Quem escreveu o editorial do “Globo”?

Supporters of the Ukrainian nationalist movement rally in downtown Lviv on April 28, 2012 to mark the 68th anniversary of the formation of the Ukrainian Galacian Division of the Waffen SS. AFP PHOTO / YURIY DYACHYSHYN

Supporters of the Ukrainian nationalist movement rally in downtown Lviv on April 28, 2012 to mark the 68th anniversary of the formation of the Ukrainian Galacian Division of the Waffen SS. AFP PHOTO / YURIY DYACHYSHYN

Na quarta-feira 4 de março, o jornal O Globo publicou um dos mais ultrajantes editoriais jamais escritos em um órgão de imprensa brasileiro. Intitulado “Kremlin dissemina violência na Rússia de Putin”, o texto seria bem mais adequado a um panfleto de propaganda de guerra contra um inimigo implacável que estivesse ameaçando o país do que a um periódico que pretenda manter um mínimo de seriedade sobre os temas nele veiculados e, igualmente, de respeito à inteligência dos seus leitores.

Apesar de se saber que o jornal tem um competente corpo de editorialistas dedicados a decodificar para os leitores a visão do mundo e os interesses da família Marinho, o editorial poderia perfeitamente ter sido escrito no Gabinete de Assuntos Europeus e Eurasiáticos do Departamento de Estado dos EUA (comandado por Victoria Nuland, celebrizada pela imprecação “Fuck the European Union”) e meramente traduzido ao português.

O primeiro parágrafo explicita o caráter capcioso do texto, cuja motivação foi o assassinato do político oposicionista russo Boris Nemtsov, ocorrido na noite de 27 de fevereiro:

A morte de Boris Nemtsov, um dos líderes da oposição a Vladimir Putin, quando se preparava para apresentar provas da intervenção militar russa na Ucrânia, é o mais recente sinal de uma onda de violência preocupante na Rússia, por seu caráter disseminado e estrutural. Estimulados pelo discurso nacionalista e xenófobo do governo e da mídia estatal — no qual o Ocidente emerge como alvo a ser abatido —, espalham-se pelo país os mais variados grupos paramilitares, milícias e gangues que agem com relativa autonomia, evocando a ação dos camisas pretas da Itália fascista, da Waffen-SS nazista e congêneres.

Um leitor distraído poderia pensar que o jornal carioca se enganou de país. De fato, apesar de existirem saudosistas do nazifascismo em toda parte (inclusive, no Brasil), se existe um país no qual eles retornaram em grande estilo à cúpula do Estado não é a Federação Russa, mas a vizinha Ucrânia. Ali, os partidos Svoboda e Setor Direita (Pravy Sektor), cujas inclinações neonazistas estão à vista de quem quiser ver, integram a coalizão governamental que assumiu o poder após o golpe de Estado que depôs o presidente Viktor Yanukovich, em fevereiro de 2014, e milícias como o violento Batalhão Azov, cujos uniformes e distintivos são ostensivamente inspirados nos símbolos do nazismo (vide as fotos), foram integradas à sangrenta campanha militar movida contra os separatistas do Leste da Ucrânia, que rejeitaram o novo governo, depois que este decretou uma série de medidas restritivas contra as populações da região, inclusive ao uso oficial da língua russa falada pela maior parte delas. Para culminar, essas organizações devotam um verdadeiro culto ao controvertido líder “nacionalista” Stepan Bandera (1909-1959), que foi um ativo colaborador dos invasores nazistas da Ucrânia, na II Guerra Mundial (apesar de ter passado uma temporada num campo de concentração), além de adepto da “limpeza étnica” contra as minorias ucranianas, como poloneses, judeus e outras.

Como é razoável se supor que os editorialistas do jornal sejam suficientemente informados sobre a geografia e a história da região, só podemos suspeitar de que os irmãos Marinho estejam firmemente empenhados em justificar a antiga aliança das Organizações Globo com o poder oligárquico estadunidense, cumprindo o seu papel de linha auxiliar do Departamento de Estado. Mas, quando até mesmo o secretário de Estado John Kerry usou da devida cautela ao se manifestar sobre o assassinato de Nemtsov, na nota oficial divulgada no dia seguinte ao crime, os editorialistas do Globo demonstraram uma célere competência investigativa, afirmando de forma categórica, na conclusão do texto:

 (…) Segundo especialistas em segurança, a forma como o atentado se desenrolou mostra que a ação foi premeditada e realizada por profissionais. Mas, seja lá quem tenha puxado o gatilho, todas as evidências apontam o Kremlin como responsável direto ou indireto.

Da mesma forma, poder-se-ia dizer que seja quem tenha escrito o editorial, as evidências apontam o Departamento de Estado como inspirador direto ou indireto – ou, então, estamos diante de mais uma deplorável evidência da atávica inclinação de certos integrantes da elite brasileira mentalmente colonizada, para serem mais realistas que o rei.

De qualquer maneira, em lugar de fazer pouco dos seus leitores, os escribas de José Roberto Marinho bem poderiam oferecer os seus serviços à força-tarefa russa que investiga o caso (ou, melhor ainda, dedicar mais tempo a repensar o seu jornal, cujo número de assinantes diminui a cada dia, principalmente entre os leitores jovens interessados em informações e análises mais sérias, que têm numerosas outras fontes mais confiáveis à disposição).

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