Por que "The Economist" quer a cabeça de Mantega?

Muita gente se surpreendeu com o insólito ataque da revista The Economist à política econômica brasileira e, em particular, ao ministro da Fazenda Guido Mantega, chegando a sugerir a sua demissão à presidente Dilma Rousseff. De fato, mesmo sabendo-se que o vetusto semanário britânico é um dos principais porta-bandeiras da alta finança globalizada, não é comum que suas páginas abriguem semelhantes ataques ad hominem a funcionários governamentais estrangeiros. Por isso, vale a pena indagar-nos sobre os seus motivos para a investida contra o ministro e a política que representa.

Publicado na edição de 7 de dezembro, com o título “Um colapso da confiança (na edição digital, o título é outro)”, o texto é ostensivamente direcionado contra Mantega desde o primeiro parágrafo, acusando-o de “prognosticar que a economia [brasileira] está no limiar de um crescimento vigoroso que parece não vir nunca”. Obviamente, Mantega é apenas o alvo secundário: o objetivo principal é enquadrar a política econômica brasileira nos moldes desejados pela alta finança, diante das manifestações de dirigismo moderado postas em prática pelo ministro e sua chefe, para fazer frente à crise global. Como o momento político é favorável a investidas contra o governo, devido à sucessão de denúncias envolvendo a gestão e as relações pessoais do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o instinto de bucaneiros dos editores da revista britânica não os deixou desperdiçar a oportunidade.

Fiel à tradição da revista, que se considera a portadora onisciente e infalível da revelação universal sobre as práticas econômicas (a sua missão declarada é participar de “uma severa contenda entre a inteligência, que pressiona para adiante, e uma ignorância tímida e ignóbil, que obstrui o nosso progresso”), a nota não assinada critica as recentes medidas intervencionistas do governo, forçando a redução dos juros bancários e das tarifas elétricas. E transmite um “recado” direto: “A preocupação é que a própria presidente é a ‘interventora-chefe’. Mas ela insiste que é pragmática. Se for, ela deveria demitir o sr. Mantega, cujas previsões sempre otimistas causaram a perda da confiança dos investidores, e nomear uma nova equipe capaz de reconquistar a confiança nos negócios.”

Aí está, sintetizada, a intenção da nota: recuperar a “confiança dos investidores e dos negócios” – como se uma nação não fosse constituída sobre um leque social bem mais amplo, e como se investidores e empreendedores produtivos e com visão de longo prazo possam ser equiparados aos jogadores que transformaram as finanças globais num colossal cassino especulativo.

De forma significativa, o texto sugere que Dilma deveria dar-lhe ouvidos, se não quiser que o desempenho fraco da economia se torne o seu calcanhar-de-aquiles nas eleições presidenciais de 2014. E, capciosamente, indica que dois de seus potenciais rivais estão seguindo o caminho certo: “Eduardo Campos, governador de Pernambuco… tem soado como estadista, ao falar sobre a importância de não afugentar potenciais investidores… Aécio Neves, senador e ex-governador de Minas Gerais, o terceiro estado mais rico do Brasil… falou no Senado sobre a ‘imprudência e a tolice’ das ações do governo no setor de eletricidade. (…)”

Embora as medidas tomadas pelo governo brasileiro para proteger o País dos efeitos da crise sejam bastante tímidas e estejam distantes do que será necessário para se fazer frente ao visível aprofundamento da mesma, isto é mais que suficiente para contrariar a alta finança, que se manifesta nas páginas da revista britânica. Curiosamente, como observou o jornalista Clóvis Rossi, em seu blog na Folha de S. Paulo (7/12/2012), “a própria ‘Economist’ botou na capa, faz relativamente pouco tempo, um foguete chamado Brasil, que disparava para o infinito, embora o comando fosse do mesmíssimo Mantega, agora descartável”.

Com isso, a oligarquia financeira parece estar mirando em dois alvos. Um é a possibilidade real de que, com um agravamento da crise, Dilma e seu escudeiro econômico possam aproveitar a oportunidade política para ampliar o “abominável” dirigismo, na condução de uma política econômica mais condizente com os interesses maiores da sociedade brasileira, em detrimento do apetite insaciável dos “investidores e negócios” sediados na City de Londres.

O outro, sinalizado pelas menções aos possíveis rivais de Dilma em 2014, é a predileção por um retorno à liberalização prevalecente no governo de Fernando Henrique Cardoso, que chegou ao ponto de converter um instrumento de crédito público fundamental, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em banco de investimento.

Assim sendo, só se pode concluir que a presidente brasileira fez muito bem em rechaçar publicamente a petulância dos porta-vozes da City.

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