Possivelmente, nenhum episódio é mais revelador das intenções e motivações das forças políticas envolvidas no imbróglio criado em torno da Ucrânia e a suposta ameaça de uma “invasão” militar russa, do que a retirada de pessoal diplomático dos EUA, Reino Unido e Canadá, da capital Kiev, com a ostensiva intenção de criar um clima de pânico diante de uma inexistente ação militar iminente, em contraste com a atitude mais fria do governo ucraniano e da União Europeia (UE).
De fato, o próprio presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou que não havia “motivo para pânico” que justificasse a retirada, afirmativa enfatizada em uma conversa telefônica com o estadunidense Joe Biden. O argumento de Zelensky foi repetido por outros altos funcionários do governo ucraniano, um dos quais afirmou que os diplomatas estadunidenses estavam “mais seguros em Kiev do que em Los Angeles… ou outra cidade dos EUA infestada de crimes (RT, 24/01/2022)”.
Em uma entrevista coletiva, Zelensky reiterou:
Eles continuam apoiando esse tema, esse tópico. E eles o fazem tão sério e incendiário quanto possível. Em minha opinião, isto é um erro. Se você olhar apenas para os satélites, você vai ver o aumento de tropas, mas não pode avaliar se é apenas uma ameaça de ataque ou uma simples rotação delas (New York Times, 28/01/2022).
Anteriormente, o ministro da Defesa ucraniano, Oleksiy Reznikov, já havia reduzido a histeria sobre o “ataque iminente” às devidas proporções: “Até agora, o exército russo não formou um grupo de ataque que seria capaz de efetuar uma invasão. Do ponto de vista militar, não há motivos para pensar que uma invasão acontecerá amanhã (Bloomberg, 25/01/2022).”
Até mesmo o chefe da diplomacia da UE, Josep Borrell, um notório “russófobo”, admitiu que não havia necessidade de “dramatizar” a situação: “Não vamos fazer a mesma coisa [retirada de diplomatas], porque não conhecemos quaisquer razões específicas (RT, 25/01/2022).”
Para complicar, o comportamento errático de Biden – que não poucos observadores consideram como uma evidência de um processo de demência senil em curso – em nada contribui para reduzir os riscos de uma situação já bastante complicada.
Em 19 de janeiro, Biden surpreendeu a todas as partes envolvidas no imbróglio, ao afirmar que a resposta da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) a uma eventual invasão da Ucrânia dependeria da dimensão da operação, chegando a insinuar que uma “incursão menor” poderia ser tolerada: “Vai depender do que ela [a Rússia] fizer. Uma coisa é uma incursão menor, e nós acabarmos tendo uma briga sobre o que fazer e não fazer (NPR, 20/01/2022).”
O lapso verbal obrigou a assessoria de imprensa da Casa Branca a passar todo o dia seguinte, primeiro aniversário da posse de Biden, se explicando. A secretária de imprensa Jen Psaki divulgou uma nota, afirmando que qualquer entrada de forças militares russas em território ucraniano seria “recebida com uma resposta rápida, severa e unida dos Estados Unidos e nossos aliados”.
Na conversa com Zelensky, no dia 27, Biden repetiu a dose. O motivo oficial era “reafirmar a prontidão dos EUA, juntamente com seus aliados e parceiros, para responder decisivamente se a Rússia invadir ainda mais (sic) a Ucrânia (White House, 27/01/2022)”.
Todavia, o jornalista Alexander Marquardt, correspondente sênior de Segurança Nacional da CNN, apresentou no Twitter uma versão diferente da conversa. Segundo ele: “Uma invasão russa é agora virtualmente certa, assim que o solo congele, Biden disse a Zelensky, segundo um alto funcionário ucraniano. Kiev poderia ser ‘saqueada’, forças russas podem tentar ocupá-la, ‘prepare-se para o impacto’, disse Biden, segundo esse funcionário.”
Prontamente, a assessora de imprensa do Conselho de Segurança Nacional, Emily Horne, divulgou um desmentido, afirmando que Biden havia dito apenas que “há uma possibilidade distinta de que os russos poderiam invadir a Ucrânia em fevereiro”. Qualquer afirmativa diferente, enfatizou, “é completamente falsa”.
Longe de limitar-se ao titular da Casa Branca, a senilidade está institucionalizada em toda a estrutura de poder hegemônico construída em torno do poderio político, econômico, financeiro e militar dos EUA, com seus apêndices da OTAN. Condição que, a par com a soberba “excepcionalista” característica das elites de Washington, bloqueia a aceitação do cenário global multipolar que emerge de forma inexorável, com a migração do centro de gravidade geopolítico e geoeconômico do planeta para o eixo eurasiático encabeçado pela China e a Rússia.
Não obstante, é visível um crescente descontentamento entre os membros europeus continentais da OTAN com as atitudes do trio anglófono, cuja sintonia fina recorda a sua atuação decisiva para o lançamento da Guerra Fria, a partir da extensão da estrutura de inteligência compartilhada estabelecida durante a II Guerra Mundial, que, entre outras iniciativas, resultou na criação da rede de vigilância eletrônica “Cinco Olhos” (Five Eyes), à qual se somaram os serviços específicos da Austrália e da Nova Zelândia.
A demonstração mais efetiva de tal contrariedade foi a reunião de altos representantes do Quarteto da Normandia – França, Alemanha, Ucrânia e Rússia – em Paris, em 26 de janeiro, para discutir um cessar-fogo entre as forças militares ucranianas e as milícias das províncias insurgentes de Donetsk e Lugansk, pivôs dos atritos entre Kiev e Moscou. Um comunicado conjunto emitido após a reunião ressaltou que os participantes apoiam um “cumprimento incondicional do cessar-fogo… independentemente das diferenças em outros assuntos relacionados à implementação dos acordos de Minsk (France24, 26/01/2022)”.
Os acordos de Minsk, estabelecidos em 2015, determinam que o governo de Kiev entabule negociações políticas com as províncias “rebeldes”, com o objetivo de aparar as arestas criadas pelo golpe que derrubou o presidente Viktor Yanukovich, no ano anterior, com o apoio ostensivo dos EUA e da UE. Porém, até agora, Kiev tem procrastinado quaisquer iniciativas nesse sentido, preferindo recorrer a questionáveis ações militares, que já resultaram na morte de mais de 10 mil pessoas.
Uma nova reunião foi marcada para a segunda semana de fevereiro, em Berlim.
Dias antes, em um discurso no Parlamento Europeu, o presidente francês Emmanuel Macron voltou a bater na tecla de que a Europa precisa de um acordo de segurança coletiva, que envolve boas relações com a Rússia:
A Europa precisa construir uma ordem de segurança coletiva no nosso continente. A segurança do nosso continente requer um reforço estratégico da nossa Europa como uma potência de paz, uma potência equilibradora, particularmente, no seu diálogo com a Rússia… Para a segurança no nosso continente, que é indivisível. Nós precisamos desse diálogo. O que precisamos é construir uma ordem europeia baseada em princípios e regras com as quais nos comprometamos, e que não estabeleçamos contra ou sem a Rússia, mas com a Rússia (Presidência Francesa do Conselho da UE, 19/01/2022).
Curiosamente, o presidente francês empregou expressões idênticas às usadas pelo chanceler soviético Maksim Litvinov – segurança coletiva e paz indivisível – em suas frustradas propostas para o estabelecimento de uma frente de potências europeias contra a ameaça da Alemanha de Adolf Hitler, na segunda metade da década de 1930. Diante da sequência de negativas, em agosto de 1939, às vésperas da guerra, para ganhar tempo com o seu próprio rearmamento para o futuro confronto que sabia inevitável, a União Soviética assinou um acordo de não beligerância com a Alemanha nazista – episódio que os belicistas de hoje têm se empenhado em converter em arma para a guerra de narrativas com que sustentam a sua agenda hegemônica e anti-russa.
Outros países europeus começam a ter segundos pensamentos sobre a questão. A Croácia e a Bulgária afirmaram que retirarão suas forças militares de qualquer intervenção referente à Ucrânia (que, nunca é demais recordar, não integra a OTAN). A Alemanha e a França não permitiram o sobrevoo de seus territórios por aviões britânicos levando equipamentos militares para a Ucrânia, e Berlim suspendeu qualquer envio de armas, além de impedir a transferência a Kiev de peças de artilharia de fabricação alemã do exército da Estônia. O primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán viajou a Moscou, em 1º de fevereiro, oficialmente, para discutir um aumento nas compras de gás natural russo, mas ninguém acredita que a questão ucraniana tenha ficado de fora da sua conversa com o presidente Vladimir Putin.
Uma ruidosa demonstração do desconforto com a agenda belicista contra a Rússia veio de ninguém menos que o chefe da Marinha alemã, vice-almirante Kay-Achim Schönbach, contrariando publicamente alguns elementos-chave da campanha de fustigamento contra Moscou, em uma palestra para oficiais navais indianos, em Mumbai. Segundo ele: 1) a Crimeia “não retornará” à Ucrânia; 2) a ideia de que a Rússia pretende apoderar-se de território ucraniano “é bobagem”; 3) o que Putin quer realmente é “respeito”. “E, meu Deus, mostrar respeito a alguém não custa quase nada. É fácil dar a ele o respeito que exige – e, provavelmente, merece (Focus, 23/01/2022).”
Já antecipando o terremoto que suas declarações causariam, Schönbach pediu demissão do cargo assim que o vídeo de sua conferência começou a circular na Internet. Mas um fator adicional de irritação para os seus críticos, seguramente, foi o fato de afirmar-se um devoto católico romano e referir-se à Rússia como um “país cristão”, uma autêntica “heresia” para os cultores europeus do laicismo radical.
Quiçá, toda essa inquietação se traduza em bom senso e racionalidade nas decisões políticas, permitindo que tal bloco europeu possa se contrapor efetivamente à senilidade beligerante proveniente de Washington, Londres e Bruxelas. E consiga, inclusive, demonstrar à Ucrânia, nas discussões do Quarteto da Normandia, que o país tem muito mais a ganhar em uma atitude cooperativa com a Rússia, do que os meros direitos de trânsito dos gasodutos que atravessam o seu território.

Español
Msia Informa
