Quantos malthusianos cabem na Terra?

O caráter neomalthusiano do movimento ambientalista, ou seja, misantrópico, antidesenvolvimentista e exclusivista, fica evidenciado por qualquer análise que apenas arranhe a superfície do discurso de “proteção” do meio ambiente contra os alegados excessos das atividades humanas, em especial, as voltadas para o desenvolvimento socioeconômico das populações. Logo abaixo dela, o observador minimamente atento se depara com as surradas ideias do reverendo Thomas Malthus (em grande medida, plagiadas do economista veneziano Giammaria Ortes), ainda no século XVIII, sobre os limites da população e dos recursos para a sua subsistência, atualizadas pelo aparato ambientalista na década de 1970 com as falaciosas formulações matemáticas sobre os “limites do crescimento” popularizadas pelo Clube de Roma. Estas foram, posteriormente, refinadas em conceitos como o “desenvolvimento sustentável”, a “capacidade de suporte” e os mais recentes e esdrúxulos “pegada ecológica” e “dia de sobrecarga da Terra”. Em essência, a despeito da sua incoerência científica, todos têm servido para respaldar a mensagem fundamental do ambientalismo, a de que não haveria recursos naturais nem condições de “suporte” para elevar todos os povos e nações do planeta aos níveis de desenvolvimento atingidos pelas economias mais avançadas.

O alcance dessa lavagem cerebral entre os formadores de opinião pode ser avaliado por dois artigos recentemente publicados no Portal EcoDebate, de autoria do sociólogo José Eustáquio Diniz Alves, doutor em Demografia e professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (ENCE/IBGE).

No primeiro, de 4 de julho, o autor informa que, este ano, o “Dia de Sobrecarga da Terra” cairá em 1º de agosto, um dia antes que em 2017. Com a linguagem apocalíptica dos catastrofistas ambientais, ele afirma:

Este dia marca o momento em que o sistema de produção e consumo absorveu todos os insumos naturais oferecidos pelo planeta, previstos para os 12 meses do ano. Portanto, o dia 01 de agosto é o dia em que a civilização global sai do verde do superávit ambiental para entrar no vermelho do déficit ambiental.

No restante do ano, a civilização estará em déficit do cartão de crédito e terá de recorrer à herança deixada por milhões de anos de evolução da natureza. Significa que as atuais gerações dilapidarão as condições de vidas das demais espécies vivas da Terra e comprometendo o futuro das próximas gerações de humanos.

Acompanha o artigo um gráfico produzido pela Global Footprint Network (GFN), com os “dias de sobrecarga” específicos para vários países, variando entre o Catar (9 de fevereiro) e o Vietnã (21 de dezembro); ao Brasil, cabe uma data intermediária, 19 de julho, duas semanas a menos que a data global (ver abaixo).

A GFN, criada em 2003, é uma ONG estadunidense sediada em Oakland, Califórnia, com filiais em Genebra, Suíça, e Bruxelas, Bélgica, cuja especialidade é calcular as “pegadas ecológicas” de toda a humanidade, numa escala que vai do planeta inteiro até pessoas individuais, passando por unidades federativas, regiões e países. Para popularizar o conceito, foi criado o “Dia de Sobrecarga da Terra”, o suposto dia do apocalipse ambiental.

De forma “didática”, Alves informa aos leitores:

O dia da Sobrecarga de um país é a data em que a Terra ultrapassaria a biocapacidade global se toda a humanidade consumisse como as pessoas neste determinado país. Por exemplo, a Pegada Ecológica per capita do Brasil é de 3,07 gha e a biocapacidade da Terra é de 1,68 gha. Se toda a população mundial consumisse como o brasileiro médio daria (3,07/1,68) = 1,83 Terras. O Dia da Sobrecarga do Brasil seria 365 * (1,68/3,07) = 200º dia do ano. Isto corresponderia ao dia 19 de julho. O gráfico acima mostra os Dia da Sobrecarga conforme a Pegada Ecológica de cada país.

A “biocapacidade”, medida em hectares globais (gha), é um índice que “avalia o montante de terra e água, biologicamente produtivo, para prover bens e serviços do ecossistema à demanda humana por consumo, sendo equivalente à capacidade regenerativa da natureza”.

Em outro gráfico, ele comenta o avanço do dia do apocalipse ambiental:

O fato é que a cada ano o mundo atinge mais cedo o ponto de Sobrecarga e passa mais tempo no déficit ambiental, como pode ser visto no gráfico abaixo. No início da década de 1970 existia equilíbrio entre a Pegada Ecológica e a Biocapacidade e a humanidade ficava dentro do orçamento de um Planeta. Mas em 1975 o dia da Sobrecarga chegou no dia 01 de dezembro. Na virada do milênio o dia da Sobrecarga estava ao redor do dia 01 de outubro e em 2018, o Dia da Sobrecarga da Terra será no dia 01 de agosto.

As conclusões são assustadoras:

Portanto, a humanidade já ultrapassou a capacidade de carga da Terra e a cada ano esgota antecipadamente os recursos previstos para os doze meses do calendário. O Planeta, como astro físico, vai continuar por muito tempo girando ao redor do sol, mas boa parte da vida terrestre pode desaparecer precocemente em função do egoísmo, da avareza e da ambição humana que degrada os ecossistemas e reduz a biocapacidade da Terra. A “gula” humana tem crescido em função da “desnutrição” das demais espécies vivas do Planeta.

No segundo artigo (“Qual é o número ideal de humanos sobre a Terra?”), publicado em 9 de julho, Alves retoma a velha discussão deflagrada há mais de dois séculos por Ortes e Malthus, sobre o hipotético tamanho máximo da população mundial. Nele, observa que “o número ideal de humanos depende de vários condicionantes econômicos e éticos” e recorre novamente aos dados da GFN:

O primeiro condicionante econômico é o padrão de vida. O número de pessoas que a Terra pode sustentar depende do modo de produção e consumo adotado por estas pessoas. De acordo com a Global Footprint Network, em 2013, a biocapacidade global do Planeta era de 12,2 bilhões de hectares globais (gha). Como a população mundial estava em 7,2 bilhões de habitantes, a biocapacidade per capita era de 1,71 gha. Ou seja, a Terra poderia ter 7,2 bilhões de habitantes em equilíbrio com o meio ambiente se a pegada ecológica fosse de 1,71 gha. Porém, a pegada per capita estava em 2,87 gha em 2013, somando 20,6 bilhões de gha, o que provocava um déficit ambiental de 68%.

Assim, segundo os dados da Global Footprint Network, de 2013, a presença humana sobre a Terra estava gerando um excesso de demanda em relação à capacidade de oferta de serviços ecossistêmicos do Planeta. Para equilibrar oferta e demanda, ou a população mundial (com pegada de 2,87 gha) tinha de cair para 4,3 bilhões de habitantes ou os 7,2 bilhões de habitantes tinham de reduzir a pegada ecológica para 1,71 gha.

Em essência, segundo o argumento da “biocapacidade”, para que a população mundial se mantivesse nos números atuais, seria preciso que o seu nível de vida médio fosse reduzido a um padrão inferior ao de Honduras, apenas ligeiramente acima do da Moldávia, o país mais pobre da Europa. Mas, como a “pegada” média global já estaria acima da biocapacidade do planeta, Alves conclui: “O fato é que o volume da população atual multiplicado pelo consumo médio global é incompatível com a capacidade de carga do planeta.”

Todavia, ele incorpora outros argumentos:

Mas além dos condicionantes econômicos também existem os condicionantes éticos. Será justo manter uma enorme população humana ao mesmo tempo em que se reduz as populações das outras espécies que habitam a Terra muito antes do Homo sapiens? Será justo manter bilhões de indivíduos da espécie humana, enquanto desaparecem os rinocerontes, os leões, os leopardos, os elefantes, as girafas, os gorilas, os tigres, os ursos polares, as abelhas, etc.? (…)

Assim sendo, reforça a sentença: “Certamente, o tamanho ideal da presença humana sobre a Terra (população vezes consumo) é de uma dimensão inferior ao seu impacto atual… Atualmente a humanidade já ultrapassou a capacidade de carga da Terra. Somente com o decrescimento das atividades antrópicas a humanidade atingirá o número ideal de indivíduos.”

Utilizando-se o próprio conceito, é fácil constatar a constatar uma correlação direta entre o nível de desenvolvimento e a “pegada ecológica” dos países. A própria GFN oferece um gráfico (abaixo, em versão postada no sítio do WWF-Brasil), no qual observa-se que os níveis de desenvolvimento minimamente aceitáveis para sociedades modernas se situam bem acima do que as elucubrações matemáticas da ONG consideram toleráveis para o planeta (além da biocapacidade, o gráfico também apresenta o “número de Terras” necessário para que o mundo inteiro tivesse os níveis de desenvolvimento de cada país assinalado). Como os países de maiores IDH estão à direita do gráfico (as economias consideradas avançadas têm IDH superior a 0,800), a mensagem é direta: o planeta não suportaria a extensão dos índices de desenvolvimento dos países mais avançados a todos os países.

No seu sítio, a GFN também oferece uma ferramenta para o cálculo do “dia do apocalipse” de cada pessoa, de acordo com vários indicadores: consumo de produtos animais, distância das fontes de produção dos alimentos, tamanho da habitação, número de residentes, disponibilidade de eletricidade, eficiência dos aparelhos elétricos, quantidade de lixo gerado, uso de automóveis, transportes públicos e avião e outros. O autor deste artigo fez o teste e obteve a inacreditável data de 22 de março, sendo informado de que se todos os mais de 7,5 bilhões de habitantes do planeta tivessem o mesmo padrão de vida seriam necessárias 4,5 Terras para sustentá-los.

Por isso, apresso-me a informar aos leitores que o meu estilo de vida é o de um cidadão de classe média, residente em uma casa comum de vila na Zona Norte do Rio de Janeiro, onde vivem três pessoas, dispondo dos eletrodomésticos e equipamentos eletrônicos geralmente encontrados na maioria dos lares brasileiros (inclusive um único aparelho de televisão), gerando uma quantidade de lixo comparável à dos vizinhos, além de percorrer cerca de 150 quilômetros por semana num automóvel de motor 1.0 (quase sempre acompanhado por pelo menos outra pessoa), cerca de 90-100 quilômetros por semana em transportes públicos (basicamente, metrô) e tendo voado uma média anual de 30 horas, nos últimos anos.

Seguramente, se os leitores calcularem as suas próprias “pegadas”, terão surpresas semelhantes.

É evidente que há algo fundamentalmente errado no conceito de “pegada ecológica”, pois trata-se de um nível de vida que, longe de constituir privilégio, deveria estar ao alcance de qualquer habitante do planeta. Dizer que um nível de vida semelhante não poderia ser estendido a toda a humanidade implica em passar um atestado de incompetência e fracasso do processo civilizatório.

Parte da explicação vem do fato de que as emissões de carbono entram com nada menos que 70% do cálculo da “pegada”. Por isso, as viagens de automóvel e aéreas acabam tendo um peso desproporcional no cômputo geral. De qualquer modo, o mero senso comum sugere ser absurdo que seriam necessários quatro planetas e meio para sustentar uma população mundial em níveis semelhantes aos da classe média brasileira.

Em si próprio, o alto peso relativo do carbono indica a falta de rigor científico do índice, pois parte do tendencioso princípio de que o sexto elemento da Tabela Periódica é um “poluente” ambiental, devido ao seu alegado – mas jamais comprovado – papel na dinâmica climática global.

Com tudo isso, dá para se imaginar a dimensão dos estragos que tal ideologia anticientífica tem feito na formação dos funcionários do IBGE.

Definitivamente, não é por qualquer parâmetro ambiental ou pela indisponibilidade de recursos naturais que quase 1 bilhão de pessoas ainda padecem de fome, 1,5 bilhão não dispõe de eletricidade, quase 2 bilhões têm que fazer suas necessidades fisiológicas ao ar livre e mais de 3,5 bilhões não têm acesso a água limpa e esgotos. É por acomodação ao status quo de desigualdades cada vez mais acentuadas que caracteriza o momento presente da humanidade. Ou, em outras palavras, por falta de vergonha na cara em escala planetária. Assim sendo, pode-se concluir que o número de neomalthusianos, principalmente, em posições de influência, constitui uma ameaça incomparavelmente maior para o futuro da humanidade do que o tamanho da sua população total.

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