Desde o início da campanha que lhe deu a vitória nas urnas, o recém-eleito presidente do Chile, Gabriel Boric, foi exaltado pelos principais meios de comunicação como um fenômeno inédito para manter a ordem político-econômica e cultural da globalização ou, em outras palavras, uma oxigenação urgente para um Ocidente liberal decadente e decrépito.
Com muitas plumas e paetês, elogiou-se a façanha de um grupo de jovens, militantes disciplinados da nova esquerda identitária que também abraçou a ideologia antiautoritária dos anos 1960, que superou o sistema partidário tradicional e se tornou protagonista de uma suposta grande mudança. O resultado é um governo exemplar integrado por feministas, ambientalistas e indigenistas, prontos para implementar uma nova democracia e uma economia “verde” que agrada muito as potências mundiais que promovem o “Grande Reset” (ou Grande Recomeço) do Fórum Econômico Mundial, lançado em plena pandemia de covid-19.
O protagonismo juvenil oriundo do movimento estudantil teve início nas manifestações que abalaram o país em 2019, quando a população em geral saiu às ruas para protestar contra as injustiças das políticas econômicas neoliberais, que tinham no sistema previdenciário a sua clara expressão de crueldade social.
As justas manifestações prepararam o fermento para assar o pão. Assim, grupos de interesses variados, alguns abertamente terroristas, aproveitaram-se da situação, mas a temperaram com cizânia, por exemplo, contra a Igreja Católica e o processo de evangelização, o mais importante patrimônio cultural comum à Ibero-América. Posteriormente, a coleção conquistou um número substancial de cadeiras na Assembleia Constituinte eleita com a missão de redigir uma nova Carta Magna para o país. Dentro desse fermento surgiu a candidatura de Boric.
Esse tipo de revolta social tem sido chamado de “revolução molecular dissipada”, devido a um claro descontentamento inicial que se reproduz em ondas cada vez mais amplas, difusas e incontroláveis.
No entanto, romper com um sistema político corroído não é garantia do surgimento de uma economia mais justa, de uma educação melhor e muito menos do pleno exercício da soberania e integridade territorial do país. O presidente Boric, no pequeno espaço político que conquistou, anunciou vagas mudanças na orientação neoliberal da economia, com uma retórica em favor de um sistema de bem-estar social ao estilo europeu e uma flexibilização do draconiano sistema previdenciário privado.
No entanto, a execução pode resultar muito pior para a estabilidade chilena, pois a ênfase do programa de governo é cristalizar uma “mudança” baseada nas múltiplas variantes do programa identitário e multicultural.
Um gabinete de conotação feminista não se refere aos dotes femininos, mas a uma militância ancorada na desarmonia, razão pela qual menospreza de início a dignidade das mulheres e dos homens, rebaixando-a à sua esfera biológica, além de dividir a população com uma definição arbitrária de direitos humanos. Por sua vez, a Assembleia Constituinte ataca instituições históricas como as Forças Armadas e os Carabineiros (Polícia Militar), com grupos radicais já tendo manifestado o desejo de eliminá-los. E o indigenismo abre as comportas do “etnonacionalismo” em prol de uma ficção catalogada como respeito aos direitos dos povos originários, o que pode levar a uma fragmentação do país.
A ênfase em um falso ambientalismo, que, além dos componentes conhecidos, pretende adotar oficialmente o respeito aos direitos dos lutadores ambientais conforme estabelecido no chamado Acordo de Escazú. “Momento histórico! O presidente Gabriel Boric assina uma mensagem para o Congresso aprovar a adesão do Chile ao Acordo de Escazú, o principal tratado de democracia ambiental na América Latina e no Caribe”, celebrou o Ministério do Meio Ambiente, em 21 de março, por meio de sua conta no Twitter.
E ninguém se engane, essa força antinacional não é original dos grupos recém-surgidos no Chile – que não viveram o processo histórico de participação em um projeto nacional e por isso se deixam seduzir pelo colonialismo ideológico -, mas é um projeto que remonta a mais de três décadas. Nada menos que a “Nova Ordem Mundial”, mediada na Ibero-América por ONGs e fundações opulentas, além de instituições criadas abertamente por poderes oligárquicos internacional, como o Diálogo Interamericano, braço dos “social-democratas” do Departamento de Estado dos Estados Unidos, cujo membro mais notável no Chile é a ex-presidente Michelle Bachelet, a atual Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos e apoiadora entusiástica de Boric.
A aliança política de Boric e Bachelet se materializou na formação do gabinete presidencial, dentro do qual se formou um seleto Comitê Político para acompanhar os objetivos do programa “contemporâneo” da jovem guarda identitária, que inclui o grupo inseparável de Boric: Camila Vallejo, secretária de Comunicação da Presidência; Giorgio Jackson, secretário-geral da Presidência; e Antonia Orellana, ministra da Mulher. A este gabinete pessoal juntaram-se duas indicações de Bachelet, Izquia Siches, ministra do Interior e da Segurança Pública, e Mario Marcel, ministro da Fazenda, ex-presidente do Banco Central do governo anterior, colocado ali para cuidar dos objetivos macroeconômicos. Outra indicação de Bachelet para o gabinete feminista são as ministras das Relações Exteriores, Antonia Urrejola, e da Defesa, Maya Fernández Allende, neta do ex-presidente Salvador Allende.
Terror “autonomista” na Patagônia
Em fevereiro, a Assembléia Constituinte aprovou por maioria a modificação do caráter do Estado chileno, anteriormente definido como um Estado unitário, para se tornar um “Estado regional, plurinacional e intercultural, composto por entidades territoriais autônomas”. Embora a nova Constituição precisará ser endossada por toda a população, a possibilidade da mudança estabelecida tem o efeito de aumentar o espírito do “etnonacionalismo” promovido por uma série de comunidades indígenas, principalmente mapuches, movimento amplamente apoiado pelo aparato ambientalista-indigenista internacional, financiado por fundações, entidades privadas e governos poderosos na Europa (principalmente, o Reino Unido) e nos Estados Unidos.
Originalmente, os ideólogos do “etnonacionalismo” mapuche tiveram tempo e recursos para elaborar suas teses, na Europa da década de 1980, chegando mesmo a elaborar um estatuto de autonomia apoiado pela seção indigenista do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Em Bristol, Inglaterra, chegaram a criaram uma ONG chamada Mapuche Nation (um aprofundamento no assunto encontra-se no livro Máfia Verde: o ambientalismo a serviço do Governo Mundial, de Lorenzo Carrasco, Silvia Palacios e Geraldo Luís Lino, publicado pela Capax Dei Editora).
A Patagônia chilena e argentina se converteu em uma área de grande importância para grupos externos que buscam o controle dos seus ricos recursos naturais. Que clima melhor para impor o “etnonacionalismo” que uma região em constante instabilidade, devido às ações de grupos abertamente terroristas cujo objetivo é a autonomia territorial, como é o caso dos mapuches?
A entidade à frente do terror “autonomista” nas províncias chilenas de Araucanía e Bio Bio é a Coordenadora Arauco Malleco (CAM), criada em 1989 e promotora de ações abertamente beligerantes perpetradas por células denominadas “Órgãos de Resistência Territorial”. Desde 2015, a CAM entrou em uma fase de ações violentas vinculadas a grupos narcoterroristas.
Assim que Boric assumiu a Presidência, a CAM divulgou um comunicado reiterando a continuidade das ações terroristas, afirmando que “o povo mapuche tem o seu próprio sistema político-militar desde antes da formação do Estado chileno”. Por isso, continuará lutando “pela reconstrução nacional Mapuche sem mudanças”.
Em uma pífia tentativa de ocultar os seus vínculos com o narcotráfico, o comunicado da CAM afirma que esse discurso “inscreve-se em uma estratégia de contrainsurgência que entra no cenário político atual mediante a instalação de uma narrativa narcoterrorista, destinada a encurralar e desprestigiar em termos políticos, econômicos e midiáticos as nossas expressões de luta revolucionária”. Neste ponto, seus autores admitem a ocorrência de eventos efetivamente ligados ao tráfico de drogas e a roubos de madeira, dos quais se desvinculam: “Certos desvios que ocorreram dentro do movimento mapuche em geral, e que se mostraram ser funcionais ao poder de dominação, como o narcotráfico, as máfias ligadas à extração de madeira e o paramilitarismo (Infobae, 29/12/2021).”
Em 2021, a violência se intensificou, sempre justificada pela premissa de que a terra é propriedade ancestral das comunidades mapuches. Assim, recorrem ao terror para expulsar pequenos e médios agricultores que habitam a região há mais de um século. As ações criminosas atingiram extremos incontroláveis, razão pela qual, em prol da pacificação, as Forças Armadas intervieram na região, declarando um estado de emergência, renovado no início deste ano. Quase de imediato, já como presidente eleito, Boric declarou que retiraria as tropas do Exército mobilizadas na região. Vale ressaltar que ele ficou em segundo lugar no primeiro turno das eleições presidenciais, devido à escassa votação que obteve na região.
Todavia, assim que Boric assumiu o governo, a realidade interrompeu a prática multicultural que, em seu ativismo de rua, levou a ministra do Interior Izquia Siches à região, em um afã pacificador. Na ocasião, porém, sua comitiva não conseguiu sequer chegar ao seu destino, tendo sido alvo de tiros.
O problema do “etnonacionalismo” se agrava pelo fato de Boric estar cercado pelo círculo de intelectuais que elaboraram, justificaram e promoveram as demandas de autonomia dos mapuches, na década de 1980. Seu chefe de gabinete, Matías Meza-Lopehandia, que colaborou na elaboração do programa de governo, tem um mestrado em Direitos Humanos na London School of Economics (LSE), com uma dissertação intitulada “Território e autonomia dos povos indígenas no Chile”, além de ser autor do livro “Os povos indígenas e o Direito”.
Como se vê, o governo de Boric ambiciona “cancelar” a história do Chile e criar uma versão local da iniciativa do “Grande Reset”, cumprindo assim as regras de entrada na falida comunidade internacional. De fato, ele pode até tentar, mas certamente abrirá um novo capítulo de grande instabilidade no país andino.

Español
Msia Informa
