Quatro mitos sobre a II Guerra Mundial

Stalingrad

Eric Margolis

N. dos E. – O presente artigo do jornalista estadunidense Eric Margolis, foi originalmente publicado em 2009 e repostado recentemente pelo autor em seu blog. Por sua atualidade e oportunidade, a propósito da celebração dos 70 anos do final do conflito na Europa, o oferecemos à apreciação dos nossos leitores.

A antiga cidade-fortaleza que guarda a tradicional rota de invasão ao longo do rio Mosa, da Alemanha à França, é um bom lugar para se refletir sobre os mitos persistentes que ainda ensombrecem o nosso entendimento da II Guerra Mundial. O presidente Barack Obama acaba de estar na Normandia, para a celebração do 65º. aniversário do Dia-D.

Primeiro: O Exército francês não se rendeu simplesmente ou fugiu em 1940, como afirmam ignorantes conservadores estadunidenses.
A blitz alemã que avassalou a França, em maio-junho de 1940, espalhando os seus exércitos como folhas em uma tempestade, foi uma revolução histórica na arte da guerra. A Blitzkrieg [guerra-relâmpago] combinava forças blindadas de movimentação rápida e infantaria móvel, bombardeios de mergulho de precisão, apoio logístico flexível e novas tecnologias de C3 – comando, controle e comunicações. Em 1940, a Alemanha liderava o mundo em tecnologia: 75% de todos os livros técnicos eram escritos em alemão.

O exércitos e os generais franceses, treinados para travar novamente a I Guerra Mundial, foram avassalados pela guerra-relâmpago. A França ainda era, em grande medida, uma sociedade agrícola. A Blitzkrieg – hoje adotada por todas as grandes forces armadas modernas – foi desenhada para atacar o cérebro de um inimigo, em vez de o seu corpo, paralisando a sua capacidade de gerenciar grandes forças ou de lutar. Os alemães a chamavam a “bala de prata”.

Na França, a bem treinada força expedicionária britânica foi derrotada tão rápida e completamente como os franceses e se salvou apenas abandonando os seus aliados franceses e fugindo através do Canal.

Nenhum exército no mundo, na época, poderia ter resistido à Blitzkrieg germânica, planejada pelo brilhante Erich von Manstein e liderada pelos audaciosos Heinz Guderian e Erwin Rommel – três dos maiores generais da História.

E eles também tiveram uma sorte incrível. Uma única bomba lançada sobre uma ponte sobre o Mosa ou um engarrafamento intransponível na Floresta das Ardenas poderia ter feito a diferença entre a vitória e a derrota. Os franceses haviam movido, temporariamente, algumas das suas unidades de reserva mais fracas justamente para o setor onde os alemães atacaram. Foi, como disse Wellington depois de Waterloo, a vitória mais apertada jamais vista.

As táticas novas e fluidas da Alemanha esmagaram os exércitos franceses. Eles foram incapazes de recompor as suas linhas, apesar de oferecerem uma feroz resistência. Os tanques alemães em rápida movimentação estavam constantemente atrás deles. A retirada sob fogo inimigo é a mais difícil e perigosa de todas as operações militares. Após seis semanas, e uma punhalada nas costas desfechada pela Itália de Mussolini, os exércitos franceses se desintegraram.

A França teve 217 mil mortos e 400 mil feridos. Comparem-se estes números com os 416 mil estadunidenses mortos em quatro anos de guerra no Pacífico e na Europa. Pelo menos, os franceses não perderam os 2 milhões de mortos da I Guerra Mundial. Perdas alemãs: 46 mil mortos em ação, 121 mil feridos e mil aviões. Em comparação, os estadunidenses, britânicos e canadenses tiveram cerca de 10 mil mortos e feridos no Dia-D.

Segundo: Os fortes da Linha Maginot francesa não foram taticamente flanqueados, como reza a lenda. Os alemães atacaram a extremidade noroeste da Linha, através da Floresta das Ardenas, entre a França e a Bélgica, uma rota antecipada pelo Exército francês, que havia realizado jogos de guerra por lá em 1939. Quem falhou foi o imóvel Exército de campo francês, não a Linha Maginot. Ela pode ter custado muito caro, imobilizado muitos homens e se tornado símbolo da atitude defensiva francesa, mas a Grande Muralha da França cumpriu a missão que lhe foi designada.

A Linha foi planejada apenas para defender as indústrias de carvão e aço da Alsácia e Lorena, o que ela fez. O elevado lençol freático de Flandres e a aversão da França a construir fortes por detrás do seu aliado belga deixou a fronteira franco-belga com apenas escassas defesas fixas.

Ironicamente, após a penetração alemã em Sedan, no Mosa, um corpo francês mantido na reserva para cobrir esse setor vital se moveu para oeste, para a Passagem de Stenay, para proteger o flanco esquerdo da Linha Maginot, abrindo caminho para que os Panzer de Guderian se espalhassem pelo noroeste, por trás das linhas francesas.

A segunda maior operação anfíbia na Europa Ocidental, na II Guerra Mundial, foi o totalmente esquecido cruzamento alemão do Reno, sob fogo inimigo, em junho de 1940.

As equipagens dos inconquistados fortes da Linha Maginot mantiveram suas posições até o armistício. Aqueles que ridicularizam a França por construir fortes que foram, supostamente, “flanqueados”, deveriam saber que as “inexpugnáveis” fortificações modernas dos EUA em Manila, Filipinas, e a Fortaleza de Singapura britânica, foram ambas tomadas pela retaguarda pelo Exército Imperial japonês. A trombeteada “Muralha do Atlântico” e as defesas costeiras alemãs, também, não tiveram melhor desempenho.

Terceiro: A Wehrmacht e a Luftwaffe alemãs foram esmagadas bem antes do Dia-D. Ao comemorar a guerra, devemos recordar-nos de saudar a coragem e o valor dos intimoratos soldados e pilotos russos, que, como os soldados alemães, lutaram magnificamente, apesar dos seus regimes políticos criminosos. A II Guerra Mundial na Europa não foi vencida apenas no Dia-D, como reza o mito popular. O exército e a força aérea alemães foram quebrados nas titânicas batalhas da Frente Leste.

Os números falam por si próprios. Os soviéticos destruíram 75-80% de todas as divisões alemãs – 4 milhões de homens – e a maior parte da Luftwaffe. A Rússia perdeu pelo menos 14 milhões de soldados e um número similar de civis. O Exército Vermelho destruiu 507 divisões do Eixo.

Na Frente Ocidental, após o Dia-D, os Aliados destruíram 176 divisões alemãs bastante enfraquecidas em suas capacidades. Quando os Aliados desembarcaram na Normandia, encontraram forças alemãs debilitadas, sem cobertura aérea, prejudicadas pela falta de combustível e suprimentos e incapazes de se mover durante o dia. Ainda assim, os alemães lutaram como tigres. Se os invasores estadunidenses, britânicos e canadenses tivessem encontrado a Wehrmacht e a Luftwaffe de 1940, o desfecho poderia ter sido bem diferente.

Quarto: A II Guerra Mundial não foi uma luta entre o bem e o mal, entre “democracias ocidentais” e “potências totalitárias”, como ainda somos erroneamente ensinados.

Ela foi um conflito mundial por terras e recursos, envolvendo o Império Britânico – que controlava 25% do globo terrestre – o Império Francês, o Império Holandês e o Império Belga e, depois, o império estadunidense (Filipinas, Possessões do Pacífico, Cuba e América Central), contra os impérios italiano e japonês. A União Soviética era um império em si própria. Em 1939, as únicas grandes potências sem colônias eram a Alemanha e a China. Encerrada a guerra, a Grã-Bretanha e a Holanda correram para reaver as suas colônias.

Não devemos jamais esquecer-nos de tudo isso.

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