Sanções à Rússia aumentam emissões de carbono

Na Europa, as sanções impostas à Rússia pela ação militar na Ucrânia incluíram a decisão de reduzir até zero as importações de petróleo e gás natural do país. Porém, isto implicará não só no maior uso de carvão e hidrocarbonetos mais poluentes (como o gás de folhelhos importado dos EUA), mas também da energia nuclear renegada pelos “verdes”, caso da Alemanha, que deverá reverter o fechamento das suas últimas usinas nucleares – decisão que poderá trazer um pouco de realismo aos formuladores de políticas de Berlim.

Em um irônico comentário feito em sua conta no Telegram, o ex-presidente russo Dmitri Medvedev, atual vice-presidente do Conselho de Segurança do país, observou: “A quem importam agora o aquecimento global e os objetivos de desenvolvimento sustentável declarados pela ONU?” A Europa, disse, “espera o que antes tanto repudiava… os aliados da potência mais rica não têm tempo para que lhes recordem que o processo de produção de petróleo de folhelhos nos EUA está causando um dano ambiental recorde”. E disparou: “É surpreendente como, sem pensar um segundo, os europeus cuspiram sobre todos os seus ‘valores imutáveis’ das últimas décadas, todos os ‘desafios e ameaças globais’ (RT, 11/04/2022).”

Na mesma linha, o ministro da Economia e Proteção Climática da Alemanha, Robert Habeck, também vice-chanceler federal e um dos líderes do Partido Verde, convocou a população a poupar energia, mesmo em meio à crise energética que atinge o país, para “contrariar” o presidente russo Vladimir Putin.

Em declarações feitas na quinta-feira 14 de abril, Habeck conclamou: “Peço a todos que contribuam para a economia de energia. Só podemos ser mais independentes das exportações russas se considerarmos isto como um grande projeto conjunto em que todos participemos (RT, 15/04/2022).”

Entre as suas propostas, ele sugeriu que as empresas permitam aos seus funcionários trabalharem em casa um ou dois dias por semana e recomendou o uso de bicicletas e trens em vez de automóveis: “Isso é mais interessante para a carteira e contraria Putin.”

Outra medida sugerida foi fechar as cortinas à noite, para ajudar na calefação das casas, que, segundo seus cálculos, poderia economizar até 5% de eletricidade, número que subiria para 6% com a diminuição de 1oC nos termostatos. “Pode ser que não seja tão cômodo, mas não se congelarão”, justificou.

Segundo Habeck, o governo “está fazendo todo o necessário” para evitar uma crise grave na economia, mas admitiu que poderão surgir problemas de abastecimento energético que motivem o fechamento de fábricas, o que qualificou como “um pesadelo de política econômica”.

Já seu colega da pasta da Agricultura, Cem Özdemir, recomendou um menor consumo de carne para contribuir na luta contra a Rússia, que, segundo ele, estaria usando suas exportações de trigo como armas: “Comer menos carne seria uma contribuição contra Putin.”

Habeck e Özdemir não são os únicos dirigentes europeus a fazer tais propostas bizarras sobre a necessidade de economia de energia nos países do bloco. No final de março, a comissária de Competição Europeia, Margrethe Vestager, recomendou a sério: “Controlem os seus próprios banhos e os dos seus filhos. E quando fecharem a água, digam: ‘Tome isto, Putin!’.”

Por outro lado, as sanções estão catalisando o estabelecimento de um novo sistema monetário e financeiro internacional paralelo ao baseado no dólar estadunidense e controlado por Washington e Wall Street. O sistema emergente, encabeçado pela própria Rússia e, principalmente, pela China, se baseia no uso crescente de moedas nacionais no comércio entre economias relevantes e na pretendida criação de uma moeda de referência baseada em uma cesta de moedas e matérias-primas, inclusive ouro, hidrocarbonetos, grãos e outras.

A iniciativa russa de “lastrear” o rublo em ouro e outros recursos naturais tem o potencial de um virtual divisor de águas, não apenas na esfera econômica, mas também colocando em xeque os pilares centrais da ideologia ambientalista, inclusive o bizarro conceito do “carbono zero”.

Diante desse novo quadro, é significativo que alguns próceres do sistema hegemônico estejam soando os sinais de alerta. Entre eles, destaque para Larry Fink, o todo poderoso CEO do BlackRock, o maior fundo gestor de ativos do mundo, cujos US$ 10 trilhões de ativos fariam da empresa o terceiro PIB (Produto Interno Bruto) do planeta. Na carta aos acionistas divulgada em 24 de março último, ele advertiu que “a invasão russa da Ucrânia pôs um fim na globalização que temos experimentado nas últimas três décadas”.

Uma das consequências, segundo ele, será uma renacionalização das cadeias produtivas, pois “companhias e governos estarão também estarão prestando atenção mais amplamente nas suas dependências de outras nações… (isto) pode levar as companhias a trazer de volta ou para perto as suas operações, resultando em uma saída mais rápida de alguns países”.

E outro problema, diz, será um retardamento da agenda do “carbono zero”, devido à necessidade de os países europeus, asiáticos e os EUA buscarem novas fontes de energia independentes da Rússia, sendo obrigados a recorrer aos tradicionais petróleo, gás natural e carvão. Evidentemente, ele se diz otimista no longo prazo, presumindo que a necessidade irá acelerar a busca pelas fontes “limpas” cantadas em prosa e verso pelos mentores da agenda da “descarbonização”.

Todavia, é possível que, nesse longo prazo, o catastrofismo ambiental e climático e suas engrenagens financeiras, estabelecidos sobre a hegemonia do dólar, sejam páginas viradas da História.

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