Latidos da “Hegemosfera” em Brasília

O “Estadão” de 30 de maio deu espaço para uma das mais bizarras e insultuosas manifestações diplomáticas estrangeiras já publicadas na imprensa brasileira. Sob o pretexto de criticar uma suposta desinformação russa sobre a guerra na Ucrânia, 35 embaixadores e encarregados de negócios, dos EUA e dos países que seguem a sua orientação – a “Hegemosfera” – fazem uma vigorosa defesa da “ordem global baseada em regras”, eufemismo para a pretensão hegemônica das oligarquias anglo-americanas.

Intitulado “Acreditamos nos fatos sobre a guerra na Ucrânia, não na desinformação”, o texto é uma mal disfarçada tentativa de pressionar o governo brasileiro para abandonar a sua posição de equilíbrio em relação ao conflito e unir-se à “comunidade internacional” na condenação generalizada e nas sanções contra a Rússia.

Em nove parágrafos, o artigo é um insulto à inteligência alheia desde o primeiro:

Nossos países estão de luto, juntamente ao Brasil e à comunidade internacional, pela perda de vidas inocentes e o deslocamento forçado de milhões de pessoas causado pela invasão não provocada, injusta e ilegal da Ucrânia pela Rússia. A invasão viola o direito internacional e ameaça a ordem global baseada em regras, que ajudou a preservar a paz na Europa e além desde a Segunda Guerra Mundial.

Assim como nossos países, o Brasil condenou a invasão da Rússia na Assembleia Geral das Nações Unidas. E, como muitos de nós, o Brasil está dando apoio humanitário à Ucrânia e proporcionando um porto seguro para os ucranianos que tiveram que fugir de suas casas.

De fato, os brasileiros lamentam profundamente a perda de vidas inocentes, não só na Ucrânia (inclusive em Donbass, desde 2014), mas também no Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Iêmen e outros países agredidos injusta e ilegalmente por alguns dos governos representados pelos signatários. Sim, o Brasil condenou a invasão, como também condenou as draconianas sanções impostas à Rússia, inclusive o virtual confisco de suas reservas cambiais em euros e dólares mantidas no exterior. E também tem acolhido refugiados, inclusive de alguns dos países devastados pelas guerras provocadas pelos governos citados, entre eles, cerca de 4 mil sírios.

Quanto ao efeito da “ordem global baseada em regras”, ele foi visto nas guerras anticoloniais e em incontáveis guerras civis e intervenções na Ásia, África e América Latina, além de várias “revoluções coloridas” no espaço da antiga União Soviética, quase invariavelmente, em favor das pautas ditadas de Washington e das capitais subordinadas ao poderio estadunidense.

Prosseguindo na subestimação dos leitores, o texto afirma que “a comunidade internacional se vê lutando uma guerra de desinformação travada pela Rússia”. Considerando que os países que representam 85% da população mundial não aderiram às sanções contra Moscou, pode-se supor que seus governos encontraram meios de discernir as origens da desinformação e pautar seus interesses de acordo com isto.

Adiante, o manifesto lembra que o Brasil “é particularmente afetado pelo risco de escassez de fertilizantes”. Só não comenta que o País segue recebendo fertilizantes da Rússia, precisamente, por não ter aderido às sanções contra ela. E chega a afirmar que os russos estão “bombardeando campos e estoques de grãos, impedindo as colheitas de trigo e milho”, além de bloquear portos e paralisar a capacidade de exportação de alimentos da Ucrânia.

Curioso que ninguém tenha visto as forças militares russas bombardeando campos de cultivo e silos de grãos. E quem bloqueou os portos foram os próprios ucranianos, que os minaram para dificultar o acesso da Marinha russa, obrigada a proceder ao trabalho de limpeza, já tendo disponibilizado um corredor livre ao porto de Odessa.

O cinismo dos signatários chega ao cume quando afirmam que, “se o direito internacional significa algo, as elites russas não podem violá-lo impunemente; elas devem pagar um preço”.

Lástima que tal ênfase na defesa do direito internacional não tenha sido colocada nas guerras de escolha impostas a países virtualmente indefesos por algumas das potências representadas na diatribe.

Outro parágrafo afirma:

A Rússia está usando mentiras para justificar a invasão, alegando que a Ucrânia é governada por nazistas que cometeram atrocidades contra russos étnicos. Mas foi incapaz de fornecer qualquer evidência dessas supostas atrocidades. A verdade é que a última vez que a Ucrânia experimentou o uso de foguetes e artilharia pesada para atingir e aterrorizar civis foi quando ela foi invadida por nazistas de verdade durante a Segunda Guerra Mundial.

A rigor, Moscou não precisava ocupar-se em fornecer evidências das influências neonazistas prevalecentes entre os ultranacionalistas ucranianos que compartilham o poder real no país com um seleto grupo de oligarcas bilionários, sem falar nos reiterados bombardeios a Donetsk e Luhansk desde 2014, intensificados em meados de fevereiro, dias antes do início da operação militar russa. Há uma pletora de tais evidências disponível a quem se dispuser a procurá-las, inclusive, na própria mídia da “Hegemosfera”.

Adiante, os signatários acusam a Rússia de negar “qualquer responsabilidade pelos massacres e estupros em Bucha e em outros lugares”, inclusive “o ataque aéreo na estação de trem de Kramatorsk”, episódios em que observadores objetivos, inclusive ocidentais, não deixaram de apontar os fortes indícios de autoria ucraniana, em vez de russa.

Finalmente, os autores juntam o Brasil a um alegado “interesse comum em defender o Estado de Direito na Ucrânia”. Pena que não tenham detalhado a sua definição de Estado de Direito, dificilmente aplicável a um país cujo governo, ainda no ano passado, fechou três canais de televisão independentes e em março último baniu os próprios partidos de oposição.

Os países representados na diatribe são os EUA, Canadá, Reino Unido, Austrália, Japão, Nova Zelândia e todos os membros da União Europeia (UE), além da própria UE.

(Foto: Wikimedia Commons.)

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