Nos últimos anos, a guerra de propaganda contra a Federação Russa, movida pelos estrategistas dos EUA e seus satélites da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), passou a incorporar ao seu arsenal uma insidiosa campanha de distorções históricas sobre a II Guerra Mundial, com o intuito de colocar a União Soviética em pé de igualdade com a Alemanha nazista, em termos de corresponsabilidade pela deflagração do maior confronto armado da História. Foi o que fez, por exemplo, em 2019, o Parlamento Europeu, aprovando uma resolução nesse sentido, iniciativa digna do Ministério da Verdade da Oceania de George Orwell, em sua mais que nunca atual obra-prima, 1984. Para usar uma expressão atual, trata-se de uma luta pelo controle de uma narrativa que prevaleça entre os cidadãos que observam com apreensão uma perigosa escalada artificial de tensões, análoga a outras que, em numerosos precedentes históricos, acabaram em sangrentos conflitos armados.
Outro argumento favorito tem sido comparar a crise na Ucrânia ao esquartejamento da Tchecoslováquia pela Alemanha de Adolf Hitler, proporcionado pela traição da Grã-Bretanha e da França na Conferência de Munique, em 1938, sequiosas de desviar as ambições territoriais do ditador nazista para o Leste da Europa. Evidentemente, na visão desses mistificadores, o papel do Führer é reservado ao presidente russo Vladimir Putin.
Um deles, o deputado federal estadunidense Adam Kinzinger, proferiu a seguinte “pérola”: “A Rússia avança até que bata num muro de tijolos. Nós podemos ser o muro de tijolos, ou podemos retirar-nos dos Sudetos e esperar que ele [Putin] não pretenda reconstruir toda a União Soviética. A História se repete, mas nós sempre negamos que isto esteja acontecendo (Military Watch Magazine, 09/12/2022).”
O jornalista brasileiro Mario Sabino, editor do sítio O Antagonista, também aportou uma preciosa colaboração a esse festival de indigências mentais, em um artigo no qual se empenha em sugerir que o Brasil se junte à cruzada anti-russa (“A Ucrânia sou eu, a Ucrânia é você”, 24/01/2022): “(…) É preciso conter Vladimir Putin também nas suas pretensões em nosso subcontinente (sic). Muita gente, inclusive no Brasil, pensa como Neville Chamberlain, o primeiro-ministro britânico que aceitou entregar a então Tchecoslováquia a Adolf Hitler, antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, visto que se tratava de ‘uma briga em um país distante entre pessoas das quais nada sabemos’.”
A chamada Crise dos Sudetos, referida por Kinzinger, foi o pretexto utilizado por Hitler para reivindicar a anexação ao “Grande Reich” daquela região da Tchecoslováquia, de população majoritariamente de origem germânica. Tanto ele como Sabino refletem a imagem que a maioria das pessoas que conhecem pelo menos superficialmente o episódio têm do premier britânico e do francês Edouard Daladier, seu cúmplice no alegado “apaziguamento” (appeasement) de Hitler, palavra que ficou associada à tibieza e à covardia diante de ditadores e aventureiros belicistas.
O recém-lançado filme da Netflix, Munique: no limite da guerra, obra de ficção histórica baseada no livro de Robert Harris (Munique, edição brasileira da Editora Alfaguara, 2018), apresenta um Chamberlain mais matizado, que, à custa da Tchecoslováquia, teria ganhado um tempo precioso para ampliar o rearmamento britânico, crucial para a vitória na Batalha da Inglaterra, em 1940.
A rigor, tibieza e covardia não são os termos mais apropriados para qualificar a atuação anglo-francesa em todo o processo que culminou em Munique – traição e perfídia se qualificam bem melhor.
Mesmo antes de assumir o poder total na Alemanha, em 1933, Hitler não ocultava as suas ideias e intenções, explicitadas no livro Minha luta, publicado em duas partes em 1925 e 1926 (cuja venda no Rio de Janeiro acaba de ser proibida pelo prefeito Eduardo Paes). Em síntese, o Terceiro Reich seria um regime baseado na ideia da superioridade da “raça alemã” e necessitado de um “espaço vital” (Lebensraum) para acomodá-la, o qual teria que ser conquistado aos povos “inferiores” do Leste da Europa, principalmente, os eslavos da União Soviética. Empreitada para a qual o uso da força era imprescindível. Em suas palavras:
O fato de um povo ter conseguido adquirir uma extensão desmedida de solo não significa uma obrigação superior de reconhecer-se eternamente essa aquisição. Isso prova, quando muito, a força do conquistador e a fraqueza daqueles que o toleram. E somente nessa força é que reside o direito. O fato do povo alemão, hoje em dia, encontrar-se apertado em uma extensão territorial insignificante, aguardando um futuro deplorável, não é um desígnio do destino, assim como uma rebelião contra esse estado de cousas representa uma mudança brusca contra o mesmo. Assim como nossos antepassados não receberam como dádiva do céu o solo em que hoje vivemos e sim através de árduas lutas, com sacrifício de suas vidas, também para o futuro o solo e a vida de nosso povo não advirão de nenhum favor e sim somente por intermédio da força de uma espada vitoriosa… Quando hoje em dia falamos, na Europa, de nosso solo, pensamos, em primeira linha, somente na Rússia e Estados adjacentes a ela subordinados.
Passando das palavras à ação, o regime hitlerista deu prioridade máxima à reconstrução das Forças Armadas alemãs e à sua preparação para uma extensa campanha de conquistas territoriais. Em novembro de 1937, em uma reunião com seus chefes militares e diplomáticos, o Führer determinou o início imediato da investida, começando pela Áustria e a Tchecoslováquia. Surpreendendo seus interlocutores, conscientes de que a Alemanha não estava pronta para entrentar militarmente a França e a Grã-Bretanha, cuja intervenção consideravam inevitável, Hitler insistiu em que as duas potências não interfeririam. Além disto, ressaltou o apoio da Itália de Benito Mussolini, que aderiu logo em seguida ao Pacto Anticomintern, assinado no ano anterior entre a Alemanha e o Japão.
A certeza do líder nazista sobre a posição britânica, que tinha grande influência sobre a francesa, se originava das conversas francas entre o embaixador britânico em Berlim, Neville Henderson, seu admirador confesso, e altos funcionários alemães, e entre seu representante em Londres, Joachim von Ribbentrop (futuro ministro das Relações Exteriores), e suas contrapartes britânicas. Poucos dias depois da reunião, Hitler recebeu pessoalmente tal confirmação de lorde Halifax, amigo de Chamberlain, que logo seria nomeado ministro das Relações Exteriores, enviado extraoficialmente à Alemanha para a finalidade, inclusive, oferecendo concessões coloniais na África, em troca de o Führer não recorrer à força armada para concretizar seus planos – como se isto fosse possível com alguém que via a guerra como fator formativo de um povo viril.
Além das conversas, os alemães mantinham sob vigilância as comunicações telegráficas e telefônicas das legações diplomáticas em Berlim, por intermédio de um eficiente departamento criptográfico do Ministério do Ar de Hermann Goering (FA), que desempenharia um papel crucial na crise de Munique.
A França e a Grã-Bretanha, potências imperiais, eram governadas por elites políticas e econômicas que, em grande medida, tinham uma visão positiva de Hitler e seus planos de conquista, divergindo apenas quanto ao uso de força, assim mesmo, seletivamente. Em geral, esses altos círculos oligárquicos se caracterizavam pelo anticomunismo e por uma desconfiança visceral da URSS e seu líder, Josef Stálin. Para uma parcela importante deles, o sonho de consumo era ver Hitler e Stálin se dessangrando e debilitando mutuamente. Além dos traumas ainda recentes da I Guerra Mundial (inclusive a correta percepção das draconianas penalidades impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes) e da intenção de não desviar para uma nova corrida armamentista recursos necessários à manutenção dos seus impérios, aquela aspiração era o outro dos pilares da política de “apaziguamento” franco-britânica.
Em essência, a posição britânica mantinha a concepção geopolítica de Halford Mackinder, elaborada no início do século, sobre a importância do domínio da “hinterland” eurasiática, cujo corolário era negar à Alemanha e à Rússia qualquer possibilidade de aproximação e cooperação no desenvolvimento daquela vasta região.
Por sua vez, nem Londres nem Paris ignoravam os planos de Hitler, inclusive, pelo fato de os seus serviços de inteligência disporem de informantes de alto escalão na hierarquia militar e diplomática alemã.
Em março de 1938, com o respaldo de Mussolini e diante da passividade franco-britânica, a Áustria foi anexada ao “Grande Reich”. A Tchecoslováquia passou a ser a bola da vez.
Em 1938, a Tchecoslováquia era o mais próspero e melhor administrado dos países resultantes da fragmentação do Império Austro-Húngaro após a I Guerra Mundial, sendo uma das poucas democracias ainda existentes em uma Europa acossada por regimes autoritários. Além disto, era a sétima potência industrial do mundo, com uma forte indústria de armamentos, e alinhava um dos exércitos mais preparados da Europa. No entanto, o país tinha importantes vulnerabilidades. A primeira é que sua população de 15 milhões de habitantes era uma colcha de retalhos de povos, idiomas e condições socioeconômicas distintos – tchecos, eslovacos, germânicos, húngaros, poloneses e ucranianos –, que necessitaria de algumas gerações para se amalgamar em um Estado nacional minimamente coeso. A segunda, que a sua política de segurança externa dependia fundamentalmente de alianças formais com a França e a União Soviética, além de uma atitude favorável da Grã-Bretanha, a potência hegemônica na Europa.

Em 1938, o exército tchecoslovaco era um dos melhores da Europa. Na foto, soldados de infantaria em um exercício com tanques LT-35, muito superiores aos alemães da época
O pretexto da investida de Hitler foi a reivindicação de incorporação ao Reich da região dos Sudetos, área montanhosa que delimita as fronteiras norte, oeste e sul da Tchecoslováquia com a Polônia, Alemanha e Áustria, habitada por uma grande população majoritariamente germanófona, formando o segundo maior grupo étnico integrante da população do país, atrás apenas dos tchecos.
Um personagem-chave na trama foi o líder dos chamados alemães sudetos, Konrad Henlein, indivíduo misterioso que se movia com desenvoltura entre Londres e Berlim, com acesso aos escalões superiores do poder, e cujas ligações com eles ainda não foram devidamente detalhadas. Na capital britânica, chegou a discutir na Chatham House, o think-tank mais graduado do Establishment; na alemã, recebia instruções do próprio Hitler.
Em abril de 1938, depois de conferenciar com Hitler, Henlein apresentou ao governo do presidente Edvard Beneš um autêntico ultimato com exigências inaceitáveis, inclusive, a de que o país mudasse radicalmente o rumo de sua política externa, deixando de ser um obstáculo para a “Marcha para o Leste” nazista. No mesmo mês, Hitler ordenou a preparação do “Plano Verde”, a invasão da Tchecoslováquia.
No mês seguinte, quando circularam rumores de uma invasão alemã iminente, o New York Times de 13 de maio comentou assim a inesperada visita de Henlein a Londres:
(…) Há algumas indicações de que ele possa ter vindo atendendo a um convite britânico, pois pelo menos um indivíduo de alto nível não demonstrou surpresa e observou que visita mostrava que a iniciativa nos assuntos europeus estava passando à Grã-Bretanha.
A mesma reportagem descrevia de forma cândida a posição britânica:
O mundo oficial britânico tem andado muito assustado com uma invasão, devido ao medo de que a Tchecoslováquia apresente uma resistência suficiente para começar uma guerra, na qual a França e, consequentemente, a Grã-Bretanha, seriam envolvidas – e o Armagedom teria começado. A melhor esperança do governo britânico, sob esse ponto de vista, se os tanques alemães começarem a rolar rumo a Praga, como fizeram rumo a Viena, seria que, como no caso da Áustria, não houvesse uma resistência ou a resistência fosse de tal forma ineficiente, que a França seria confrontada com um fato consumado antes que pudesse mobilizar-se.
Os atuais correspondentes jornalísticos dos países da OTAN e outros, bem poderiam aprender uma lição ou duas sobre objetividade e isenção com os daquela época crítica, em vez de se limitarem a repetir os boletins de imprensa e os porta-vozes dos governos engajados na distorção dos fatos, tanto contemporâneos como passados.
O presidente Edvard Beneš (1884-1948)
Por conseguinte, assim como nada fizeram frente à reocupação militar da Renânia, em 1936, e à anexação da Áustria, Paris e Londres não apenas não se dispuseram a levantar um único dedo contra os planos nazistas contra a Tchecoslováquia, como também passaram a pressionar fortemente o país para ceder às exigências de Hitler.
A crise se arrastou pelos meses seguintes. Em agosto, o governo britânico enviou a Praga uma missão encabeçada por lorde Runciman, integrante do círculo íntimo de Chamberlain, oficialmente, para uma intermediação entre Henlein e o governo, mas, na verdade, com o objetivo de aumentar a pressão sobre Beneš. Em paralelo, tanto a Alemanha como a França ordenaram a mobilização de suas forças militares.
Em setembro, o temor de guerra atingiu proporções de pânico. Em Londres, com uma mal disfarçada intenção de acirrá-lo, o governo distribuiu máscaras contra gases aos cidadãos, sob o pretexto de eventuais ataques aéreos com gases venenosos (modalidade, aliás, introduzida pela Real Força Aérea contra insurgentes iraquianos, na década de 1920). Na época, a Força Aérea Alemã (Luftwaffe) não dispunha de quaisquer aparelhos capazes de atacar as Ilhas Britânicas a partir da Alemanha.
Nesse ambiente, Chamberlain emergiu como a figura “providencial”, entrando em um avião pela primeira vez na vida para duas reuniões com Hitler, em 15 e 23 de setembro. Na segunda, o ditador informou que, além da entrega dos Sudetos à Alemanha, Praga deveria conceder autodeterminação às suas minorias eslovacas, polonesas e húngaras. Em paralelo, Londres e Paris encaminharam um ultimato a Beneš, ameaçando com a ruptura do acordo de assistência franco-checoslovaco. No dia 29, Chamberlain voou a Munique, onde, com Daladier, Mussolini e o anfitrião Hitler, mas sem a presença de quaisquer representantes tchecoslovacos (que esperaram a decisão durante horas, fora da sala de reunião), assinaram o acordo que selaria a destruição da Tchecoslováquia como nação soberana. Na volta a Londres, o premier pronunciou a frase que entraria para a História: “Acredito que é paz para o nosso tempo.”
Em uma carta escrita ao arcebispo de Canterbury, datada de 2 de outubro, Chamberlain escreveu:
Tenho certeza de que virá o dia em que os tchecos saberão que o que fizemos foi para garantir-lhes um futuro mais feliz. Acredito sinceramente que finalmente abrimos caminho para o apaziguamento geral que pode salvar o mundo do caos.
No livro A agonia da Tcheco-Eslováquia, Kurt Weisskopf, testemunha ocular dos acontecimentos, apresenta uma visão diferente do sentimento dos seus compatriotas:
Os tchecos não viram as coisas da mesma maneira que Chamberlain, na noite de 30 de setembro, quando suas esperanças foram destroçadas. Sua moral foi para baixo… Os Sudetos foram cedidos a Hitler, o mais forte cinturão de fortificações da Europa tinha desmoronado e a fronteira alemã fora trazida para somente um dia de marcha de Praga. Os homens e mulheres choravam nas esquinas, amaldiçoavam e descarregavam seu ódio sem esperança em vítimas sem defesa. (…)
Durante as negociações, a FA de Goering não só manteve Hitler totalmente informado das comunicações dos representantes estrangeiros, mas também chegou a entregar à embaixada britânica em Berlim as transcrições de conversas telefônicas entre Beneš e seu embaixador em Londres, Jan Masaryk, em que este vituperava contra Chamberlain, chamando-o de “velho mijão”.
Em Munique, os “quatro grandes” esquartejam a Tchecoslováquia: da esq. para a dir., Benito Mussolini, Adolf Hitler, Edouard Daladier e Neville Chamberlain
Em todo o episódio, Londres e Paris se empenharam em toda sorte de manobras diplomáticas para neutralizar qualquer possibilidade de intervenção da URSS, que dependia da autorização da Polônia ou da Romênia para a passagem de suas tropas, ambas devidamente pressionadas para negá-la. Vale recordar que, entre 1935 e 1939, os soviéticos fizeram reiterados apelos para o estabelecimento de uma frente comum para a contenção de Hitler, com a participação das principais potências europeias. Em agosto de 1939, diante da iminência do ataque alemão à Polônia, desistiram e assinaram o seu próprio pacto de não agressão com a Alemanha nazista, o hoje tão distorcido Acordo Ribbentrop-Molotov, que ganhou à URSS quase dois anos para se preparar melhor para o ataque alemão que suas lideranças sabiam ser questão de tempo.
Sob a pressão combinada das maiores potências do continente, a Tchecoslováquia capitulou sem disparar um único tiro e viu seu território retalhado entre a Alemanha, Polônia e Hungria. Em março de 1939, Hitler concluiu o que era a sua intenção desde o início, invadindo o restante do país e rebatizando-o como Protetorado da Boêmia e Morávia, cuja administração foi entregue à temida SS.
A perfídia franco-britânica em todo o processo que levou a Munique fica ainda mais ressaltada por dois fatos pouco mencionados pelos historiadores.
O primeiro é que, ao contrário da Áustria, a Tchecoslováquia estava longe de ser indefesa. De fato, Praga comandava uma das melhores forças militares do continente. Para o “Plano Verde”, a Wehrmacht dispunha de 35 divisões de infantaria e quatro divisões blindadas com cerca de 700 tanques, apoiadas por 400 aviões de caça e 600 bombardeiros. Contra esta armada, os tchecoslovacos podiam alinhar 33 divisões, 350 tanques, 370 caças e 60 bombardeiros modernos. Mas apenas os números não permitem uma avaliação plena da situação. Na ocasião, as divisões blindadas alemãs ainda estavam equipadas com modelos de tanques antigos, Mark I e II, muito inferiores em armamento e blindagem aos 300 LT-35 do exército tchecoslovaco (que, após a capitulação, foram reforçar as divisões Panzer alemãs que invadiriam a Polônia, França e a URSS, junto com os novos modelos T-38, que estavam prestes a sair das linhas de montagem em 1938). Além de uma eficiente artilharia de campanha e antiaérea, a infantaria dispunha da maior proporção de metralhadoras de qualquer exército do mundo, bem superior à do alemão. No ar, embora os caças Avia B-534 fossem inferiores em velocidade e armamento aos Messerschmitt Bf 109 e Bf 110 da Luftwaffe, eram em número suficiente para cobrar um alto preço a quaisquer atacantes, sobretudo, devido à qualidade dos seus pilotos (muitos dos quais, com a deflagração da guerra, iriam demonstrá-la nas forças aéreas da Polônia, França e Grã-Bretanha). E a formidável rede de fortificações erguida ao longo da fronteira com a Alemanha e a Áustria representava um obstáculo de difícil transposição para forças invasoras – como o próprio Hitler reconheceria, ao visitá-la após a rendição. Sem deixar de mencionar o alto grau de adestramento e o moral elevado dos militares tchecoslovacos, que não reagiram apenas por obediência à liderança civil.
Ou seja, a Wehrmacht estava diante do sério risco de um duro golpe ou de uma derrota fragorosa em sua primeira intervenção real, mesmo sem uma ação militar francesa ou soviética.
O segundo fato geralmente ignorado é a conspiração articulada contra Hitler por altos oficiais do Exército e um seleto grupo de diplomatas, conscientes do alto risco para a Alemanha que implicavam a invasão da Tchecoslováquia e a agenda subsequente do Führer. Tendo rapidamente desistido de dissuadi-lo, os conspiradores passaram a tramar a sua eliminação física. Os líderes da trama eram o general Ludwig Beck, chefe do Estado-Maior do Exército, o chefe do serviço de inteligência militar (Abwehr), almirante Wilhelm Canaris, seu chefe do Estado-Maior, tenente-coronel Hans Oster, o barão Ernst von Weiszäcker, secretário de Estado do Ministério das Relações Exteriores, Erich Kordt, chefe de gabinete do ministro von Ribbentrop, e Ulrich von Hassel, embaixador em Roma. Todavia, uma parte crucial do plano envolvia uma sinalização do governo britânico, de que estaria disposto a ir à guerra no caso de uma invasão da Tchecoslováquia. Para tanto, foram enviados emissários a Londres, na primeira quinzena de setembro, para conferenciar com altos dignitários britânicos, inclusive lorde Halifax e Winston Churchill, então na oposição ao governo de Chamberlain (para seu crédito, Churchill chegou a viajar a Paris, para buscar apoio à trama no governo francês, sem sucesso). Diante das recusas britânicas de comprometimento, o complô, marcado para 28 de setembro, foi cancelado quando seus líderes receberam a notícia da viagem de Chamberlain a Munique.
A questão em jogo não escapou nem mesmo a um notório defensor dos valores britânicos, o inglês Paul Johnson, que, em seu livro Tempos modernos: o mundo dos anos 20 aos 80 (Biblioteca do Exército e Instituto Liberal, 1994), escreveu a respeito:
(…) O que Beck e seus colegas queriam era um ultimato – uma ameaça de guerra. O gabinete decidiu exatamente o contrário, como se depreende das seguintes palavras de Chamberlain: “O gabinete estava unânime na ideia de que nós não pronunciaríamos uma ameaça a Herr Hitler, e que, se ele invadisse a Checosolováquia, nós não lhe declararíamos guerra. Era da maior importância que tal decisão fosse mantida em segredo.” Uma vez que a publicidade era essencial para a eficácia do procedimento a ser adotado, a decisão do gabinete tornou-se incompreensível, exceto na suposição de que Chamberlain e outros não quisessem que Hitler fosse derrubado [grifos nossos].
Não é preciso muita imaginação para se conceber as possíveis consequências da eliminação de Hitler em 1938.
Com o esfacelamento da Tchecoslováquia, mais de 400 tanques, 1.000 aviões, 2.500 canhões, 40 mil metralhadoras, 100 mil pistolas, 1 milhão de fuzis e mais de 1 bilhão de cartuchos de munição foram incorporados à máquina bélica alemã, contribuindo sobremaneira para acelerar os preparativos para a guerra iminente. O mesmo ocorreu com o grande complexo industrial Skoda, cuja produção igualava a de toda a indústria bélica britânica e que serviu à Alemanha até o final da guerra.
A traição de Londres se consumou em maio de 1939, quando o Banco da Inglaterra transferiu aos nazistas as 6 milhões de libras esterlinas (equivalentes a 420 milhões de libras atuais) de reservas de ouro da Tchecoslováquia que estavam em seu poder, com a anuência do governo britânico, que alegou não poder interferir com as ações de um banco privado.
No capítulo final do livro The Bell of Treason: The 1938 Munich Agreement in Czechoslovakia (O sino da traição: o acordo de Munique em 1938 na Tchecoslováquia/Profile Books, 2018), um dos melhores relatos da perfídia de Munique, o historiador inglês Pierre Caquet situa os eventos de 1938 como o início de um longo período de trevas para a Tchecoslováquia, que, segundo ele, ainda não se encerrou totalmente: “De fato, pode-se dizer que os efeitos de Munique ainda persistem na República Checa, um país que se encontrava entre os mais avançados do mundo no período entreguerras e que, atualmente, tanto econômica como politicamente, continua sendo um país em vias de desenvolvimento.”
Como se vê, algumas analogias históricas com a atualidade podem, de fato, ser extraídas daqueles acontecimentos, embora não exatamente da maneira sugerida pelos mistificadores de plantão.
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