“Plano Levy”: tão longe do Plano Marshall e tão perto de Versalhes

George-Marshall

Na sexta-feira 8 de maio, a Folha de S. Paulo publicou um intrigante artigo assinado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. O texto, intitulado “O exemplo do general Marshall”, é uma sucessão de elogios à capacidade organizativa do general George Cattlet Marshall (1880-1959), que foi chefe do Estado-Maior do Exército dos EUA durante a II Guerra Mundial e, após o conflito, serviu como secretário de Estado e da Defesa no governo de Harry Truman (1945-1953). Durante o conflito, foi um dos principais modernizadores da estrutura do U.S. Army e, no Departamento de Estado, entre 1947 e 1949, foi o artífice do plano de ajuda econômica que ficou conhecido pelo seu nome e deu um importante impulso à reconstrução da Europa.

Ao final da inusitada leitura, a intenção do autor não fica muito clara; uma hipótese é a de que ele pretendesse aproveitar a oportunidade das celebrações pelos 70 anos do final da II Guerra Mundial para enviar um recado aos críticos da sua draconiana política de rigor fiscal, que está levando rapidamente o País a uma forte recessão. O lide do texto permite esta interpretação: “O general Marshall escolheu oficiais que tinham capacidade de trabalhar em grupo, de responder sob pressão e de não culpar os outros pelas adversidades.”

Diz o ministro:

Planejamento, persistência, gestão de pessoas e alinhamento com os princípios da missão são elementos essenciais para o sucesso da maior parte das empreitadas. Um bom exemplo dessa combinação encontra-se na atuação de George Marshall, que liderou o Exército americano durante a Segunda Guerra Mundial, tendo sido indispensável para a sua vitória, especialmente no cenário europeu, alcançada 70 anos atrás. (…)

Como tantos, ele propugnava o desenvolvimento da Força Aérea, que era então primitiva e pequena. Mas, fiel ao seu feitio, quando foi proposto um plano de rapidamente se produzirem 10 mil aviões, ele foi contra, preferindo uma quantidade bem menor de unidades, mas acompanhada dos recursos para treinar pilotos e desenvolver o apoio logístico indispensável para a efetividade daquele investimento.

Essa atenção ao equilíbrio e o foco na organização industrial foram cruciais quando o Exército americano passou de menos de 200 mil soldados em 1939 para 4 milhões quatro anos depois. Para liderar esse vasto contingente em armas, Marshall valeu-se de alguns critérios para selecionar generais que havia alinhavado anos antes, preferindo aqueles que exibissem bom senso, conhecessem seu ofício, estivessem em boa forma física –demonstrando energia–, fossem otimistas (irradiando um espírito positivo) e cuja lealdade fosse acompanhada de determinação.

Essas características, sem nada de especial na aparência, em geral se traduziam na capacidade de trabalhar em grupo, responder sob pressão e não culpar os outros pela adversidade. (…)

Os princípios de gestão aí ilustrados se aplicam ao grande número de atividades humanas, e suas manifestações não escaparam aos mais argutos participantes da FEB (Força Expedicionária Brasileira), que combateu lado a lado com os Aliados, especialmente os americanos.

Levy conclui com a observação:

Ao se comemorar o fim da maior das guerras no território europeu e merecidamente homenagear os milhares de pracinhas que o Brasil mandou à Itália e que voltaram com tantas e variadas experiências, parece mais atual do que nunca o exemplo desse general que declinou as posições mais visíveis no seu Exército, para garantir o seu bom funcionamento e as grandes escolhas estratégicas que lhe trouxeram a vitória.

Ninguém pode contestar o papel determinante do general Marshall na reformulação das forças terrestres estatunidenses e seu componente aéreo (a Força Aérea apenas se tornou uma arma independente em 1947), apesar das acusações de que ele teria contribuído para o sucesso do ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, ao decidir sonegar ao comandante militar do Havaí informações de inteligência que sugeriam a iminência do ataque, que provocou a entrada dos EUA na guerra. Entretanto, é pelo Plano Marshall que ele é bem mais conhecido fora dos EUA, tendo sido, inclusive, o motivo da sua premiação com o Prêmio Nobel da Paz de 1953.

Como se sabe, o Programa de Recuperação Europeia, nome oficial do plano, foi implementado no período 1948-1952, injetando recursos da ordem de 17 bilhões de dólares (cerca de 120 bilhões em valores atuais), sob a forma de doações e empréstimos, tendo contribuído de forma decisiva para a reconstrução da economia europeia devastada pela guerra. Até hoje, a expressão “Plano Marshall” é utilizada como referência de iniciativa de ajuda bem sucedida (a despeito de ter sido, em boa medida, motivado pela intenção estadunidense de reduzir o apelo do comunismo na Europa).

No Brasil de hoje, o duro plano de ajuste encabeçado por Levy não guarda qualquer semelhança com algo do gênero. O Plano Marshall era um plano de reconstrução com uma luz de esperança ao final de um túnel de enormes sacrifícios. O “Plano Levy”, apesar das circunstâncias históricas bem diferentes, se assemelha mais em seus efeitos aos das brutais e humilhantes sanções econômicas impostas à Alemanha após a I Guerra Mundial pelo Tratado de Versalhes. Pelo tratado, o país se viu às voltas com uma impagável dívida de guerra, cujo serviço abriu caminho para a devastação socioeconômica e a hiperinflação da República de Weimar – e à ascensão do nazismo, que provocaria o seguinte conflito mundial.

Por aqui, a austeridade fiscal se afigura mais como uma medida para que a farra da dívida interna, que já chega a quase inacreditáveis R$ 3 trilhões, não ultrapasse a igualmente impressionante marca de 50% do orçamento federal, em juros e amortizações anuais. Tal fato, por suas sérias consequências diretas na vida do País, poderia ensejar uma forte pressão interna para uma repactuação da divida pública, à la Argentina, sob o risco de convulsões sociais que poderiam lembrar a da Alemanha de Weimar. Embora tenha estado do lado vencedor nas duas guerras mundiais, o Brasil tem pago ao rentismo um tributo equivalente ao de reparações de guerra.

Assim, se não pretendeu enviar um recado enviesado, é possível que o ministro tenha sido vítima de um lapso freudiano ao escrever.

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