Resenha: Os 329 dias que levaram à unificação alemã, de Horst Teltschik

Acaba de ser lançado na Alemanha um livro de grande relevância para o público em geral interessado na História recente e seus desdobramentos na atualidade, as memórias de Horst Teltschik, que foi conselheiro de política externa do chanceler Helmut Kohl (1982-1998) sobre o processo de reunificação da Alemanha após o fim da Guerra Fria.

Com quase mil páginas, a obra com o título acima, publicada pela Vandenhoeck & Ruprecht Verlag, é editada pelo historiador austríaco Michael Gehler, professor do Instituto Hildesheim de História Contemporânea, que a enriquece com oportunas anotações, oferecendo ao leitor uma visão fascinante de um dos períodos mais emocionantes da história alemã e europeia.

O livro expõe em detalhes o processo de reunificação e a criação das bases para uma nova ordem de paz na Europa, 44 anos após o fim da II Guerra Mundial, do qual Teltschik participou ativamente, junto com outros assessores de Kohl, como Rudolf Seiters, Wolfgang Schäuble e Hans Dietrich Genscher. Um trabalho de equipe no qual demonstrou um instinto político seguro, uma abordagem pouco ortodoxa e corajosa para problemas políticos complexos, aguçados poderes de observação e um pensamento criativo.

Exemplos do seu trabalho incluem o rascunho para a declaração de dez pontos de Kohl ao Parlamento (Bundestag) em 28 de novembro de 1989, logo após a queda do Muro de Berlim, ocorrida três semanas antes, mas também os seus esboços, memorandos e negociações extremamente habilidosas e missões secretas de apuração de fatos em nome do chanceler, na União Soviética, Hungria, a maioria dos estados do Pacto de Varsóvia e nos EUA, que iniciaram e facilitaram uma reviravolta estratégica na Europa em um curto período de tempo. O livro proporciona uma viva visão das reuniões preparadas por Teltschik com os mais importantes estrategistas e chefes de governo na Europa e nos EUA, sob as presidências de Ronald Reagan e George H.W. Bush, com o secretário de Estado James Baker, o conselheiro de Segurança Nacional Brent Scowcraft e o assessor diplomático presidencial Robert Blackwill, sem cuja ativa assistência a reviravolta histórica não teria ocorrido. O leitor recebe um perfil preciso de vários chefes de governo, como o primeiro-ministro húngaro Miklós Neméth, um pioneiro dos acontecimentos e um golpe de sorte para a Alemanha. Por sua orientação, em setembro de 1989, dois meses antes da queda do Muro, o governo húngaro abriu os postos de fronteira em Soprón, na fronteira com a Áustria, garantindo que dezenas de milhares de cidadãos da então Alemanha Oriental pudessem atravessar para o lado ocidental.

Da mesma forma, são descritos o pensamento e as ações de vários governos da Europa Ocidental, como o presidente francês François Mitterrand e seu conselheiro Jacques Attali, com quem Teltschik estava em contato constante, a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, que não escondia a sua oposição inicial à reunificação alemã, juntamente com o holandês Rudd Lubbers e o italiano Giulio Andreotti. Atitudes que contrastavam com apoio dos governos da Espanha, com Félipe Gonzalez, Luxemburgo, com Jacques Santer, e Bélgica, com Wilfried Martens.

Foi também Teltschik que, no final de 1988, viajou à Hungria em uma missão secreta, acompanhado pelo então presidente do Deutsche Bank, Alfred Herrhausen, um dos primeiros defensores de uma solução para a dívida da América Latina, para negociar um empréstimo para o governo de Németh, acossado por sérios problemas econômicos. No mesmo período, ele visitou a maioria dos estados do Pacto de Varsóvia e, finalmente,  junto com Kohl, a União Soviética, onde o recém-eleito secretário-geral Mikhail Gorbatchov se esforçava para implementar as grandes reformas com a sua com perestroika. Na época, todos esses países lutavam com uma grave crise econômica e buscavam uma maneira de superar os seus gargalos financeiros.

Para todo historiador e aspirante a diplomata sérios, o livro proporciona um insight à questão de como um dado momento histórico, a queda do Muro de Berlim, provocado pela revolta pacífica de milhões de pessoas na Alemanha Oriental, foi catalisado pelas ações individuais de personagens como Kohl, Teltschik, Seiters, Schäuble, Genscher, um punhado de banqueiros, Scowcraft, Blackwill, Gorbatchov e seu chanceler Eduard Shevardnadze, que foram capazes de tirar proveito do momento histórico e tornar a possível a reunificação da Alemanha no período incrivelmente curto de 329 dias e, assim, estabelecer as bases da política de segurança para uma nova ordem de paz na Europa.

O caminho de Teltschik na política

A trajetória política de Teltschik passou a seguir a de Helmut Kohl desde a década de 1970, quando o então primeiro-ministro do estado da Renânia-Palatinado o recrutou para o seu círculo de assessores. Após a eleição de Kohl como chanceler federal, em outubro de 1982, Teltschik se tornou diretor ministerial do Departamento de Relações Exteriores e Intra-Alemãs, Política de Desenvolvimento e Segurança Exterior, cargo que ocupou até 1990. Depois de deixar o governo, atuou na iniciativa privada e, de 1999 a 2008, assumiu a presidência da Conferência de Segurança de Munique (MSC), onde sucedeu o seu fundador Ewald von Kleist. Fundada em 1963 e ainda hoje ativa, a MSC reúne anualmente representantes de países de todos os continentes, inclusive chefes de Estado e de governo, para discussões abertas sobre o cenário político internacional. Teltschik manteve relações com Gorbatchov até a morte deste, em 2022, e também teve importantes discussões com o presidente Vladimir Putin, a quem convidou para o seu célebre discurso na MSC em 2007, onde alertou sobre os riscos de um futuro caracterizado pela ação unipolar dos EUA.

Avaliações de Teltschik

Na introdução do livro, o editor Michael Gehler observa que Teltschik tendia a ficar em segundo plano em oportunidades de fotos oficiais, não sendo movido pelo ego, como Genscher e outros contemporâneos: “Com a sua diplomacia silenciosa, ele não era um enviado oficial, mas um mediador habilidoso.”

Em seu livro de memórias, Kohl descreveu Teltschik como “o meu mais importante conselheiro de política externa e um dos meus colegas mais próximos. (…) A política externa e de segurança, bem como a política europeia e alemã, eram a paixão de Teltschik. Em 1989-90 em particular, ele discretamente lidou com uma série de missões sensíveis e importantes em meu nome pessoal com um senso de responsabilidade e habilidades de negociação”.

O conhecido historiador britânico Timothy Garton Ash disse sobre ele: “Equipado com um conhecimento detalhado e maior sofisticação analítica do que Kohl, Teltschik entendeu e aceitou o sistema geral da Ostpolitik [Política para o Leste] que eles herdaram de [Willy] Brandt e [Helmut] Schmidt, e queria desenvolvê-lo ainda mais: o triângulo central (Bonn-Moscou-Berlim) dentro do triângulo maior (EUA-Alemanha-União Soviética), a prioridade das relações com Moscou e o imperativo da sincronização… ele sabia que a chave para a unidade alemã estava lá, mas que também precisava do apoio de Washington para quebrar o status quo da divisão da Alemanha e da Europa.”

A habilidade especial de Teltschik, que [o ex-secretário de Estado Henry] Kissinger também tinha em alta estima, era o seu conhecimento da natureza humana, a percepção rápida e a determinação em definir novas prioridades para a ação estratégica. Com a sua equipe na Chancelaria Federal, Teltschik possuía a habilidade de obter conceitualmente o melhor de uma determinada situação, lidar com problemas de forma orientada para soluções e implementar ideias estrategicamente importantes de forma eficaz e rápida. Mesmo depois de deixar o cargo, ele seguiu confiando na prática da “tempestade cerebral criativa” com vários parceiros de diálogo em pequenos grupos. Esta foi a maneira com que conseguiu criar um diálogo genuíno, tanto no governo como fora dele, inclusive na MSC de Munique, algo que seus sucessores parecem não conseguir fazer, dadas as tensões atuais e as diferentes visões estratégicas prevalecentes.

Marcos importantes no caminho para a reunificação

Desde meados da década de 1980, Kohl e Teltschik fizeram várias viagens à União Soviética, que resultaram na visita de Gorbatchov a Bonn e a declaração conjunta germano-soviética de junho de 1989, que, de acordo com Teltschik, “abriu um novo capítulo nas relações entre Bonn e Moscou”.

Gehler observa que, por sugestão de Teltschik, generais soviéticos passaram vários dias na República Federal da Alemanha, onde puderam visitar instalações militares, com o objetivo de promover a cooperação e construir confiança. De acordo com Timothy Garton Ash, Teltschik foi o arquiteto da Declaração de Bonn, “que poderia ser vista como uma diretriz para o curso da política europeia nas décadas seguintes” e com a qual a República Federal havia colocado a sua posição política em relação aos EUA e à URSS.

Logo após a queda do Muro de Berlim, o jornalista soviético Nicolai Portugalov, um emissário do ex-embaixador soviético na Alemanha Ocidental Valentin, contatou Teltschik com propostas que delineavam algumas ideias para uma futura arquitetura da Alemanha dentro da Europa. Termos como “confederação” eletrizaram Teltschik completamente, ao ler as notas de Portugalov. Prontamente, ele informou Kohl, instando-o a agir sem perda de tempo. O resultado foi a elaboração do famoso programa de dez pontos apresentado pelo chanceler em um discurso no Parlamento, em 28 de novembro de 1989. Como Teltschik observa em seu diário, as reações, tanto na Europa como na URSS, foram defensivas e parcialmente hostis, em especial, em Londres e Paris. Entre os pontos-chave da proposta, estavam: a ideia de ajuda econômica, uma vez que a liderança da Alemanha Oriental concordasse com uma mudança constitucional e uma nova lei eleitoral; a criação de estruturas “confederais”; a Alemanha como parte da arquitetura da Europa como um todo; a Comunidade Europeia como base para a unificação pan-europeia; novas negociações na Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (CSCE); desarmamento e controle de armas; e a criação de uma “Alemanha livre e unida em uma Europa livre e unida”.

Até o dia da reunificação alemã, em 3 de outubro de 1990 (após a qual Teltschik renunciou ao seu cargo governamental), uma combinação de reuniões de cúpula teve que ser administrada em paralelo às rápidas mudanças que estavam ocorrendo dentro da Alemanha Oriental. Entre elas: a Cúpula Europeia em Dublin, em junho, que impulsionou ainda mais a ideia de uma arquitetura abrangente da UE; a cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em Londres, em julho; a Cúpula Econômica Mundial em Houston, também em julho. Tudo isso precedido por uma cúpula informal de dois dias com Kohl e Teltschik, em fevereiro de 1990.

De fato, foi um árduo caminho de negociações conduzidas em um curto período, para acalmar as preocupações de vários chefes de Estado europeus e obter a luz verde, tanto dos EUA quanto da União Soviética.

O milagre de Moscou – uma visita ao Cáucaso

Um grande avanço ocorreu nas reuniões de 14-16 de julho de 1990 entre Gorbatchov e Kohl, cuja delegação incluiu Waigel, Genscher e Teltschik. Os encontros ocorreram em uma atmosfera de confiança mútua e relaxamento, que evoluiu no contexto da bela paisagem do Cáucaso. Teltschik oferece notas detalhadas sobre a entrevista coletiva dos dois líderes em 16 de julho, ocasião em que foi apresentado o acordo de oito pontos assinado entre eles, dos quais merecem destaque:

“1) a unificação inclui a República Federal, a RDA e Berlim; 2) após a unificação ser concluída, os direitos e responsabilidades das quatro potências serão completamente substituídos. A Alemanha unificada recobraria a sua soberania total; 5) as estruturas da OTAN não seriam estendidas ao território da antiga RDA, enquanto as tropas soviéticas ainda estiverem ali estacionadas lá… unidades não integradas do Exército Federal poderão ser estacionadas no território da atual RDA e em Berlim, imediatamente após a unificação; 6) durante a presença de tropas soviéticas no território da antiga RDA, as tropas das três potências ocidentais deverão permanecer em Berlim; 7) nas negociações em andamento em Viena, o Governo Federal assumirá um compromisso para reduzir as Forças Armadas de uma Alemanha unida para uma força de 370.000 homens dentro de 3-4 anos. A redução deverá começar quando o primeiro Acordo de Viena entrar em vigor; 8) uma Alemanha unida renunciará à produção, posse e descarte de armas de destruição em massa e permanecerá como membro do Tratado de Não Proliferação Nuclear.”

Bush em 1989: “Respeitem-se os interesses legítimos de segurança da URSS”

Em uma longa entrevista de Teltschik a Gehler, em 2023, incluída no final do livro, Teltschik mostra a sua boa percepção do pensamento da União Soviética e da Rússia, ressaltando a importância de se levarem a sério os interesses de segurança russos, “como denota o dilema dramático que estamos enfrentando na guerra na Ucrânia”. Diz ele:

“Para a Rússia, a questão da segurança sempre foi a questão-chave, justificada ou não. A grande ajuda que o presidente [George H.W.] Bush nos deu sem ser solicitado foi o seu discurso em Mainz, em 19 de maio de 1989. Este importante discurso não foi notado como tal na Alemanha e na Europa. Ele disse que os EUA respeitariam os interesses legítimos de segurança da União Soviética. Esta declaração-chave veio em um momento em que ninguém sentia que isso precisava ser enfatizada. Mas ter dito isso e ter deixado claro que os EUA não se viam como inimigos da URSS foi, na minha opinião, crucial para o processo geral, que a questão da Europa estava inequivocamente ligada à questão da segurança soviética. Mais tarde, nós mesmos vivenciamos que o avanço nas negociações com Moscou também estava ligado ao fato de que estávamos preparados para oferecer à URSS um tratado entre uma Alemanha unida e a União Soviética, incluindo compromissos claros de política de segurança, em maio de 1990. Ainda me lembro de como o embaixador soviético [Julij] Kwizinskij e o ministro das Relações Exteriores [Eduard] Shevardnadze reagiram entusiasticamente a essa proposta.”

Em outro momento, Teltschik destacou a importância primordial das negociações no Cáucaso: “As negociações no Cáucaso foram de longe o ponto alto das relações com a União Soviética. (…) Além disso, alcançamos de longe as negociações de desarmamento e controle de armas de maior alcance nos anos de 1989 a 1991.”

Muitas esperanças foram depositadas na Carta de Paris, sobre a criação de uma nova ordem pacífica na Europa, assinada em 21 de novembro de 1990 na capital francesa por representantes de 32 Estados, como um documento fundamental para a superação da divisão da Europa, baseado na ênfase nos direitos inalienáveis ​​do homem, aumento da cooperação econômica, medidas de construção de confiança e iniciativas de desarmamento.

Na entrevista, Teltschik respondeu por que a Carta de Paris nunca foi ratificada: “A proposta (de ratificação) existia. Um ano depois que Putin compareceu à Conferência de Segurança de Munique de 2007 a convite meu, [Dmitri] Medvedev veio oficialmente a Berlim em 2008, para a sua visita inaugural como o novo presidente. Como já mencionado, ele fez um discurso importante no Hotel Adlon em Berlim e propôs que a Carta de Paris fosse incorporada a um tratado. Isto teria proporcionado exatamente o que você [Gehler – EH] está dizendo. A resposta em todo o Ocidente foi zero. Ninguém respondeu a isso.”

Da mesma forma, ninguém reagiu quando, em resposta à guerra na Ucrânia, Teltschik, juntamente com o general Harald Kujat, o historiador Peter Brandt, o ex-diplomata Michael von der Schulenburg e o cientista político Hajo Funke, divulgaram um apelo para um acordo de paz e a uma solução negociada para a guerra [ver o artigo de Elisabeth Hellenbroich na Resenha Estratégica de 6 de agosto de 2023 – n.e.]. Na entrevista, Teltschik comentou que conhecia bem Kujat e que “muito teria sido alcançado se as propostas tivessem sido discutidas com os responsáveis ​​do Governo Federal. Como esperado, nenhuma reação foi recebida… isso não me surpreendeu”.

Muitos insights e fatos surpreendentes podem ser lidos na obra, que sem dúvida ficará como referência fundamental desse período histórico.

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