O que a usura pode “aconselhar” sobre a Amazônia?

Na linha das suas contrapartes internacionais, o setor bancário brasileiro está plenamente engajado na onda das “finanças verdes”, a vinculação dos fluxos internacionais de capitais a critérios de “proteção” do meio ambiente, com ênfase especial nos índices de desmatamento na Amazônia Legal. Item central da campanha de pressões montada contra o País, o desmatamento nos biomas Amazônia e Cerrado foi elevado à categoria de garantia da continuidade dos fluxos financeiros externos, com a avaliação rotineira das suas taxas sendo tratada de modo semelhante às notas das agências de classificação de risco, em relação aos títulos de dívida nacionais.

Assim, na esteira da recente investida dos “fundos gafanhotos” (ver nota neste sítio), foi a vez de os grandes bancos privados que operam no País se manifestarem, da mesma forma, em uma reunião com o vice-presidente Hamilton Mourão, presidente do Conselho da Amazônia, no Palácio do Planalto.

Em 22 de julho, reforçados pela publicação de um artigo conjunto na Folha de S. Paulo (“Por uma Amazônia sustentável e de todos nós”), os presidentes do Itaú Unibanco, Candido Bracher, Bradesco, Octavio de Lazari Júnior, e Santander Brasil, Sérgio Rial, anunciaram com toda pompa e circunstância a formação de um “conselho de especialistas” para assessorar Mourão nas iniciativas de gestão da Amazônia.

Entre as propostas apresentadas pelos bancos, algumas decorrem do mero bom senso e refletem a realidade das carências e dos potenciais econômicos da região:

– estimular o desenvolvimento da infraestrutura de transporte (exemplo: hidroviário) com metas ambientais, em troca de condições diferenciadas (exemplos: funding, exigências e parceiros);

– viabilizar investimentos em infraestrutura básica para o desenvolvimento social (exemplos: energia, internet, moradia e saneamento);

– ampliar o alcance de negócios que promovam a inclusão e a orientação financeira na região;

– articular e apoiar a implantação do sistema informatizado de registro de regularização fundiária;

– atrair investimentos que promovam parcerias e desenvolvimento de tecnologias que impulsionem a bioeconomia.

O diabo, como reza o ditado, está nos detalhes da adoção da agenda das “finanças verdes”, por exemplo, com a adoção da meta de “desmatamento zero” para a pecuária, o que, na prática, anula os dispositivos do Código Florestal, que permitem a limpeza da vegetação em até 20% da área das propriedades privadas situadas no bioma Amazônia e 50% no bioma Cerrado.

E nas propostas do uso de “ativos e instrumentos financeiros de lastro verde (exemplos: PSA, CBIOs e Crédito de Carbono)”, além de “incorporar os impactos das mudanças climáticas nas políticas de crédito e investimentos de longo prazo e dar ênfase a isso em nossos relatórios”.
Para dar visibilidade à sua guinada “verde”, os três bancos publicaram anúncios de página inteira nos principais jornais brasileiros, na sexta-feira 24 (“Bradesco, Itaú e Santander juntos pela preservação da Amazônia”), conclamando os leitores a juntarem-se a eles na campanha.

A preocupação do Governo com a campanha dos bancos, como representantes locais das inclinações “esverdeadas” da alta finança globalizada, ficou evidenciada com a visita de Mourão, na quinta-feira 23, à sede do Santander em São Paulo (SP), para uma reunião com o comitê executivo do banco espanhol, na qual recebeu promessas de financiamento para atividades como a bioeconomia.

Como temos acompanhado e reiterado neste sítio, a agenda da “financeirização” das questões ambientais está sendo devidamente turbinada pelos seus mentores, para se consolidar como um dos pilares da nova configuração da economia mundial pós-pandemia, e o Brasil tem muito pouco a ganhar com uma adesão firme a ela, que é o propósito último dos banqueiros e seus sócios do sistema financeiro.

Ademais, salta aos olhos a prepotência dos bancos ao pretender orientar políticas públicas para a Amazônia com o seu pretensioso “conselho de especialistas”, como se a região e o Governo Federal não dispusessem de profissionais de alto nível para assessorar a formulação de diretrizes sérias e alinhadas aos interesses e aspirações dos mais de 25 milhões de amazônidas.

Igualmente, é evidente que o desenvolvimento da região não pode, de modo algum, ficar condicionado a critérios “verdes” estabelecidos pelo aparato ambientalista-indigenista internacional e adotados por pressão de investidores interessados apenas em obter novos “colaterais” para as suas jogadas especulativas. Como já afirmamos aqui, a recuperação da capacidade creditícia nacional é um elemento crucial para a consolidação da soberania plena sober a Amazônia, sem a necessidade de concessões alheias aos interesses maiores dos brasileiros – ou seja, o progresso da Amazônia, com critérios racionais de proteção ambiental, não pode ser considerado separadamente da retomada de um amplo projeto nacional de desenvolvimento.

Nesse contexto, vale observar que, há décadas, os grandes bancos estão “viciados” nos ganhos fáceis da ciranda financeira, haja vista terem mantido enormes lucros em meio à retração econômica gerada pela pandemia (e vale aguardar os resultados do segundo trimestre), pelo que é difícil imaginar que a sua conversão às “finanças verdes” tenha, efetivamente, algum compromisso com a expansão da economia real a longo prazo.

Por isso, e não apenas nas questões ambientais e referentes à Amazônia, a livre iniciativa nacional orientada para a economia real necessita ser urgentemente libertada dessa servidão usurária.

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