O “Projeto Indonésia” do WWF

Para assegurar a decantada sustentabilidade, a população mundial deveria se contentar em desfrutar dos níveis de vida médios dos cidadãos da Indonésia. A proposta, por mais surreal que pareça, está contida no mais recente manifesto do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), o relatório “Planeta Vivo 2012: a caminho da Rio+20”, lançado em 15 de maio último. O documento é mais um de uma longa série divulgada pela ONG ambientalista número um do planeta, no cumprimento de seu papel de lançadora das diretrizes ideológicas seguidas pelo movimento ambientalista internacional.

O documento é outra atualização do falacioso argumento que o WWF vem enfatizando nos últimos anos, de que o consumo atual da população mundial já teria excedido a capacidade do planeta e, se a tendência for mantida, em 2030, nem dois planetas seriam suficientes para atender às necessidades globais. Em 2050, afirma o texto, quando a população mundial atingir 9-10 bilhões de pessoas, seriam necessárias três Terras.

Para que nenhuma pessoa sensível tenha que ler as 162 páginas do relatório (somente o sumário executivo preparado para a mídia tem 38), a sua essência pode ser apreciada em duas passagens. A primeira sugere nada menos que o banimento quase total do uso de combustíveis fósseis até 2050, afirmando que poderiam ser substituídos por um grande aumento do uso de fontes eólicas, solares e outras do gênero. A segunda sintetiza toda a ideologia misantrópica e exclusivista dos mentores do ambientalismo internacional:

Se todos vivessem como um morador típico dos EUA, seriam necessários 4 planetas Terra para regenerar a demanda anual da Humanidade imposta à natureza… se a Humanidade vivesse como um habitante comum da Indonésia, apenas 2/3 da biocapacidade do planeta seriam consumidos.

Aí está, sem rodeios, a proposta do WWF e seus pares ambientalistas e malthusianos para o futuro do planeta: converter-se numa grande Indonésia global. E, com todo o respeito ao valoroso povo daquele país, que ainda não tem sete décadas de vida independente (sendo 53 anos sob duas ditaduras militares) e enfrenta enormes desafios para promover o desenvolvimento da quarta maior população do mundo, dividida em milhares de ilhas, tanto a Indonésia como o restante da Humanidade merecem uma perspectiva melhor que a referência de desenvolvimento dos valorosos paladinos do meio ambiente. Para ficarmos apenas num indicador clássico de desenvolvimento e bem-estar, o consumo per capita de eletricidade, o nível da Indonésia em 2009 era de apenas 609 kWh/hab.ano, apenas 22% da média mundial (2.729 kWh) e não mais que 82% da média asiática sem a China (741 kWh). E, certamente, não será recorrendo às fontes eólicas e solares que os indonésios conseguirão elevar-se ao nível considerado como o mínimo necessário para as necessidades de sociedades modernas, na casa dos 3.000 kWh.

Alguns dados adicionais sobre a Indonésia reforçam o surrealismo da proposta do WWF:

– IDH (2011): 0,617 (124° no mundo, considerado médio; para comparação, o do Brasil é 0,718);

– mortalidade infantil: 26,9/1.000 nascimentos (mais de três vezes superior à média dos países industrializados).

– acesso à água potável: atende a 80% da população;

– acesso ao saneamento básico: atende a 52% da população.

Ademais, em mais uma demonstração de que o aparato “verde” está inserido na estratégia hegemônica do Establishment oligárquico, o manifesto do WWF ignora solenemente o principal fator de “insustentabilidade” do planeta, o sistema financeiro internacional em sua presente forma, quase totalmente desvinculada das economias físicas e das necessidades reais das populações de todo o mundo.

2 comments

  1. É fácil para a WWF predizer o futuro do planeta com propostas alucinantes como esta! Por que ela não revela que, se o consumo da capacidade do planeta aumentou, foi justamente por causa de paises como a Indonésia que se livraram das garras da ditadura e hoje estão crescendo e prosperando. Podesmo citar aqui alguns países da Africa (ex-colonias da Europa). Ora, o que a WWF queria….que tudo continuasse como antes? WWF pare com essa paranóia de pregar o Apocalipse para quem não lê e não entende o que está acontecendo e ajude a estes, com informações mais úteis!!

  2. Mas o senhores não questionam o diagnóstico com dados. Para dizermos que alguém está errado é necessário fazê-lo rebatendo apresentando outros dados ou criticando ou métodos dos estudos. Há ou não insustentabilidade? No que se baseiam para dizerem que o documento é falacioso quando refere que “o consumo actual da população mundial já teria excedeu a capacidade do planeta e que, se a tendência for mantida, em 2030, nem dois planetas serão suficientes para atender às necessidades globais”. Onde está a mentira desta afirmação e que autoridade cientifica tem os senhores para a questionarem?

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