O pitaco da Pitanga

Com a aprovação do projeto de lei do Código Florestal, na Câmara dos Deputados, era mais que esperada a pronta reação do aparato ambientalista-indigenista internacional, que se engajou imediatamente em uma ativa campanha para pressionar a presidente Dilma Rousseff a vetar, pelo menos em parte, o texto aprovado. A ponta de lança da campanha é o movimento Veta, Dilma, que prolifera nas chamadas redes sociais, com forte apoio de ONGs ambientalistas, como o Greenpeace, e dos indefectíveis representantes da classe artística, em especial, do elenco da Rede Globo de Televisão.

Um desses artistas engajados, a atriz Camila Pitanga, ganhou manchetes nacionais, na sexta-feira 4 de maio, em uma cerimônia na qual o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu o título de Doutor Honoris Causa de cinco universidades públicas do Rio de Janeiro. Usando do privilégio de ser a mestre de cerimônia do evento, a atriz quebrou o protocolo e dirigiu o bordão da campanha diretamente à presidente da República, sendo entusiasticamente aplaudida pela plateia presente ao evento, no Teatro João Caetano, no centro do Rio.

Ao dar o seu pitaco, Pitanga não se fazia apenas porta-voz de seus colegas, sempre prontos a emprestar sua visibilidade pública a campanhas “politicamente corretas”, mas, principalmente, do aparato ambientalista-indigenista, em sua condição de conselheira do WWF-Brasil, filial da ONG ambientalista mais poderosa do planeta. Não por coincidência, o vice-presidente das Organizações Globo, José Roberto Marinho, já presidiu o WWF-Brasil e, atualmente, também integra o Conselho Consultivo da ONG.

Igualmente, não é casual que um desorientado grupo de colegas de Pitanga tenha se prestado a produzir o desastroso vídeo do chamado Movimento Gota d’Água, com críticas à usina hidrelétrica de Belo Monte, divulgado no final do ano passado e, prontamente, desqualificado por vídeos elaborados por universitários.

Obter o veto presidencial é uma questão estratégica para o aparato ambientalista, com o qual conta para preservar a sua capacidade autocrática de intervenção na política ambiental brasileira, mantendo a forte influência demonstrada nas últimas duas décadas. Para tanto, as pressões sobre a presidente são desfechadas a partir de várias frentes, usando como um dos argumentos principais a alegada imagem negativa que o texto aprovado na Câmara representaria para o País, na vindoura conferência Rio+20.

Por sua vez, apesar de já ter demonstrado a intenção de colocar limites na ingerência do aparato ambientalista-indigenista na formulação de políticas, Dilma é sensível a certos aspectos do discurso ambientalista, como o referente às mudanças climáticas, e mostra tolerância reduzida a decisões parlamentares contrárias à sua orientação, que considera quase como afrontas pessoais. Além disto, está empenhada em fazer boa figura na Rio+20, que será a única grande reunião internacional promovida por seu governo. Por conseguinte, pode se mostrar suscetível às pressões e acatar as demandas ambientalistas.

Desafortunadamente, para o País, a influência do aparato “verde” conseguiu obstaculizar a aprovação do projeto original do Código Florestal, tal como saiu das mãos do seu primeiro relator, o então deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP). O formato aprovado representava, efetivamente, um consenso majoritário dos mais diversos setores da sociedade, resultante de um longo e minucioso trabalho, que incluiu consultas públicas em quase todos os estados e subsídios de todas as áreas relevantes. Agora, será preciso aguardar a decisão presidencial, a qual permitirá avaliar se o nível de suscetibilidade do Executivo brasileiro às pressões ambientalistas continua no mesmo patamar dos governos anteriores, em uma linha direta desde o catastrófico final do mandato de José Sarney.

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