Quem quer uma nova guerra na Europa?

Independentemente do acordo negociado na conferência de Minsk, entre os presidentes Vladimir Putin (Rússia), François Hollande (França) e Petro Poroshenko (Ucrânia) e a chanceler alemã Angela Merkel, para tentar uma solução efetiva para o conflito ucraniano, os últimos dias têm proporcionado evidências claras de que o acirramento das tensões está sendo provocado pelos setores mais belicistas de Washington. Estes já não se preocupam mais em sequer tentar ocultar a intenção de acrescentar um novo conflito europeu de grandes proporções à lista dos que já estão em curso, como parte do esforço de manutenção da sua agenda hegemônica, que inclui os vultosos lucros advindos dos contratos de fornecimento de armas à coalizão de oligarcas e extremistas neonazistas que sustenta o regime de Poroshenko.

E foi, exatamente, a proposta estadunidense de enviar armamentos letais ao governo ucraniano, feita por think-tanks, congressistas e jornalistas engajados e proclamada como possibilidade real por autoridades como o vice-presidente Joe Biden, o secretário de Estado John Kerry, o futuro secretário de Defesa Ashton Carter e o próprio presidente Barack Obama, que alarmou os europeus a ponto de levar Merkel e Hollande a viajarem juntos a Kiev e Moscou, seguidas por uma reunião da chanceler com Obama, em Washington, em busca do apoio para uma solução consensualmente negociada em Minsk.

Seguindo uma tradição do Establishment, a proposta foi lançada à mesa por um estudo elaborado por três think-tanks – Brookings Institution, Atlantic Council e Chicago Council on Global Affairs -, pronta e amplamente divulgado na mídia e endossado por congressistas mais afoitos (em dezembro último, o Congresso já aprovou uma lei autorizando o envio de armas à Ucrânia). O estudo, intitulado “Preservando a independência da Ucrânia, resistindo à agressão russa: o que os EUA e a OTAN devem fazer”, foi elaborado por oito ex-diplomatas e militares da reserva de alto escalão, sugere o fornecimento de um pacote de armas letais no montante de 3 bilhões de dólares, para “reforçar a defesa da Ucrânia e deter novas agressões russas”. Na introdução, os autores informam que o documento foi elaborado com o auxílio de discussões mantidas com altos oficiais da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em Bruxelas e altos funcionários do governo ucraniano, na capital Kiev e no quartel-general das “operações antiterror” (como os ucranianos qualificam as ações militares contra os separatistas do Leste), em Kramatorsk.

Entre os autores, destacam-se o ex-secretário de Estado Adjunto Strobe Talbott (Governo Clinton), o almirante James Stavridis, ex-chefe militar da OTAN, e Michele Flournoy, apontada como possível secretária de Defesa em um eventual governo de Hillary Clinton.

Em um contundente artigo publicado em 5 de fevereiro no sítio da revista The American Interest, ironicamente intitulado “Como começar uma guerra por procuração com a Rússia”, Michael Kofman, um especialista em assuntos do Leste Europeu da Universidade de Defesa Nacional,
demoliu a proposta dos “falcões” e apontou o dedo para as suas consequências e motivações. Diz ele:

É improvável que o envio de um mix de armas à Ucrânia melhore a situação, dada a esmagadora desproporcionalidade do país diante da Rússia, mas ele poderia atiçar um fogo que está consumindo firmemente as chances do país de emergir como uma nova nação em um caminho europeu. (…) [O documento] não oferece recomendações para um caminho rumo à paz, nem explicações de como os fornecimentos de armas poderiam resultar em um acordo político para a guera. (…) O relatório é destinado a pressionar o relutante presidente [Obama] a mudar o seu curso na Ucrânia. (…)

(…) Este documento defende, em termos nada sutis, que os EUA empreendam na Ucrânia uma guerra por procuração com a Rússia e forneçam ao país armas equivalentes à metade do seu atual orçamento de defesa. (…)

A Rússia, também, não tem mostrado qualquer desejo de uma invasão mais profunda da Ucrânia, embora tenha os meios para isto, e o próprio relatório confirma que funcionários do governo ucraniano creem ser altamente improvável um ataque em grande escala para criar um corredor terrestre para a Crimeia.

Em dois parágrafos específicos, Kofman assinala os interesses subreptícios por detrás da proposta:

Os autores propõem, entusiasmadamente, a provisão de [jipes] Humvees blindados, equipamento que não apenas é vastamente desprezado pelas tropas estadunidenses e está a caminho da substituição, mas é também uma recomendação desnecessária, em face da avançada indústria de defesa da Ucrânia. A Ucrânia é altamente capaz e proficiente na produção local de veículos blindados leves e tanques pesados. De fato, esta é a área de expertise da indústria de defesa ucraniana.

O que ele não diz é dito sem meias palavras pelo veterano jornalista investigativo Robert Parry, um dos mais argutos observadores das maquinações do Establishment estadunidense:

Em síntese: se Obama enviar armas, como o pacote de 3 bilhões de dólares recomendado pelo Brookings, levará os EUA a uma “guerra por procuração” com a Rússia, que, quase certamente, perderemos (juntamente com os 3 bilhões pagos aos fabricantes de armas estadunidenses por nós contribuintes).

E, pelo menos uma vez, temos um verdadeiro especialista militar, que é algo mais que simplesmente um vendedor a serviço da Raytheon, Lockheed Martin, GE e outros sequiosos fabricantes de máquinas de matar (Consortiumnews.com, 11/02/2015).

Para os que duvidam da capacidade de influência de iniciativas como essa, o economista Paul Craig Roberts, que foi subsecretário do Tesouro durante o Governo Reagan (1981-1989), mas é hoje um dos mais ferozes críticos do belicismo estadunidense, oferece o seu testemunho pessoal sobre a capacidade de um grupo organizado de ideólogos de direcionar a política externa:

Tendo estado em conselhos de administração corporativos, eu sei que os executivos-chefes raramente sabem de tudo o que está ocorrendo na companhia. Há, simplesmente, muita gente e muitos programas representando muitas agendas. Para presidentes de países com governos tão grandes como o governo dos EUA, há muito mais coisas acontecendo do que um presidente tem tempo para saber a respeito delas, mesmo se pudesse obter informações precisas.

Na minha época, os subsecretários e os chefes de gabinete eram as pessoas mais importantes, porque controlavam os fluxos de informações. Os presidentes têm que se concentrar no levantamento de fundos para a sua reeleição e para o seu partido. Mais tempo e energias são gastos em formalidades e reuniões com dignitários e eventos midiáticos. No máximo, há dois ou três assuntos nos quais um presidente pode tentar exercer liderança. Se um grupo organizado, como os neoconservadores, ganha acesso a várias posições de autoridade, ele pode, de fato, “criar a realidade” e tomar o governo das mãos do presidente (Infowars.com, 1º./02/2015).

Uma série de reportagens do jornal Washington Times reforça o argumento. Publicadas em 28, 29 e 30 de janeiro, elas revelam o conteúdo de gravações de conversas feitas na Líbia, em 2011, entre altos representantes do governo líbio e altos oficiais militares estadunidenses, que tentavam evitar uma escalada da intervenção militar externa em favor da insurgência contra o regime de Muamar Kadafi, ferrenhamente defendida pela então secretária de Estado Hillary Clinton, apoiada pela conselheira de Segurança Nacional Susan Rice e a então assistente especial da Presidência para Direitos Humanos Samantha Power (atual embaixadora nas Nações Unidas).

Surpreendentemente, o Pentágono e parte da comunidade de inteligência estadunidense não queriam se envolver no conflito líbio, que consideravam uma aventura dúbia com resultados imprevisíveis, uma vez que grande parte dos insurgentes líbios era constituída por grupos jihadistas – que, posteriormente, acabaram dominando o país. Como a autenticidade das gravações foi confirmada por alguns dos participantes estadunidenses, a sua revelação deve ser entendida como parte das ferozes disputas intestinas que sempre se travam no interior do Establishment político de Washington durante a definição das pré-candidaturas presidenciais. Como Hillary é uma das pré-candidatas declaradas do Partido Democrata, a salva de artilharia midiática pode causar grandes danos às suas pretensões.

O conteúdo das gravações é devastador e mostra Hillary controlando rigorosamente o fluxo das informações usadas no processo decisório que levou à maciça intervenção militar da OTAN em favor dos insurgentes e, mesmo após o seu início, bloqueando todas as tentativas de negociação oferecidas por Kadafi. Ela foi, inclusive, a responsável pela divulgação das informações de que Kadafi estaria disposto a massacrar os insurgentes a qualquer custo, indiferente à população civil. Tanto o então secretário de Defesa Robert Gates como o chefe do Estado-Maior Conjunto, almirante Mike Mullen, se opunham ao uso da força militar, por não acreditarem que Kadafi correria o risco de incorrer na indignação internacional, promovendo matanças entre a população civil. Aparentemente, a Líbia foi mesmo a “guerra de Hillary”, como a rotulou o editor do sítio Antiwar.com, Justin Raimondo (2/02/2015).

Talvez, isso justifique a sua asquerosa bravata diante da mídia internacional, ao comentar a morte de Kadafi, em outubro de 2011, com uma corruptela da célebre frase atribuída a Júlio César: “Nós viemos, vimos e ele morreu.”

De qualquer maneira, o episódio mostra que, mesmo que outros grupos do Establishment se oponham a certas agendas, após a tomada de decisão pela Casa Branca, todos embarcam nela.

Com precedentes como esse, é possível se entender melhor o atual empenho dos belicistas de Washington em incendiar de vez a Ucrânia – e a Europa.

One comment

  1. Alem do conflitona Ucraina: EUA e Bretanha tem o objetivo permanente de triturar o territorio nacional da Russia. A “independencia” da Siberia e o alvo principal porque Alaska/EUA esta separado da Siberia num punto entre ilhas somente por 2 kilometros de mar aberto. Ha etnias aleutas e jupik na Alaska e na Siberia. Uma Siberia triturada em “republicas” separadas, tambem por etnias siberianas, fosse ideal para ao fim cercar China para um golpe final geopolitico. Desde decadas paises da OTAN tem agentes ativos nas regioes etnicas no artico russo, no Caucaso, e na Karelia. Os franceses sofrem pelo terrorismo islamista – mas eles apoiaram os terroristas islamistas na Chenchenya com propaganda e dinheiro. Finlandia apoia separatistas na Karelia russa.

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