Em toda parte, os efeitos da política de juros zero e negativos têm sido subestimados. Os rendimentos negativos dos títulos foram consequência direta das ações dos bancos centrais para apoiar os mercados financeiros durante e após a Grande Crise Financeira de 2008.
As taxas de juros foram reduzidas e se lançaram programas de estímulo, voltados sobretudo à compra de títulos, com importantes repercussões nos mercados de títulos de renda fixa. Mesmo parte da dívida corporativa, às vezes, até aquela classificada como “junk” (lixo), foi trocada com rendimentos negativos, apesar dos riscos maiores de inadimplência.
De fato, essa política tornou muito conveniente a contratação de dívidas novas, inclusive, por meio da chamada alavancagem financeira, que utiliza os ativos a serem adquiridos como garantia para a obtenção de créditos. E, igualmente, provocou um grande apetite pelos riscos, cada vez menos calculados com a devida prudência.
Uma consequência disso foi a inundação dos mercados com títulos, principalmente públicos e corporativos, com taxas de juros negativas. Em outras palavras, quem os comprou e ainda os compra sabe que não pode ganhar nada. Com efeito, ao final do ano, se verá com um capital inferior ao investido.
A Grande Crise Financeira parecia estar sob controle, mas a turbulência dos mercados após o surto da pandemia, levou os bancos centrais a reiniciar os seus programas de compra de ativos e o mercado de títulos com rendimento negativo está em alta desde abril de 2020.
Não é fácil dar um número preciso, mas, no final de setembro de 2021, a estimativa de títulos com juros negativos era de cerca de 15 trilhões de dólares, mais de um quinto de toda a dívida de governos e empresas em todo o mundo. Em 2019, um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) havia quantificou esse valor em cerca de US$ 16 trilhões.
De acordo com o Bloomberg Barclays Index, as recentes políticas de aperto da Reserva Federal estadunidense teriam ajudado a reduzir o estoque total de dívidas com rendimento negativo para US$ 10,7 trilhões, uma queda acentuada em relação ao pico de US$ 18 trilhões de dezembro de 2020.
Os economistas sempre divergiram bastante sobre essa questão sempre. Larry Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA, chama as taxas negativas de “economia do buraco negro”, enquanto Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard, recomendou aos bancos centrais que as tornassem a sua principal política. No meio, estava o ex-presidente do “Fed”, Ben Bernanke, que achava exagerada a ânsia por taxas de juros negativas.
Vários governos emitiram títulos com taxas negativas: Japão, Suíça, Grã-Bretanha e a maioria dos países da União Europeia, começando pela Alemanha e a França. Esta política envolveu a Itália e até a Grécia, que tem enfrentado muitas crises de dívida desde 2009, além da Polônia, República Checa, Bulgária e Romênia.
Os EUA não adotaram os juros zero, mas alguns títulos do Tesouro foram negociados com taxas negativas. Por outro lado, inúmeros títulos corporativos estadunidense com taxas negativas foram emitidos.
Os fundos de pensões e as seguradoras são obrigados a adquirir obrigações, mesmo com rendimentos negativos, para efeitos de gestão de risco ou para cobertura de responsabilidades de longo prazo. Esta é uma situação que não pode durar muito tempo. O risco é a suspensão dos negócios e falências. Ou resgates com dinheiro público podem ser necessários. Para esses fundos, os aumentos nos preços das matérias-primas, começando pelas energéticas, e as especulações relacionadas, têm sido como um “maná dos céus”. Pode-se dizer que eles brindaram com a chegada da inflação e o consequente aumento dos rendimentos dos títulos.
Os títulos de baixo rendimento também afetam os mercados de ações e levam a um aumento de preços que, em geral, pode levar a uma alternância de booms e colapsos frequentes, com uma inevitável instabilidade financeira. Em 2013, a previsão do “Fed” de reduzir a “flexibilização quantitativa” (injeções de liquidez) fez com que os rendimentos dos títulos do Tesouro subissem e os valores das ações caíssem. O que acontecerá com as próximas decisões do “Fed” para reduzir as compras de ativos?
Os juros baixíssimos têm incentivado algumas empresas a recomprar as suas ações com o dinheiro arrecadado com a contratação de novas dívidas. Ao reduzir o número de ações em circulação, o valor das ações no mercado também aumenta e, com ele, também as opções de ações e bônus para os altos executivos.
Os rendimentos negativos também alimentaram o “carry trade” nos mercados de câmbio, quando os investidores de um país com rendimento negativo são tentados a comprar títulos vendidos por um país com rendimentos mais altos, embora também mais instáveis. No entanto, isso os expõe a possíveis flutuações cambiais.
Depois do que foi dito, a entrada em jogo da inflação pode ter efeitos inesperados e disruptivos nos títulos de renda fixa, públicos e privados, e nos mercados financeiros. Isto não tardará muito para se descobrir. O pior seria enfrentar essa nova fase desestabilizadora sem ideias alternativas e sem programas corretivos.

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