O desfecho da guerra na Ucrânia ainda não parece estar à vista. No momento, as forças russas se preparam para um confronto decisivo com o grosso das forças ucranianas, colocadas no Leste diante de Donbass, com o qual o Kremlin pretende eliminar a ameaça militar contra as ex-províncias de Donetsk e Luhansk, pelas quais foi à guerra em fevereiro. Além de a duração do embate ser imprevisível, paira no ar a ameaça de uma escalada de consequências potencialmente catastróficas, envolvendo até mesmo o até há pouco impensável emprego de armas nucleares.
Isso porque, tanto para a Rússia como para os EUA e seus aliados europeus, agrupados sob o rótulo de “Ocidente”, trata-se de um confronto existencial em torno do modelo de relações internacionais que deverá prevalecer nas décadas vindouras.
A Rússia, já engajada de forma decisiva na construção de uma ordem de poder multipolar, cooperativa e não hegemônica, juntamente com a China, como estabelecido no histórico manifesto de 4 de fevereiro, traçou na Ucrânia a linha vermelha contra o avanço da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) rumo às suas fronteiras ocidentais com a Ucrânia convertida em ponta-de-lança e, após oito anos de provocações seriais, optou pela reação militar em grande escala.
Quanto ao “Ocidente”, mesmo antes de uma definição do conflito, a preservação da hegemonia de Washington e Wall Street já se mostra inviável, e a desorientação de suas elites dirigentes se mostra em propostas virtualmente irrealizáveis de isolamento da Rússia e em uma confrontação com a China pela supremacia na região da Ásia-Pacífico.
Em recente entrevista ao programa Meet the Press da rede NBC, o conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, declarou: “Queremos uma Ucrânia livre e independente, uma Rússia enfraquecida e isolada e um Ocidente mais forte, unificado e determinado. Acreditamos que todos esses três objetivos são viáveis (O Estado de S. Paulo, 18/04/2022).”
Na mesma reportagem, o “Estadão” reproduziu a avaliação do também estaduniense historiador Stephen Wertheim: “A guerra fortaleceu o argumento da disciplina estratégica, encorajando a Europa a se equilibrar contra a Rússia, enquanto os EUA focam na Ásia e em questões internas.”
Mas a mais perigosa perda de sentido de realidade desses altos círculos oligárquicos se mostra na sugestão do arquirreacionário ideólogo “neoconservador” Robert Kagan, marido da subsecretária de Estado Victoria Nuland, uma das principais mentoras da agenda “ucraniana” dos governos estadunidenses desde o mandato de George W. Bush (2001-2009). Em um artigo publicado na revista Foreign Affairs, órgão do ultra-elitista Conselho de Relações Exteriores (CFR), significativamente intitulado “O preço da hegemonia”, a sua soberba o leva ao requinte de admitir a co-responsabilidade dos EUA pela crise na Ucrânia:
Embora seja obsceno culpar os EUA pelo desumano ataque de Putin à Ucrânia, é desorientador insistir em que a invasão foi inteiramente não provocada. Assim como Pearl Harbor foi consequência dos esforços dos EUA para bloquear a expansão japonesa no continente asiático, e assim como [os ataques de] 11 de setembro [de 2001] foram parcialmente uma resposta à presença dominante dos EUA no Oriente Médio após a primeira Guerra do Golfo, da mesma forma, as decisões russas foram uma resposta à expansiva hegemonia pós-Guerra Fria dos EUA e seus aliados na Europa.
A admissão de Kagan, que é correta apenas quanto ao ataque japonês que motivou a entrada dos EUA na II Guerra Mundial, serve para justificar o que considera a única opção deixada a Washington – um confronto total com a Rússia, que, segundo ele, não recorreria ao seu poderoso arsenal nuclear:
É melhor para os EUA arriscarem uma confrontação com potências beligerantes quando elas estão nos estágios iniciais de ambição e expansão, não depois que já tenham consolidado ganhos substanciais. A Rússia pode possuir um temível arsenal nuclear, mas o risco de Moscou utilizá-lo não é maior agora do que teria sido em 2008 [por ocasião da rápida guerra Rússia-Geórgia] ou 2014 [quando do golpe de Estado “EuroMaiden”, que depôs o presidente ucraniano pró-Rússia Viktor Yanukovich], se o Ocidente tivesse intervindo naquelas oportunidades. E sempre tem sido extraordinariamente baixo. (…)
Como seus pares “neocons”, Kagan costuma confundir o mundo real com o seu wishful thinking sobre o “excepcionalismo” estadunidense. Por isso, ignora a determinação russa quanto à Ucrânia, demonstrada pelo presidente Vladimir Putin no final de fevereiro, dias após o início da ação militar, quando ordenou que as forças estratégicas nucleares russas fossem colocadas em “alerta especial”, após o que chamou de “agressivas declarações de altos funcionários dos principais países da OTAN contra o nosso país (RT, 27/02/2022)”.
Embora seja extremamente improvável que Putin recorra à opção nuclear na Ucrânia, uma vez que seus objetivos podem ser conseguidos com as forças convencionais russas, não se pode descartar que o desespero de certos estrategistas ocidentais diante de um desfecho desfavorável os leve a uma ação extrema, como uma operação “bandeira falsa” (false flag) envolvendo a detonação de uma arma química ou mesmo uma nuclear tática, para ser atribuída à Rússia.
Em uma palestra em 14 de abril, o diretor-geral da CIA (Agência Central de Inteligência), William Burns, afrmou que, “dado o desespero potencial do presidente Putin e da liderança russa, dados os reveses que eles têm enfrentado até agora, militarmente, nenhum de nós pode tomar levianamente a ameaça colocada por um potencial recurso a armas nucleares táticas ou armas nucleares de baixa potência”.
Igualmente, em entrevista à CNN, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse recear o mesmo: “Não apenas eu – todo o mundo, tudos os países têm que estar assustados, porque pode não ser informação real, mas pode ser verdade (CNN, 16/04/2022).”
Em síntese, o mundo atravessa o momento mais perigoso desde o final da II Guerra Mundial.

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