O homem que salvou (literalmente) o mundo

Em filmes de ficção hollywoodianos, não são incomuns tramas em que um único indivíduo salva todo um povo, um país ou até mesmo o planeta inteiro. Na Crise dos Mísseis de Cuba, indiscutivelmente, o destino do mundo esteve nas mãos de muito poucos: sem dúvida, do presidente John F. Kennedy e do premier Nikita Krushchov; mas foi apenas quatro décadas depois que se soube que, na ocasião, um único oficial naval soviético havia impedido o lançamento de um torpedo nuclear contra belonaves estadunidenses – e o inevitável tiroteio nuclear que se seguiria.

O homem que, literalmente, salvou o mundo de um apocalipse atômico, foi o comandante Vasili Alexandrovich Arkhipov, que liderava uma flotilha de quatro submarinos enviada a Cuba. Embora fosse o comandante da flotilha, Arkhipov era o segundo em comando no submarino B-59, cujo capitão era Valentin G. Savitsky. Na tarde de 27 de outubro de 1962, o dia mais crítico da crise, uma força-tarefa estadunidense constituída pelo porta-aviões USS Randolph e onze destróieres localizou o B-59 e começou a lançar contra ele cargas de profundidade de exercício, em uma tentativa de fazê-lo emergir. Sem comunicações com Moscou e submerso há vários dias, com o ar se esgotando a bordo, Savitsky considerou que a guerra havia estourado e ordenou que o torpedo nuclear fosse armado e preparado para o disparo.

Na época, as normas soviéticas permitiam o emprego dos torpedos nucleares, sem necessidade de ordens específicas de Moscou, desde que houvesse unanimidade entre o comandante, o imediato e o comissário político de bordo. No B-59, tanto Savitsky como o comissário Ivan S. Maslenikov eram favoráveis ao disparo, mas Arkhipov impôs a sua autoridade, acalmou Savitsky e optaram por levar a nave à superfície e aguardar novas ordens de Moscou.

Um dos fatores que contribuíram para que a posição de Arkhipov prevalecesse foi o elevado respeito de que ele já gozava na Marinha soviética, por ter sido imediato do malfadado submarino nuclear K-19, que, em julho de 1961, experimentou um letal vazamento de radiação no seu reator. No episódio, retratado no filme estadunidense K-19 (2002), Arkhipov não apenas contribuiu para impedir um motim da tripulação, como se expôs a altas doses de radiação, ao ajudar a reparar o reator, com efeitos bastante prejudiciais para a sua saúde.

Como concordam todos os historiadores e estrategistas que revisaram os acontecimentos de 1962, a detonação do artefato teria pulverizado a força estadunidense, mas, indubitavelmente, teria deixado Kennedy sem outra opção senão a de ordenar uma retaliação nuclear contra a URSS, em uma escalada de consequências imprevisíveis.

Após a crise, Arkhipov prosseguiu em sua carreira na Marinha soviética, tendo atingido o posto de vice-almirante. Ele morreu em 1998, de um câncer no fígado, provavelmente, deflagrado pela radiação contraída no K-19. O drama do B-59 só se tornou conhecido fora de seu país em 2002, em um seminário sobre os 40 anos da Crise dos Mísseis, em Cuba, promovido pelo Arquivo de Segurança Nacional (ASN), a Universidade Brown e o governo cubano. No evento, o diretor do ASN, Thomas Blanton, afirmou: “A lição disso tudo é que um cara chamado Vasili Arkhipov salvou o mundo (The Boston Globe, 13/10/2002).”

No cinquentenário da crise, Arkhipov foi homenageado por seus antigos adversários, com um documentário dramatizado realizado pela rede de televisão pública PBS, justamente intitulado “O homem que salvou o mundo”, que pode ser visto no sítio da rede (para facilitar, uma transcrição do roteiro também está disponível). Assisti-lo é não apenas um precioso exercício de História, como também uma homenagem ao herói quase anônimo que evitou o impensável.

One comment

  1. A verdade mais ou mais tarde aparecer pouco importa o tem que levar pois samos eternos. abcs. Francisco Nogueira Teixeira – presidente da FLAMANIA

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