Rio+20 e saneamento insustentável

A agenda ambiental dos países em desenvolvimento, sobretudo o Brasil, deveria conceder prioridade a problemas fundamentais, como garantir os serviços mínimos de saneamento a toda a população. Esta é a contundente mensagem de Édison Carlos, presidente executivo do Instituto Trata Brasil, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) dedicada à promoção da necessidade de expansão dos serviços de saneamento básico no País. Em artigo publicado no jornal O Globo de 5 de junho, Dia do Meio Ambiente, o especialista alerta que o País tem problemas ambientais muito mais urgentes do que debater supostas urgências ambientais alardeadas pelo mundo.

No texto, Carlos critica a falta de foco na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), a ser realizada entre os próximos dias 13 a 22 de junho, no Rio de Janeiro. Segundo o especialista, é louvável que haja uma oportunidade para debater grandes temas ambientais em âmbaito internacional, como clima, energia e outros. Porém, ele destacou a pobreza como o “mais importante de todos os impactos ambientais”. Para ele, é necessário chamar a atenção dos envolvidos nas negociações para as graves lacunas que persistem e contribuem para o fosso que separa os países desenvolvidos dos subdesenvolvidos.

Todavia, a falta de saneamento básico, que é um dos principais problemas ambientais brasileiros, continua sendo subvalorizado nos debates. Segundo Édson Carlos, os índices brasileiros são “vergonhosos”: um quinto da população não recebe água tratada; 55% dos brasileiros não têm suas casas conectadas a uma rede coletora de esgoto e, do esgoto coletado, uma fração ínfima é tratada. Além disso, estima-se que 40% da água tratada é desperdiçada em todo o País.

O especialista questionou: como pode uma das maiores economias do planeta continuar permitindo que as suas crianças convivam com “diarréia, cólera, hepatite, verminoses e tantas outras doenças da água poluída?”. Segundo pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas, em 2009, sob solicitação do Instituto Trata Brasil, quase 70 mil crianças até 5 anos foram internadas por diarréia e cerca de 200 mil trabalhadores tiveram que se afastar do trabalho por conta deste problema.

Édison Carlos observou que a solução da questão do saneamento básico não é simples, e que seriam necessários investimentos da ordem de R$ 70 bilhões, apenas para melhorar, ampliar e proteger os sistemas condutores de água – além de coletar e tratar os esgotos jogados indiscriminadamente nos mesmos locais de onde se retira a água para a população. Ainda que tenha havido avanços no setor nos últimos anos, a verdade é que os recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) estão longe do montante necessário para reverter este déficit.

Todavia, o presidente do Instituto Trata Brasil considera que levar saneamento básico a toda a população não é um luxo, mas o mínimo, uma obrigação em qualquer lugar do mundo. E o problema ganha contornos ainda mais dramáticos quando se observa que, segundo o Atlas da Agência Nacional de Águas, publicado em 2011, 55% dos 5.565 municípios do País podem sofrer desabastecimento de água nos próximos quatro anos, e que 84% das cidades necessitam de investimentos para adequar os seus sistemas de captação e distribuição de água potável.

O especialista conclui ser fundamental que a “Rio+20 olhe para o micro”, para o básico, antes de querer debater riscos hipotéticos ao meio ambiente, a despeito da sua popularidade. Ele destaca o absurdo de, em pleno século XXI, cerca de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo não têm acesso a redes de saneamento das mais básicas, sendo obrigadas a conviver com doenças da Idade Média – para complicar, a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que o número pode crescer para 3 bilhões de pessoas até 2015. Além disso, qualificou a falta de serviços como água tratada, coleta e tratamento de esgotos nada menos do que uma “afronta à dignidade humana”.

É extremamente louvável que um especialista venha a público colocar, de forma tão contundente, uma das reais e mais graves emergências ambientais da atualidade, no Brasil e no mundo. Esperamos que, nesses dias de celebração da natureza, no âmbito da realização da Rio+20, esta percepção se amplie e consolide-se na opinião pública, ajudando a reorientar as preocupações da cidadania engajada e a agenda política das autoridades.

One comment

  1. Parabéns ao Sr Édison Carlos. Enfim, alguém que trata o assunto sustentabilidade com seriedade e não como slogan de campanha publicitária de grandes corporações.

    Ao copiarmos ou simplesmente seguirmos uma agenda dos países desenvolvidos, esquecemos (ou escondemos) que ainda nem mesmo enfrentamos os problemas estruturais básicos como saneamento básico, saúde e pobreza.

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