O “Legado Menem” (e lições para o Brasil)

Morto aos 90 anos, o ex-presidente argentino Carlos Menem (1989-1999) foi, talvez, o símbolo máximo da tsunami reformista e pseudomodernizante que varreu a Ibero-América na década de 1990, sob a égide da “Nova Ordem Mundial” encabeçada pelos EUA de George H.W. Bush, cuja agenda econômica ficou conhecida como o “Consenso de Washington”. Este, de fato, um pretensioso disfarce para a abertura comercial irrestrita, a liquidação do patrimônio dos Estados nacionais e a financeirização radical das economias da região. Em paralelo, praticou um alinhamento político e estratégico incondicional a Washington, refletido na inesquecível declaração do chanceler Guido di Tella, sobre a intenção de estabelecer “relações carnais com os EUA”.

Para tanto, Menem privatizou cerca de 60 empresas controladas pelo Estado, dolarizou a economia, decretando uma insustentável paridade entre o peso e o dólar – catastrófica para a indústria – e, para agradar aos EUA, encerrou todos os programas tecnológicos avançados das Forças Armadas, principalmente, nas áreas nuclear e de mísseis balísticos. Além disto, chegou ao ridículo extremo de enviar dois navios de guerra para fazer número na armada multinacional convocada por Bush para a cruzada contra o Iraque, na Guerra do Golfo de 1990-91.

O resultado foi uma falsa prosperidade momentânea, que, apesar de suficiente para assegurar a Menem uma reeleição em 1995 (antes vedada pela Constituição), resultou no desastre econômico, social e político de 2001, com convulsões sociais, a renúncia do seu sucessor, Fernando de la Rúa (marcado pela patética fuga de helicóptero da Casa Rosada sitiada por uma multidão enfurecida), e o espetáculo inusitado de a Argentina ter cinco presidentes em apenas uma semana, no final daquele ano. Sem falar na desindustrialização e reprimarização da economia, quase reduzida a mera exportadora de commodities, e o empobrecimento brutal da população submetida ao experimento neoliberal.

Não por coincidência, Menem e de la Rúa compartilharam o mesmo ministro da Economia, Domingo Cavallo, por sua vez, um discípulo atento do calamitoso José Alfredo Martínez de Hoz, iniciador da devastação industrial do país, durante o regime militar de 1976-1983, em cuja fase final Cavallo ocupou a presidência do Banco Central argentino.

Em uma postagem no Twitter, o respeitado jornalista Eliezer Budasoff sintetizou assim as suas impressões sobre a “Era Menem”: “Meu pai trabalhava no Banco Nacional de Desenvolvimento [BANADE], o primeiro que Menem privatizou. Aos 47 anos, com três filhos, ficou sem trabalho. Morreu aos 54 anos de dois infartos, afundado em dívidas, depois que o banco nos tomou a casa e o carro. Isso é o menemismo para mim (Diario Junio Digital, 15/02/2021).”

O BANADE, equivalente ao BNDES brasileiro, foi criado na década de 1940 para apoiar a indústria argentina, tendo chegado a financiar 50% dos empreendimentos industriais no país, e sua privatização foi uma condição imposta pelas agências financeiras multilaterais – Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI) – responsáveis pela aplicação do “Consenso de Washington”, alegremente aceita por Menem e seus “modernizadores”.

O drama familiar relatado por Budasoff foi replicado milhões de vezes, sendo uma das causas do empobrecimento recorde da população, superior a 50%, registrado no início da década de 2000.

Outra consequência do “menemismo” foi um virtual desmantelamento das Forças Armadas, cujos desdobramentos se estendem à atualidade, tornando-as incapazes de cumprir grande parte das tarefas relacionadas à segurança nacional, com efetivos reduzidos e desmotivados, orçamentos irrisórios e um vasto sucateamento de equipamentos e meios aéreos, navais e terrestres.

A propósito, em agosto de 2001, com Menem já fora do governo e eleito para o Senado por sua província natal de La Rioja, o ex-coronel do Exército Mohamed Alí Seineldín dirigiu-lhe uma duríssima carta aberta, acusando-o de ter lançado uma série de calamidades sobre o país – “miséria, desproteção, entrega, esvaziamento moral, ético e espiritual”. Na época, Seineldín, excluído das fileiras militares, cumpria o último dos 11 anos de prisão a que foi condenado, por ter assumido a responsabilidade por um levante armado contra o governo do ex-presidente, em 1990. A carta dizia, em parte:

“Os argentinos sabemos que durante o seu governo, que durou dez anos e foi denominado, com justiça, a ‘Década Perversa’, o Sr. concretizou de forma contundente quatro objetivos: a entrega da Nação Argentina à casta anglo-americana; o empobrecimento dos seus habitantes; a instalação de todo tipo de máfias que existem no planeta; e, finalmente, o aumento significativo da sua riqueza pessoal.

“Tudo está à vista.

“Devo dizer-lhe, ademais, que um amigo que visitou a Síria há um par de anos [Menem era de origem síria – N. dos E.] me manifestou que, ali, o denominam ‘o homem das cinco traições’: à sua religião muçulmana; à sua raça árabe; à Nação Argentina; ao Partido Nacional Justicialista; e à sua família.”

Dificilmente, se poderia encontrar uma síntese melhor da “Era Menem” do que os depoimentos de Budasoff e Seineldín.

No Brasil, o ministro da Economia Paulo Guedes aplica o mesmo roteiro da agenda neoliberal que devastou o vizinho do Sul, esperando que o resultado seja diferente, como se o desmantelamento da estrutura do Estado nacional, com a entrega de empresas estratégicas e o Banco Central aos apetites inesgotáveis dos “mercados”, e a asfixia dos orçamentos militares e de pesquisas científico-tecnológicas possam produzir outro resultado, se não um rotundo fracasso.

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