às mudanças climáticas. Em Bangladesh, afirmam, elas poderão exacerbar a pobreza e provocar um novo surto de casamentos infantis (New York Times, 25/10/2016). Em respeito à inteligência dos leitores, declinamos de fazer qualquer comentário a respeito.

Pesquisa reveladora

Por ironia, uma pesquisa online feita por outra agência das Nações Unidas sugere que, ao contrário das expectativas dos “aquecimentistas”, a percepção popular sobre a suposta gravidade das questões climáticas ocupa um lugar bem menos relevante nas suas preocupações cotidianas. A pesquisa, que até agora envolveu mais de 9,7 milhões de pessoas de países de todos os continentes, pede aos participantes que escolham seis opções entre assuntos que seriam mais importantes para eles e suas famílias. No momento em que a consultamos, os resultados gerais eram os seguintes:

– boa educação: 67,0%;

– melhores cuidados de saúde: 56,7%;

– melhores oportunidades de trabalho: 55,8%

– um governo honesto e que responda às necessidades da população: 45,4%;

– alimentação acessível e nutritiva: 40,9%;

– proteção contra o crime e a violência: 37,8%;

– acesso à água limpa e ao saneamento: 36,8%;

– apoio às pessoas que não podem trabalhar: 33,6%;

– melhores transportes e estradas: 32,7%;

– igualdade entre homens e mulheres: 30,0%;

– energia confiável em casa: 29,8%;

– liberdades políticas: 28,7%;

– liberdade da discriminação e de perseguições: 27,6%;

– proteção de florestas, rios e oceanos: 25,7%;

– acesso a telefones e à internet: 25,2%;

– ações contra as mudanças climáticas: 20,3%.

Os números demonstram que dois temas de destaque da agenda ambientalista, a proteção de florestas, rios e oceanos e as ações contra as mudanças climáticas, ocuparam, respectivamente, o antepenúltimo e o último lugar nas preocupações dos respondentes da pesquisa. Nos seis primeiros lugares, problemas que a maioria da população mundial considera bem mais urgentes: boa educação; melhores cuidados de saúde; melhores oportunidades de trabalho; governos honestos e que respondam às necessidades da população; alimentação acessível e nutritiva; e proteção contra o crime e a violência.

Como a pesquisa permite tabular os resultados por faixas de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos países de origem dos participantes, gênero, nível educacional e idade, surgem números bastante interessantes.

Nos países de IDH muito alto, a proteção das florestas, rios e oceanos sobe para o oitavo lugar, com 43,3% de preferências, e as ações climáticas, para décimo, com 33,7%, ainda assim, distantes da educação (61,8%), governo responsável (54,9%), acesso à água e saneamento (50,0%), proteção contra crime e violência (46,3%), alimentação (46,0%) e cuidados de saúde (45,7%).

Para os habitantes dos países de baixo IDH, as cinco primeiras opções coincidem com a média global: boa educação (71,7%); melhores cuidados de saúde (60,2%); melhores oportunidades de trabalho (55,0%); um governo honesto e que responda às necessidades da população (46,7%); e alimentação acessível e nutritiva (41,2%). Em sexto lugar, a opção preferida foi a de melhores transportes e estradas, com 38,2%. Já a proteção das florestas, rios e oceanos foi deslocada para o penúltimo lugar (15,8%) e as questões climáticas, para a lanterna, com apenas 13,1%.

Curiosamente, 43,8% dos participantes são destes países, contra apenas 4,9% de países de IDH muito alto, o que sugere que os primeiros têm muito mais interesse em serem ouvidos e levados em conta na formulação das políticas públicas, tanto nacionais como de alcance global.

Os resultados sugerem que a maioria da população mundial demonstra uma percepção muito mais realista sobre a pauta necessária de “emergências globais” do que a que lhe é oferecida pelas elites dirigentes do planeta.

Em tempo: a pesquisa ainda não foi encerrada, pelo que instamos os leitores a participar dela.

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