Os cadáveres ilustres da Nova República

Dificilmente, em termos de desastres criados pela ação humana, o cenário poderia ser pior para o Brasil.

Na esfera político-partidária, a exposição diuturna das práticas de corrupção entranhadas no modus operandi tradicional da classe política brasileira, em todos os níveis e quadrantes da federação, denota um sistema disfuncional, condenado e intrinsecamente incapaz de produzir uma saída do imbróglio em que mergulhou a Nação, a qual contemple os interesses maiores da sociedade como um todo, restitua-lhe a roubada confiança no futuro e recoloque o País no caminho do desenvolvimento e de uma inserção soberana na reconfiguração da ordem de poder mundial que se encontra em curso.

No campo socioeconômico, a taxa de desemprego continua subindo, atingindo mais de 12 milhões de pessoas, número que sobe para 23 milhões quando se considera o índice de subutilização da força de trabalho, que inclui também pessoas com número insuficiente de horas de trabalho e a força de trabalho potencial. Entre os jovens de 18 a 24 anos, um em cada quatro está desocupado, taxa superior ao dobro da média nacional. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, a indústria opera com mais de 26% de capacidade ociosa em média, o maior índice desde 2001. Para o PIB, as projeções do próprio governo para 2016 sinalizam uma queda de 3,5% em relação a 2015, que, somada aos 3,8% negativos de 2015, implica na pior retração econômica em todo o mundo e a mais grave da História brasileira. Com uma agravante: a política de austeridade à qual o governo se aferra cega e insensivelmente, com o aplauso incondicional do sistema financeiro e da mídia associada, tende apenas a agravar a situação.

Em paralelo, manifesta-se a falência dos estados, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul à frente, refletida na dramática deterioração das condições de prestação de serviços essenciais como segurança e saúde públicas, e resultando num coquetel literalmente explosivo de insatisfação popular e violência ensejada pela criminalidade, cujos desdobramentos são imprevisíveis.

A tudo isso, soma-se a virtual bomba atômica representada pela lista da Odebrecht, que poderá passar à História como o dobre de finados da “Nova República”, este cadáver insepulto do qual o governo do presidente Michel Temer não passa de uma sobrevida artificial insuflada pelo sistema financeiro “globalizado” e seu séquito de beneficiários acólitos e serviçais. Se as denúncias da maior empreiteira brasileira forem levadas às necessárias consequências, Brasília poderá tornar-se um necrotério para os cadáveres ilustres que representam essa forma de prática política baseada na captura do Estado por interesses particulares e corporativos, exponenciada pelos governos da “Nova República”. Período no qual o Brasil não superou o estágio de uma democracia meramente formal dominada pelo monstro pestilento de um sistema usurário de exploração da dívida pública, que se converteu na atividade legal de maior rendimento, em detrimento de todos os setores da economia produtiva real.

Vale registrar que, embora com consequências mais graves, o impasse brasileiro é um reflexo da mesma disfuncionalidade acarretada pelo abismo entre as agendas das elites dirigentes e da maioria das sociedades, que se manifesta em todos os quadrantes do planeta, com resultados que têm surpreendido os detentores do poder. Oxalá, o desfecho da crise nacional possa contribuir positivamente para acelerar essa dinâmica global.

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