Protótipo do submarino nuclear ficará pronto em 3 anos

Em meio à tsunami de notícias desalentadoras que tem marcado o cenário nacional, é das mais bem-vindas a informação vinda da Marinha do Brasil (MB) sobre o avanço do projeto do submarino nuclear, cujo protótipo “terrestre” deverá estar concluído em 2021. Uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo (17/05/2018) dá detalhes sobre o desenvolvimento do projeto.

O jornalista José Maria Tomazela foi um dos profissionais de imprensa convidados pela MB para a apresentação das obras do prédio onde o modelo em tamanho natural do submarino está sendo montado, no Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (Labgene) do Centro Tecnológico da Marinha (CTM), em Iperó (SP). O anfitrião foi o diretor do Centro, contra-almirante André Luis Ferreira Marques.

Segundo ele, a MB já investiu 2,5 bilhões de dólares no desenvolvimento das tecnologias empregadas no projeto do submarino nuclear, nas últimas quatro décadas, e mais R$ 2,2 bilhões serão investidos até dezembro de 2021, quando o modelo de testes, já equipado com o reator nuclear, deverá entrar em funcionamento. A prática de montar e testar “em terra” todos os componentes da belonave é habitual em projetos do gênero. A MB prevê o lançamento ao mar do submarino entre 2028 e 2030.

O prédio do Labgene tem paredes com 33 metros de altura e já abriga parte do casco do submarino, um cilindro de aço com 10 metros de diâmetro e cujo comprimento final será de 70 metros. O modelo “terrestre” será similar ao que será lançado ao mar. A base para o motor elétrico de propulsão (7,4 megawatts) também está pronta e o equipamento já está em testes.

Todos os componentes do reator nuclear já foram testados separadamente e o início da montagem está previsto ainda para este ano. “É similar ao que vai equipar o submarino e será testado aqui antes”, diz Marques.

 

Instalações do Labgene, onde está sendo montado o protótipo do SN-BR (Agência Estado)

De acordo com Marques, o desenvolvimento do projeto tem sofrido o impacto da crise econômica, mas a escassez orçamentária vem de longe. Entre 1997 e 2007, o projeto sofreu um forte contingenciamento financeiro, obrigando a uma redução à metade do número de profissionais nele engajados. Em 2017, os desdobramentos da Operação Lava Jato levaram à insolvência várias empresas fornecedoras de equipamentos e insumos, além do golpe político representado pela prisão do vice-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, um dos idealizadores do projeto e então presidente da Eletronuclear, por denúncias de corrupção.

“O TCU (Tribunal de Contas da União) acompanha o projeto desde o início e nunca tivemos problema desse tipo aqui. Quando vimos algo errado, abrimos sindicância e até inquérito militar, mas não deixamos avançar”, disse Marques.

A Odebrecht, uma das principais empresas investigadas pela Lava Jato, é sócia da MB e da estatal francesa DCNS na empresa Itaguaí Construções Navais (ICN), encarregada da construção e manutenção do estaleiro onde serão construídos o submarino nuclear (SN-BR) e os quatro submarinos convencionais classe Riachuelo (S-BR, classe Scorpène francesa) integrantes do acordo assinado com a França em 2008, o primeiro dos quais deverá ser lançado ao mar ainda este ano (Alerta Científico e Ambiental, 12/04/2018).

Perfis comparativos dos submarinos convencionais (S-BR) e nucleares (SN-BR) em construção pela MB.

Aparentemente, porém, os gestores do PROSUB, sigla do Programa de Desenvolvimento de Submarinos da MB, conseguiram evitar que os abalos sofridos pela megaempreiteira tivessem impacto significativo no programa.

Tomazela observa que a conclusão do modelo do submarino equipado com o reator nuclear projetado e construído no CTM marcará o segundo grande avanço do programa nuclear da Marinha, após o domínio da tecnologia de enriquecimento de urânio, oficialmente anunciada em 1988. Os 30 anos da inauguração da usina de enriquecimento de urânio no CTM serão lembrados no próximo dia 8 de junho, com a presença do presidente Michel Temer e seu colega argentino Mauricio Macri, lembrando o ato simbólico de três décadas atrás, quando o então presidente José Sarney convidou Raúl Alfonsín para participar do evento, como forma de afastar as desconfianças mútuas dos dois países na área nuclear.

Objetivo do programa nuclear é gerar conhecimento

Em uma análise que acompanha a reportagem, o jornalista Roberto Godoy, especialista em assuntos estratégicos e militares, faz uma interessante avaliação sobre o programa nuclear da MB, que considera muito bem-sucedido e cujos trechos principais reproduzimos a seguir:

“A rigor, acumula conhecimento sensível suficiente para dar ao País a capacidade de produzir armas nucleares – das quais o Estado brasileiro abdicou na Constituição de 1988 por meio de uma cláusula pétrea (artigo 21, inciso XXIII) – em tempo relativamente curto, coisa de um ou dois anos a contar de um eventual sinal verde.

“As tecnologias que o Brasil adota permitiram o controle de todo o complexo ciclo do enriquecimento de urânio, uma forma de separar partículas atômicas usando máquinas de ultracentrifugação avançadas, criadas por especialistas da Marinha.
“A meta do programa, além de suprir a demanda dos futuros submarinos de propulsão nuclear da frota naval, é expandir a investigação científica independente nesse campo, facilitando o fornecimento de isótopos para uso em medicina e a construção das ultracentrífugas empregadas na produção de combustível para os reatores das usinas geradoras de energia.

“O projeto, talvez, seja a única iniciativa do gênero no mundo operada por uma organização militar que é submetida às inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), de Viena, e da Comissão Nacional de Energia Atômica (CNEN), ambas entidades civis.”

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