Desde o início da Operação Z, a ação militar russa na Ucrânia, a máquina de propaganda ocidental, basicamente centrada em Washington, Londres e Bruxelas, tem se empenhado em criar narrativas desorientadoras sobre o conflito, com o duplo objetivo de consolidar a visão da Rússia como uma agressora impiedosa e do Ocidente liderado pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a União Europeia (UE) como os virtuosos campeões da democracia, do direito internacional e dos altos valores civilizatórios.
Apesar de se basearem em axiomas falsos, que não resistem a exames objetivos dos fatos reais, tais narrativas têm prevalecido nos relatos midiáticos e nas análises do conflito feitas por comentaristas jornalísticos, acadêmicos e até militares, grande parte dos quais motivados mais pela intenção de não destoar da “linha oficial” do que a de proporcionar uma visão realista dos acontecimentos.
Podemos agrupar esses axiomas em três linhas gerais:
1) A guerra é uma agressão não provocada e motivada pela intenção do Kremlin de reconstituir a antiga União Soviética.
Este axioma embute um sub-axioma, o de que nem a Ucrânia nem a OTAN, considerada como uma aliança “meramente defensiva”, representariam ameaças reais à Rússia.
Em realidade, o argumento da agressão não provocada só pode ser admitido sob um aspecto estritamente formal. No mundo real, a Federação Russa vem sendo encurralada desde meados da década de 1990 pela expansão da OTAN no espaço geopolítico do antigo Pacto de Varsóvia, com maior ênfase na tentativa de incorporação da Geórgia e da Ucrânia, explicitada na cúpula de Bucareste, em abril de 2008 (dois meses antes da fracassada investida militar da Geórgia na Ossétia do Sul e Abcásia, prontamente frustrada por uma rápida intervenção militar russa). Com o golpe de Estado “EuroMaidan”, em 2014, fomentado pelos EUA e alguns países europeus, ficou evidente a intenção de converter de fato a Ucrânia em uma ponta-de-lança da OTAN contra a Rússia, mesmo que não incorporada formalmente à Aliança.
A ascensão ao poder real em Kiev de grupos ostensivamente neofascistas, herdeiros diretos dos colaboradores pró-nazistas ucranianos da II Guerra Mundial, posteriormente recrutados pelos serviços de inteligência dos EUA e do Reino Unido para uma fracassada pseudoguerrilha contra a URSS, ensejou uma perseguição crescente à significativa parcela da população etnicamente russa (cerca de 20%) e falante de russo como primeira língua (em torno de 30%). Esta foi a motivação para a decisão da população da Crimeia de reivindicar a sua reincorporação à Federação Russa (à qual havia pertencido até 1957) e para o anúncio de secessão das províncias de Donetsk e Luhansk, na região de Donbass, no Leste do país, desde então submetidas a incessantes ataques militares pelas forças de Kiev, que causaram mais de 9 mil vítimas fatais, a grande maioria civis.
Todas as tentativas de Moscou de conseguir garantias de que a Ucrânia não seria admitida na OTAN foram rejeitadas, a última delas no final de 2021, quando também ficou claro que Kiev não tinha qualquer intenção de implementar os acordos de Minsk, os quais estipulavam um entendimento político com as províncias “rebeldes”, no sentido de assegurar-lhes certos direitos de autonomia – tarefa da qual, igualmente, se isentaram a Alemanha e a França, garantes dos acordos.
O resultado previsível foi o esgotamento da paciência do Kremlin. Como afirmou o presidente Vladimir Putin, no discurso de 24 de fevereiro último, no qual justificou a ação militar:
É um fato que, nos últimos 30 anos, temos tentado pacientemente chegar a um acordo com os principais países da OTAN, com respeito aos princípios de uma segurança igual e indivisível na Europa. Em resposta às nossas propostas, invariavelmente, nos defrontamos com enganos cínicos e mentiras ou tentativas de pressão e chantagem, enquanto a Aliança do Atlântico Norte continuava a se expandir, a despeito dos nossos protestos e preocupações. A sua máquina militar está se movendo e, como eu disse, se aproximando da nossa própria fronteira (Bloomberg, 24/02/2022).
No discurso, no qual afirmou que o objetivo russo não era ocupar toda a Ucrânia, mas “desmilitarizar” e “desnazificar” o país, Putin apontou outros dois fatores que levaram o Kremlin à ação militar: a intensificação dos bombardeios a Donetsk e Luhansk, como prelúdio de uma invasão às províncias (confirmada por várias fontes independentes), e a intenção de desenvolver armas nucleares, explicitada pelo presidente Volodymyr Zelenski na Conferência de Segurança de Munique, em 19 de fevereiro, sob aplausos entusiasmados da plateia de representantes da OTAN.
Em meio aos desdobramentos da Operação Z, Moscou especificou melhor suas intenções: uma garantia de neutralidade da Ucrânia em relação a alianças militares, com a proibição de realização de manobras com forças estrangeiras em seu território, o reconhecimento da Crimeia como integrante da Federação Russa e da independência de Donetsk e Luhansk.
Quanto à suposta intenção de reconstituir a antiga URSS, a Rússia não tem a menor necessidade disto, menos ainda, no contexto do processo de consolidação do eixo eurasiático como o novo centro de gravidade geoestratégico-geoeconômico do planeta, em estreita cooperação com a China e certas potências emergentes. Suas prioridades territoriais se restringem ao desenvolvimento da Sibéria, do Extremo Oriente e do Ártico, vasta área cerca de 50% maior que o Brasil e com menos de 25 milhões de habitantes, iniciativa que necessitará de cooperação e parceria com países não hostis. Qualquer manifestação em contrário é desconhecimento ou desinformação.
2) A Rússia subestimou a capacidade militar da Ucrânia e está perdendo a guerra.
Este tem sido um elemento frequente na campanha de desinformação sobre o conflito, apresentando as forças russas como ineptas, incapazes e propensas a toda sorte de brutalidades contra a população civil, e as ucranianas como eficientes e determinadas a impor um pesado castigo aos invasores. O quadro é completado por uma avaliação errônea sobre os objetivos, a estratégia e as táticas russas. Um exemplo típico é este artigo do colunista estrela do New York Times, Thomas Friedman, reproduzido n’O Estado de S. Paulo de 11 de abril:
Putin pensou que uma tomada em estilo blitzkrieg da Ucrânia valeria ao Exército russo o respeito adequado do Ocidente por sua destreza — colocando fim aos insultos que classificavam a Rússia, cuja economia é menor que a do Estado do Texas, simplesmente como “um posto de gasolina que possui bombas nucleares”. Em vez disso, o Exército de Putin acabou revelado como uma força incompetente e bárbara, que precisou alistar mercenários sírios e chechenos apenas para manter suas posições.
Depois de errar tanto e lançar esta guerra por iniciativa própria, Putin deve estar desesperado para mostrar que produziu algo — nem que seja ao menos controle incontestável do leste da Ucrânia, da região do Donbas em direção ao sul, até Odessa, ao longo da costa ucraniana do Mar Negro e conectando-se com a Crimeia. E ele certamente quer que isso aconteça até 9 de maio, para celebrar a conquista na parada do Dia da Vitória, que marca a vitória da Rússia sobre os nazistas na 2.ª Guerra.
Então, parece que Putin está se preparando para uma estratégia em duas frentes. Primeiro, ele está reagrupando suas forças arruinadas e concentrando-as completamente em conquistar e manter esse butim de guerra menor. Em segundo lugar, ele está dobrando a aposta na crueldade sistemática — no contínuo castigo a cidades ucranianas com foguetes e artilharia, para seguir matando o maior número possível de gente, criando o maior número possível de refugiados e provocando a maior ruína econômica que for capaz.
Em contraposição a um porta-voz do Establishment que se limita a copidescar o que lhe é informado, consultemos um veterano e sério profissional de inteligência militar, Larry Johnson, em sua coluna de 3 de abril no blog Sonar21:
A primeira fase da operação militar especial da Rússia consistiu no seguinte:
* Movimentou tropas e colunas blindadas na Ucrânia de três direções – Norte, Leste e Sul.
* Mobilizou apenas 200 mil homens, enquanto mantinha reservas chave dentro da Rússia, ao longo da fronteira ucraniana, contra um exército ucraniano estimado em 600 mil homens [incluindo os reservistas – n.e.].
* Evitou atacar os sistemas de comunicação, deixando os celulares e a internet grandemente intactos.
* Assumiu o controle da maior usina nuclear da Europa – a central nuclear de Zaporizhzhya –, mas manteve o fornecimento de eletricidade.
* Apoiou ofensivas das Repúblicas Populares de Luhansk e Donetsk contra forças ucranianas no Leste.
* Cercou Kiev gradualmente a partir do Norte, mas não travou quaisquer batalhas relevantes para ocupar cidades periféricas.
* Destruiu os radares terrestres, principais aeródromos e bases militares na Ucrânia Ocidental com mísseis de precisão.
* Isolou a costa sul da Ucrânia com a Marinha Russa.
* Lançou um ataque a Mariupol, um porto chave ucraniano no Sul, e aniquilou sistematicamente o Batalhão Azov neonazista (a Rússia já controla toda a cidade, exceto a usina siderúrgica, e continua a eliminar metodicamente os defensores remanescentes).
O efeito imediato dessa operação dividiu e congelou o Exército Ucraniano em quatro regiões geográficas – Norte, Sul, Leste e Oeste. Durante as duas primeiras semanas, os ucranianos e a OTAN não sabiam onde os russos desfechariam o golpe principal. O sucesso inicial da Rússia em eliminar a Força Aérea Ucraniana como força de combate efetiva e a destruição de bases militares e depósitos de combustível importantes impossibilitou que a Ucrânia pudesse despachar reforços para Donbass e Mariupol.
Na semana passada, a Rússia efetuou um deslocamento tático de forças que originalmente cercavam Kiev. Foi relatado que aquelas unidades se moveram para oeste e, provavelmente, serão usadas como força de bloqueio em um esforço mais amplo para derrotar o grosso do Exército Ucraniano, agora, virtualmente cercado na parte leste de Donbass.
Com a sua capacidade limitada de movimentar tropas ou reabastecer as forças na linha de frente, a Ucrânia está recorrendo à guerra de propaganda e informação, para tentar enfraquecer a Rússia e incitar a OTAN a se juntar à refrega. (…)
Parte importante dessa campanha propagandística são os ataques “bandeira falsa” (false flag) desfechados contra populações civis para responsabilizar a Rússia, como ocorreu em Bucha e Kramatorsk, relatos que não se sustentam diante de investigações minimamente objetivas, como observa o próprio Larry Johnson, em relação ao primeiro caso (o míssil usado no ataque a Kramatorsk, um Tochka-U, só é empregado pelas forças ucranianas).
Em um detalhado artigo publicado em 22 de março, o jornalista e produtor de vídeos Dan Cohen demonstra que tal campanha está sendo realizada de forma profissional por “um exército de estrategistas em política exterior, lobistas de Washington e uma rede de canais midiáticos vinculados a serviços de inteligência”.
Segundo ele, o esforço internacional é coordenado por Nicky Regazzoni, fundador da empresa de relações públicas inglesa PR Network, e Francis Ingraham, consultor de relações públicas ligado ao governo britânico, e envolve mais de 150 empresas de vários países.
3) A guerra é o marco inicial de uma nova divisão do mundo, entre “democracias” e “autocracias”.
Esta linha tem sido propalada pelo presidente estadunidense Joe Biden e por comentaristas-propagandistas engajados em disseminar a ideia de uma “nova Guerra Fria” entre o Ocidente “democrático” liderado, uma vez mais, pelos EUA, e potências “autocráticas” como a Rússia e a China. Entre outros, é o caso de Martin Wolf, principal comentarista econômico do Financial Times londrino, como enfatizou em entrevista ao “Estadão” de 22 de março (Resenha Estratégica, 23/03/2022).
No artigo recente, o próprio Friedman admite que “estamos entrando num período de incerteza geopolítica e econômica de um tipo que não testemunhávamos desde 1989 — ou possivelmente desde 1939”.
Na carta enviada aos acionistas do megafundo de ativos BlackRock, o CEO Larry Fink concedeu sem rodeios que “a invasão russa da Ucrânia pôs um fim na globalização que temos experimentado nas últimas três décadas” – elemento fundamental do cenário unipolar encabeçado pelos EUA no período pós-Guerra Fria (Resenha Estratégica, 30/03/2022).
Para arautos do Establishment, como Wolf, Friedman e caterva, a solução para tal impasse é simples: um alinhamento automático com os EUA e o bloco de nações “livres”, em uma versão 2.0 da Guerra Fria. Como declarou um resoluto Biden, em um discurso na Business Roundtable em Washington, em março: “Vai haver uma nova ordem mundial, e nós vamos liderá-la. E, fazendo isto, nós vamos unir o resto do mundo livre (White House, 21/03/2022).”
Todavia, a Rússia e a China (que tem criticado reiteradamente as sanções impostas à Rússia) pedem a devida vênia para discordar, apontando para o quadro mais realista e promissor de uma nova ordem global cooperativa e não hegemônica, ou seja, não submetida aos desígnios de Washington, Wall Street, Londres e Bruxelas.
Em uma reunião de chanceleres de países vizinhos do Afeganistão, realizada na cidade chinesa de Huangshan, em 30 de março, para tratar de assuntos relacionados à reconstrução do país centroasiático devastado por 20 anos de ocupação por forças da OTAN, o chanceler russo Sergei Lavrov afirmou, dirigindo-se ao seu colega chinês Wang Yi: “Nós, juntamente com vocês e com os nossos simpatizantes, nos moveremos rumo a uma ordem mundial multipolar, justa e democrática (France24, 30/03/2022).”
Na ocasião, um porta-voz da chancelaria chinesa afirmou que Moscou e Pequim continuariam com os esforços para “promover a multipolaridade global e a democratização das relações internacionais”.
Dias depois, foi a vez do diretor do Serviço de Inteligência Exterior (SVR) da Rússia, Sergei Naryshkin, sinalizar que o desfecho da operação militar russa na Ucrânia irá condicionar a ordem mundial” emergente.
Segundo ele, “a ferocidade do confronto indica claramente que se tratava de muito mais do que o destino do regime em Kiev. Na verdade, a arquitetura de toda a ordem mundial está em jogo. É bastante difícil prever seus contornos específicos com base na situação atual, mas podemos dizer com certeza que não haverá retorno ao antigo (Sputnik Brasil, 07/04/2022)”.
Para ele, “o universalismo liberal obsoleto” do presente pode e deve “ser substituído por uma nova ordem mundial – uma que seja justa e sustentável”.
No dia 11, Lavrov voltou ao tema, afirmando categoricamente: “A nossa operação militar especial visa a por um fim nas expansões irrestritas e no curso irrestrito rumo à dominação total dos EUA e outros Estados ocidentais que o seguem, na arena internacional (TASS, 11/04/2022).”
E ninguém menos que o próprio Putin sintetizou a questão, durante uma entrevista coletiva ao lado do presidente bielorrusso Alexander Lukashenko, em Moscou: “O que está acontecendo hoje? É a destruição de um mundo unipolar que se formou após a queda da URSS. Muitas vezes, se dizia que os EUA estavam preparados para lutar contra a Rússia até o último ucraniano. Assim é. Esta é a essência do que está acontecendo (RT, 12/04/2022).”
Uma nova ordem, sim, mas não exatamente a pretendida pelas potências ocidentais desesperadas com a rápida deterioração da sua hegemonia, ironicamente, catalisada pelas reações ensandecidas contra a Rússia.

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