Por detrás do fenômeno Greta

Se ainda havia dúvidas sobre a manipulação de Greta Thunberg para promovê-la como a líder de uma cruzada infanto-juvenil mundial pela adoção de políticas climáticas que nada têm a ver com o mundo real, o seu desempenho na Cúpula de Ação Climática das Nações Unidas, em Nova York, em 23 de setembro, as dissiparam totalmente.

Uma das estrelas do evento, a adolescente sueca de 16 anos fez um curto discurso que pretendia ser emocional, mas passou do ponto ao abusar do tom acusatório e raivoso contra os adultos que construíram a presente civilização e, posteriormente, ao emprestar o seu nome para uma petição preparada por uma ONG estadunidense com acusações formais contra cinco países que não estariam cumprindo as metas de combate às mudanças climáticas. O resultado foi um efeito contrário, atraindo críticas pelo radicalismo da sua pregação, inclusive de aliados e simpatizantes, como o presidente francês Emmanuel Macron, e expondo a estrutura de interesses responsável pela sua ascensão meteórica ao estrelato global.

Com o semblante crispado e fazendo um aparente esforço para evitar as lágrimas, resultado, talvez, de uma combinação dos efeitos da Síndrome de Asperger de que é portadora com técnicas cênicas aprendidas com o pai, o ator Svante Thunberg (atualmente dedicado a gerenciar a sua “carreira” de ícone climático), Greta desfechou um dos mais virulentos ataques intergeracionais já visto em um palco global:

A minha mensagem é que nós estaremos vigiando vocês.

Isso está tudo errado. Eu não deveria estar aqui. Eu deveria estar na escola, no outro lado do oceano. Mas todos vocês vêm até nós, jovens, por esperança. Como se atrevem?

Vocês roubaram os meus sonhos e a minha infância com as suas palavras vazias, e eu sou uma entre os que têm sorte. As pessoas estão sofrendo. As pessoas estão morrendo. Ecossistemas inteiros estão em colapso. Nós estamos no começo de uma extinção em massa e tudo que vocês falam é sobre dinheiro e contos de fadas de crescimento econômico eterno. Como se atrevem?

Ao final, ameaçou, trovejante:

Vocês estão falhando conosco, mas os jovens estão começando a entender a sua traição. Os olhos de todas as gerações futuras estão sobre vocês e, se vocês nos falharem, eu digo: nós nunca os perdoaremos. Nós não deixaremos vocês escaparem com isso. Aqui mesmo, agora mesmo, é onde traçamos a linha. O mundo está acordando e a mudança está vindo, queiram vocês ou não.

Após a performance, a jovem cruzada se juntou a outros 15 fieis escudeiros com idades entre oito e 17 anos (entre eles uma brasileira) e dirigiu-se ao Comitê dos Direitos da Criança das Nações Unidas, para formalizar a entrega de uma bizarra petição de 439 páginas com queixas contra cinco países: Argentina, Brasil, França, Alemanha e Turquia. Acusação:

Cada demandado falhou em cumprir as suas obrigações, nos termos da Convenção [dos Direitos da Criança], para (i) evitar violações previsíveis de direitos humanos domésticos e extraterritoriais resultantes das mudanças climáticas; (ii) cooperar internacionalmente, em face da emergência climática global; (iii) aplicar o princípio da precaução para proteger a vida em face das incertezas, e (iv) assegurar justiça intergeracional para as crianças e a posteridade. (…)

Nenhum dos demandados está em um caminho de emissões que seja consistente com manter o aquecimento abaixo de 3oC, muito menos 1,5oC. Cada demandado estabeleceu metas de redução de emissões inadequadas para os seus compromissos com o Acordo de Paris – e, em seguida, falhou até mesmo em atingir essas metas inadequadas. Por exemplo, se todos os governos do mundo implementassem reduções comparáveis aos compromissos de Paris da Argentina, isto levaria a um aquecimento global de 3-4oC em 2100. Reduções comparáveis às emissões do Brasil levariam a 2-3oC, antes da reversão feita pelo presidente Bolsonaro nas proteções ambientais, que, provavelmente, tornarão ainda maior a contribuição do Brasil. Emissões comparáveis para a França e a Alemanha – em várias maneiras, líderes na ação climática internacional – levaria a 3-4oC. Em paralelo, emissões comparáveis à taxa de emissões da Turquia levaria a mais de 4oC de aquecimento, se continuar a investir em novas usinas termelétricas a carvão.

Por essas e outras transgressões, afirma o documento, “cada um dos demandados violou os direitos dos requerentes, nos termos do Artigo 3, de ter os melhores interesses das crianças como considerações primárias em suas ações e omissões climáticas” (Earthjustice, 23/09/2019).

Os jovens cruzados não pedem qualquer compensação financeira, mas requerem que os países demandados ajustem imediatamente as suas metas e agendas com outras nações, para fazer frente à suposta crise climática.

Um detalhe curioso do documento é que os dois maiores emissores de carbono do planeta, a China e os EUA, não entraram nas considerações dos cruzados “verdes”, pelo simples fato de não terem ratificado a parte da Convenção dos Direitos da Criança que permite tal tipo de ação judicial (além dos demandados, apenas outros 39 países o fizeram).

O cartapácio – do qual, provavelmente, os signatários não leram além da introdução, se é que leram algo – foi preparado pela ONG estadunidense Earthjustice, especializada em ações judiciais com motivações ambientais. Fundada em 1971, como um apêndice jurídico do Sierra Club (uma das ONGs ambientais mais antigas do mundo, fundada em 1892), recebeu o nome atual em 1993 e tem sede em San Francisco, Califórnia, com escritórios em Washington e outras 14 cidades do país. Tem cerca de 300 funcionários, dos quais 130 são advogados, e seu orçamento em 2017 foi de 94 milhões de dólares.

Os exageros de Greta e seus escudeiros provocaram reações. Na Alemanha, o ministro da Cooperação e Desenvolvimento Econômico, Gerd Müller (que esteve no Brasil em agosto, para discutir o apoio a programas ambientais), observou, causticamente, que “a proteção climática não começa com Greta Thunberg (RT, 23/09/2019)”.

Na França, o ministro da Educação, Jean-Michel Blanquer, disse em uma entrevista que não sabia se Greta estava sendo manipulada, mas que ela deveria parar com os discursos pessimistas. “Não se deveria criar uma geração de pessoas deprimidas em relação ao tema das mudanças climáticas”, afirmou, instando Greta a usar o seu tempo na busca de soluções construtivas (RT, 24/09/2019).

Até mesmo o presidente Emmanuel Macron, que em maio último recebeu Greta no Palácio do Eliseu, protestou contra a histeria da adolescente. “Nós podemos ver aqui uma posição muito radical, do tipo que antagoniza as nossas sociedades”, disse ele, em uma entrevista à rádio Europe 1 (RT, 24/09/2019).

Entretanto, mesmo antes da sua performance novaiorquina, os interesses por detrás do fenômeno Greta já haviam começado a ser expostos na mídia, inclusive neste sítio (ver “A Cruzada das Crianças Verdes”).

Em 18 de agosto, o jornal britânico The Sunday Times publicou uma demolidora reportagem do jornalista Justin Rowlatt, especializado em temas ambientais e energéticos, intitulada “Greta Thunberg e a trama para forjar uma guerreira climática”, rotulando como uma “cabala sombria” os grupos que a controlam.

Nas palavras de Rowlatt:

(…) O fenômeno protagonizado por Greta também envolve o lobby da energia verde, profissionais da publicidade e de relações públicas, determinadas elites do movimento ambientalista e o think-tank de um ex-ministro social-democrata sueco, financiados por algumas das principais empresas energéticas do país. (…) As empresas que apoiam essa campanha estão esfregando as mãos diante da bonança de contratos públicos que podem abrir-se de mãos dadas com as políticas verdes defendidas por Thunberg perante os governos do Ocidente. Seja ou não consciente disto, essa menina é a ponta-de-lança de uma estratégia de pressão que busca gerar receitas empresariais concretas.

Outra reportagem relevante foi publicada no jornal espanhol El Mundo, em 2 de setembro, com o título “A dupla face de Greta, a ‘menina verde’”. A matéria, que começa ironizando o fato de a adolescente ter viajado aos EUA em um veleiro high-tech da família real de Mônaco, para não deixar “pegadas de carbono”, propõe, em troca, seguir a “pista do dinheiro” por detrás dela, que leva a “um complexo entranhado de multinacionais ecológicas liderado pelo magnata sueco Ingmar Rentzhog”. Agora, diz o texto, “muitos se perguntam se a jovem ativista tem sido utilizada como marionete pelos lobbies e empresas que financiam a sua rebelião contra as mudanças climáticas”.

Pelo menos uma coisa certa Greta disse na cúpula: definitivamente, ela não deveria estar ali, mas na escola, beneficiando-se de um dos melhores sistemas educacionais da Europa e desfrutando das prerrogativas da juventude junto com seus colegas e amigos de mesma idade, em vez de estar sendo levada pelo cabresto de um país a outro, para fazer pregações quase fundamentalistas sobre assuntos que ignora totalmente. E, se alguém merece uma denúncia junto ao Comitê dos Direitos da Criança das Nações Unidas, são seus pais, que atiraram nesse caldeirão de interesses escusos uma jovem que visivelmente precisa de atenções especiais, além dos financiadores da “cruzada verde infanto-juvenil”.

 

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