“Primavera silenciosa” e o alarmismo ambiental

No final de setembro, completou-se meio século do lançamento do livro Primavera silenciosa (Silent Spring), de Rachel Carson, hoje celebrado como uma das principais influências para a emergência da consciência ambientalista. Inicialmente, uma série de artigos publicados na revista The New Yorker, o texto foi lançado como livro pela editora Houghton Mifflin, em setembro de 1962, e se tornou rapidamente um best-seller nacional e internacional, tendo sido traduzido em 17 idiomas, inclusive o português (há uma edição de 1964, da Melhoramentos, e uma da Gaia Editora, de 2010).

O tema central do livro era um ataque aos excessos no uso dos pesticidas, que, devido ao seu acúmulo no meio ambiente e à sua toxicidade, estariam provocando fortes impactos nos ecossistemas, causando as mortes de todo tipo de animais, especialmente, aves, e gerando, inclusive, casos de câncer nos seres humanos. Para sustentar sua tese, Carson recorreu a uma série de dados que demonstrariam, por exemplo, que, nos EUA, a proporção das mortes por câncer em relação às demais doenças havia subido de 4%, em 1900, para 15%, em 1958. Outra afirmativa marcante foi a de que as populações de várias espécies de aves estariam diminuindo drasticamente, entre elas o tordo americano (robin), uma das mais comuns no país. Tudo isto era atribuído ao uso dos pesticidas, principalmente, o DDT.

Escrito em um estilo de grande apelo emocional, a começar pelo próprio título, que sugeria a ausência do canto dos pássaros, o livro teve a sua mensagem reforçada pelo impacto da morte prematura da autora, abatida por um câncer de mama, em abril de 1964, aos 56 anos.

Em 1992, no prefácio de uma nova edição do livro, Al Gore, então vice-presidente dos EUA e já um dos líderes da militância ambientalista internacional, escreveu: “Primavera silenciosa teve um profundo impacto… De fato, Rachel Carson foi uma das razões pelas quais eu me tornei tão consciente do meio ambiente e tão envolvido nos assuntos ambientais.”

Dez anos depois, o historiador Gary Kroll fez uma observação bastante pertinente: “A Primavera silenciosa de Rachel Carson teve um grande papel em articular a Ecologia como um ‘assunto subversivo’ – como uma perspectiva que vai contra o materialismo, o cientificismo e o controle tecnologicamente planejado da natureza.”

De fato, o livro foi o pioneiro da literatura de tom alarmista e catastrofista que apoia o movimento ambientalista, tendo lançado o estilo que se consolidaria como marca registrada dessa variante: um forte apelo emocional e ilações baseadas em dados estritamente selecionados para demonstrar os argumentos citados, descartando-se os que os contrariassem. A própria autora era uma consagrada escritora de livros de divulgação científica, atividade à qual passara a se dedicar em tempo integral na década anterior, depois de anos trabalhando no Escritório de Recursos Pesqueiros dos EUA (U.S. Bureau of Fisheries). Desafortunadamente, em Primavera silenciosa, a sua destreza literária se mostrou ser inversamente proporcional ao seu rigor científico.

Entre as muitas incorreções apontadas no livro por numerosos especialistas (que pouco prejudicaram a sua influência), destaca-se o fato de que Carson ignorou as contagens de pássaros da National Audubon Society, uma das primeiras ONGs ambientalistas dos EUA, da qual ela própria era membro, que demonstravam aumentos das populações de algumas espécies citadas por ela no livro. O citado enfraquecimento das cascas dos ovos, também, não foi constatado em pesquisas rigorosamente controladas. Quanto às taxas relativas de ocorrência de câncer, exageradas por ela, se deviam, em grande medida, ao fato de que estavam diminuindo as taxas de mortalidade referentes às outras doenças, na medida em que melhoravam os indicadores de bem-estar da sociedade estadunidense, na esteira do dinamismo do pós-guerra.

Em um artigo publicado na edição de outubro da revista eletrônica Reason Online, o economista Ronald Bailey, um veterano opositor do catastrofismo ambientalista, sintetizou a influência do livro: “Em Primavera silenciosa, Carson elaborou uma denúncia apaixonada das tecnologias modernas, que move hoje a ideologia ambientalista. No cerne desta crença, está a sugestão de que a natureza é benévola, estável e, até mesmo, uma fonte de bem moral; a Humanidade é arrogante, negligente e, frequentemente, a fonte do mal moral. Mais que qualquer outra pessoa, Rachel Carson é responsável pela ciência politizada que, hoje, prejudica os nossos debates políticos.”

A “Guerra do DDT”

Na esteira da celeuma provocada pelo livro de Carson, o nascente movimento ambientalista estadunidense transformou a campanha contra o DDT no veículo perfeito para o seu crescimento e consolidação. Em 1967, com financiamento de diversas fundações ligadas ao Establishment, foi criada a ONG Environmental Defense Fund (EDF), especificamente para coordenar a campanha anti-DDT, que já contava com a participação ativa de ONGs como a National Audubon Society e o Sierra Club. Em 1970, as pressões levaram o Departamento de Agricultura a limitar o uso agrícola do DDT a alguns poucos cultivos, como o algodão. Nos demais, o DDT foi substituído por pesticidas mais caros e, ironicamente, mais tóxicos, como o dieldrin e o parathion.

Um dos fundadores do EDF (cuja palavra de ordem era “Processem os bastardos!”) foi o biólogo George Woodwell, que, mais tarde, utilizaria a experiência acumulada na campanha contra o DDT em outras campanhas emblemáticas do movimento ambientalista: o banimento dos clorofluorcarbonos (CFCs), que resultou na implementação do Protocolo de Montreal, em 1988, a criação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e o estabelecimento do Protocolo de Kyoto, alegadamente, para enfrentar a inexistente ameaça do aquecimento global antropogênico. Em 1985, Woodwell fundou a ONG Woods Hole Research Center, cuja filial brasileira, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), é uma das ONGs mais engajadas em campanhas contra o desenvolvimento econômico da Região Amazônica.

Não satisfeitas com as restrições já obtidas, as ONGs continuaram a pregar o banimento total do DDT. Em 1971, as pressões levaram a Agência de Proteção Ambiental (EPA) a estabelecer uma comissão para avaliar o assunto. Durante sete meses, a comissão ouviu 150 entre os maiores especialistas em Toxicologia e Entomologia dos EUA, cujos depoimentos levaram o relator da comissão, Edmund Sweeney, às seguintes conclusões sobre o DDT:

1) apresenta toxicidade extremamente baixa para o homem;

2) se usado adequadamente, não constitui risco para a saúde humana;

3) não provoca câncer, mutações ou deformações no homem;

4) usado corretamente, não produz efeitos deletérios sobre a fauna silvestre;

5) deve continuar sendo usado em usos essenciais, na agricultura e saúde pública.

Surpreendentemente, o diretor da EPA, William Ruckelshaus, contrariou a comissão e determinou o banimento de todos os usos remanescentes do DDT nos EUA, exceto para alguns casos excepcionais relacionados à saúde pública. Mais tarde, Ruckelshaus admitiria que sua decisão havia sido eminentemente “política”, sem dar mais detalhes.

Vale registrar que, após deixar o cargo, Ruckelshaus deu continuidade a uma longa trajetória no movimento ambientalista, atuando na interface entre as grandes empresas que o patrocinam, as ONGs ambientalistas e o aparato institucional nacional e internacional. Entre as posições ocupadas, atuou na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas, no World Resources Institute, nas empresas Weyerhausen, Monsanto e várias outras.

A decisão da EPA fez com que a maioria dos países desenvolvidos e vários países em desenvolvimento levantassem obstáculos semelhantes ao DDT, radicalizando uma tendência que já se manifestava desde a publicação de Primavera silenciosa. Em vários deles, a retirada do DDT provocou aumentos imediatos nas ocorrências de doenças que já haviam sido colocadas sob controle, como a malária.

Como afirmou o diretor da EPA, a motivação para o banimento do DDT foi “política” – a política malthusiana das oligarquias anglo-americanas. O falecido Dr. J. Gordon Edwards, renomado entomologista da Universidade Estadual de San José, na Califórnia, sugeria que o DDT fora discriminado pelo seu importante papel na aceleração do crescimento demográfico, por ter sido um dos maiores fatores isolados responsáveis pela acentuada redução dos índices de mortalidade nos países em desenvolvimento, a partir de meados do século XX. Um relatório de 1970 da Academia Nacional de Ciências dos EUA enfatiza que, em pouco mais de duas décadas, o DDT ajudou a evitar 500 milhões de mortes que, de outra forma, seriam inevitáveis.

Uma admissão explícita de tais suspeitas foi feita em 1990 pelo Dr. Alexander King, um dos fundadores do templo do malthusianismo por excelência, o Clube de Roma. Em entrevista publicada no livro The Discipline of Curiosity: Science in the World (A disciplina da curiosidade: a ciência no mundo), o Dr. King mencionou a sua própria experiência com o DDT, em operações militares na então Guiana Inglesa, na II Guerra Mundial, fazendo a seguinte ressalva:

Minhas dúvidas surgiram quando o DDT foi introduzido no uso civil. Na Guiana, em dois anos, ele quase eliminou a malária, mas, ao mesmo tempo, a taxa de nascimentos tinha duplicado. Assim, em retrospecto,o meu principal questionamento contra o DDT é que ele complicou bastante o problema populacional(grifos nossos).

Em seu livro Environmental Overkill (Excessos ambientais), de 1993, a célebre bióloga estadunidense Dixy Lee Ray, que foi uma incansável lutadora contra o irracionalismo ambientalista, bate na mesma tecla:

Se dermos crédito às declarações de algumas pessoas, inclusive vários biólogos bem conhecidos, esse era exatamente o problema com o DDT: ele salvava vidas humanas. Por exemplo, em resposta à pergunta de um repórter sobre o banimento do DDT, o Dr. Charles Wurster, que era então o cientista-chefe do Environmental Defense Fund, afirmou que, em sua opinião, existia muita gente e que “essa era uma maneira tão boa de se livrar delas como qualquer outra”.

Em uma entrevista coletiva em Washington, EUA, em maio de 1992, um grupo de cientistas veteranos da “guerra do DDT” lembrou as consequências da ação “política” da EPA. Na ocasião, o Dr. Edward G. Remmers, do Conselho Americano de Ciência e Saúde, afirmou que entre um e dois milhões de pessoas morriam anualmente em consequência de doenças que seriam facilmente controladas com o DDT.

Duas décadas depois, tais conclusões continuam válidas.

2 comments

  1. Parabéns pela qualidade das informações. Infelizmente a malária e a dengue com nossos políticos, imprensa e cientistas cooptados vão prevalecer. O $$$ prevalece sobre as consciências.

    Saudações

  2. O texto, escrito por um reconhecido opositor do ambientalismo, critica a falta de rigor da Carson, mas não usa de rigor em suas ilações, como que o DDT salvou vidas e etc., numa contabilidade rasa que claramente exclui fatores e consequências que não interessam ao seu “argumento”. Expressões como “um dos maiores fatores isolados…” ou dizer que algum fulano falecido “sugeria” alguma coisa de nada valem para esclarecer. São tão panfletárias quando está dizendo que é o Primavera Silenciosa, porém o texto da Carson é declaradamente uma tomada de posição, escrito de forma não-científica, mas elegantemente literária.

x

Check Also

A “retomada verde” da OTAN

Por Lorenzo Carrasco e Geraldo Luís Lino Desde a implosão da União Soviética e do ...