O futuro segundo Al Gore

Al Gore ataca outra vez! Depois de assustar o mundo, com o documentário catastrofista que lhe valeu um Oscar e o ajudou a ganhar um Prêmio Nobel (apesar de desqualificado por numerosos cientistas sérios), o ex-vice-presidente estadunidense volta à carga. Desta feita, oferecendo aos incautos a sua visão do futuro, tema de seu novo livro, que acaba de ser lançado nos EUA.

Na obra, intitulada The Future: Six Drivers of Global Change (O futuro: seis motores das mudanças globais), Gore defende a idéia de que o mundo está girando rapidamente fora de controle. Com isto, estaríamos entrando em uma nova era de turbulências, na qual as novas tecnologias estariam causando crescentes estragos; o planeta estaria sendo “pilhado” de forma cada vez mais intensa e as instituições governamentais estariam sendo subornadas por interesses obcecados por lucros rápidos, sem se preocupar com a sustentabilidade a longo prazo (Daily Telegraph, 20/02/2013).

No livro, ele explicita a ideologia malthusiana que tem norteado toda a sua carreira de paladino do meio ambiente, como a sugestão de que um dos principais problemas que ameaçam o mundo seria a “superpopulação”, que, aliada ao desenvolvimento de novas tecnologias e ao crescimento econômico, estaria levando ao esgotamento de recursos naturais vitais, como a água e os solos férteis. Além disto, o progressivo desenvolvimento econômico de regiões pobres estaria resultando em maiores emissões do temido dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, contribuindo assim com o suposto aquecimento global antropogênico.

Os seis “motores de mudança” aos quais se refere o título do livro são: uma economia mais globalizada; comunicações eletrônicas planetárias e o desenvolvimento da robótica; iniciativa econômica passando do Ocidente para o Oriente; crescimento populacional e uso insustentável de recursos naturais; avanços nas ciências biológicas, bioquímicas e de materiais; e uma relação radicalmente instável entre a civilização e os sistemas ecológicos da Terra, especialmente, a atmosfera e o clima.

Gore vê, ainda, a evolução tecnológica como uma “ameaça” às classes médias em todo o mundo, uma vez que tal desenvolvimento estaria levando à progressiva substituição do homem pela máquina nos setores produtivos. Convenientemente, ele ignora que o desenvolvimento de novas tecnologias leva à geração de novas atividades profissionais antes inexistentes, muitas delas com salários mais elevados, fator que contribui positivamente para o aumento da produtividade de uma economia.

Dentre as sugestões de Gore para “resolver” tais questões, está a proposta de se abandonar os critérios atuais de medição do Produto Interno Bruto (PIB) das economias nacionais. Para ele, é “bizarro” que se listem os bilhões de barris de petróleo e gás natural extraídos como fatores positivos para o PIB, sem considerar os seus supostos efeitos negativos para a atmosfera. A propósito, em recente entrevista, na turnê de lançamento do livro, ele afirmou: “Podemos começar eliminando tais subsídios governamentais para o uso de combustíveis fósseis. Isso é um absurdo (San Francisco Chronicle, 17/02/2013).”

Na mesma entrevista, Gore elogiou a menção do presidente Barack Obama à questão climática, no seu discurso de posse do segundo mandato. Entretanto, afirmou que o governo “tem que fazer mais”, acrescentando que “precisamos de um preço para o carbono de forma direta ou indireta… precisamos ampliar rapidamente as tecnologias de energias renováveis, com o fim de impulsionar a curva de custos para baixo mais ligeiramente, de modo a permitir que a eletricidade a partir de eólicas e solares seja mais barata do que a produzida por carvão, petróleo e gás”.

Curiosamente, essa ênfase no combate à predominância dos combustíveis fósseis na matriz energética não tem constrangido Gore em fazer negócios com o setor petrolífero. Como bem observou o jornalista britânico Robert Colvile, do Daily Telegraph (20/02/2013), ele não teve qualquer cerimônia em vender a sua rede de televisão Current TV aos emires dos hidrocarbonetos do Catar, também proprietários da rede Al-Jazira. Na entrevista supracitada, Gore foi furtivo, limitando-se a alegar que “está muito claro que eles (a Al-Jazira) estabeleceram, há muito tempo, uma reputação pela excelência, integridade e objetividade. E o panorama de nossas redes de notícias televisivas precisa de avanços”.

Apesar de renovar os seus ataques contra o desenvolvimento econômico, o crescimento populacional e as emissões de carbono, Gore expressa um profundo pessimismo na conclusão do livro. A despeito de afirmar que ainda há a possibilidade de que os EUA exerçam uma nova “liderança” na questão ambiental, ele considera que isto pode não ser suficiente, já que o resto do mundo pode ignorar tais “exemplos”.

Por infortúnio, o ex-vice-presidente ainda consegue ludibriar um bom número de incautos, como o próprio Colvile, que conclui sua resenha do livro, fazendo uma profissão de fé malthusiana: “Seria muito corajoso o homem, ou a mulher, que, após ler tal extensa lamentação, se atrevesse a trazer uma criança para um mundo tão fixado na sua autodestruição.”

Como as suas obras anteriores, o calhamaço de Gore (592 páginas na edição original) deveria ser vendido com uma advertência do tipo: “O Ministério da Educação informa: a leitura deste livro é prejudicial à sua saúde mental.”

2 comments

  1. Leandro,
    discordo quase que radicalmene de Al Gore, especialmente na questão ambiental, e na emissão dos falaciosos gases de efeito estufa. Mas tenho de concordar em dois pontos com ele, sobre a superpopulação planetária e a finitude das terras férteis para a produção de alimentos, grãos em especial, que são proteínas vegetais para alimento humano e de criações, ou seja, que alavancam a produção de proteína animal (aves e porcos) aos humanos. Se nos tornarmos vegetarianos caberiam uns 12 ou 15 bilhões de bocas no planeta, mas com 9 bilhões comendo proteína animal vai faltar grãos para alimentar tanta galinha e tanto porco e tanta gente.
    É uma opção que a humanidade terá de tomar, pois as terras agricultáveis estão chegando ao fim, apenas o Brasil ainda tem áreas para expandir, em áreas de pastagens degradadas, é claro, porque a imbecilidade do Código Florestal tupiniquim vai limitar a expansão em áreas virgens, especialmente no Cerrado, Pantanal e Amazônia, além do semi-árido.
    A comida já está cara e vai ficar mais cara ainda, os estoques de segurança cada vez são menores, e só a China faz a “lição de casa”, impondo limites ao crescimento demográfico. A Índia deve ultrapassar a população da China dentro de 5 anos.
    Pior do que isso, ou melhor, dependendo do ponto de vista, existe a inclusão social, feita no Brasil e em toda a Ásia, incluso Índia, e só no Brasil temos mais de 25 milhões de “novos consumidores”, “nascidos adultos” pela inclusão social, e que no primeiro troco que ganham compram um bife. Justo, é verdade, mas insustentável em termos planetários, porque os ricos concorrem com os pobres, encarecendo os alimentos, agora com maior demanda. Como resolver a equação? O Clube de Roma prefere a opção malthusiana do decrescimento, que é cruel, gera desemprego e mais fome. Outras nações dos países desenvolvidos preparam guerras, como meio de reduzir populações regionais, mas essas soluções são paliativas para a problemática da superpolução. Grandes cidades já são ingovernáveis e países superpopulosos, incluso o Brasil, tornam-se também inadministráveis.
    A tecnologia (computação e celulares), de custo caríssimo, sempre renovada, traz mais desemprego do que novos empregos, e lixo eletrônico excessivo, fruto da ganância de provocar novo consumo de novos micros que se tornam obsoletos em 2 anos, pois viemos de bytes e kbytes até os megabytes, depois gigabytes e terabytes em menos de 20 anos, para manter a roda da produção e do lucro girando em favor de uma minoria que só sobrevive com novas vendas a quem já era cliente.
    Não dá para imaginar que a superpolução não esteja criando e exacerbando todos os maiores problemas da humanidade no planeta. Teríamos que desacelerar o crescimento demográfico, melhorando a renda e fazendo inclusão social. Coisa que as igrejas não concordam, também os políticos e bancos, pois mais gente significa mais “almas” para serem salvas, mais votos e mais gente para consumir.
    As demais questões colocadas por Al Gore possuem interesses econômicos e políticos inconfessáveis, mas no problema da superpolução ele tem razão em ser pessimista.
    Eu também sou.
    Richard Jakubaszko

  2. Prezado web comentarista. Teus medos são racionais mas parece que se não ocorrer novos tempos permianos os seres humanos não vão parar, e o nosso amanhã e o de nossos filhos e netos, será complexo segundo o autor do livro,segundo o comentarista e este alarmado leitor.

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