O “Fed” expõe novos riscos financeiros sistêmicos

Depois de tentar, como de hábito, acalmar os ânimos, o último Relatório de Estabilidade Financeira (FSR) do Sistema da Reserva Federal apresenta uma impressionante lista de riscos para a estabilidade financeira nos Estados Unidos e no restante do planeta.

O que aconteceu em março, com o colapso do fundo de hedge Archegos Capital Management, que deixou um rombo de mais de 10 bilhões de dólares em alguns dos maiores bancos internacionais (ver nosso artigo publicado na Resenha Estratégica de 28/04/2021), ainda está ressoando nos ouvidos dos presidentes do “Fed”. Na verdade, dizem que o problema pode ser cinco vezes maior do que o anunciado.

O FSR é publicado semestralmente, com o objetivo de prevenir a recorrência de outra grande crise como a de 2008.

O relatório centrou-se no significado e no rescaldo do colapso do Archegos, destacando que as dificuldades das instituições financeiras não bancárias (o notório “sistema bancário sombra” ou shadow banking) afetam todo o sistema financeiro. “As vulnerabilidades associadas ao apetite de alto risco estão aumentando”, diz o documento. Isto destaca “a visibilidade limitada das exposições dos fundos de hedge, além do que os seus recursos, criados com alavancagem financeira, podem não ser suficientes para fazer frente a riscos importantes”.

Os valores de numerosos ativos cresceram enormemente, superando os recordes do ano passado. Os índices acionários e os preços das ações atingiram os seus máximos históricos. Por exemplo, desde o início de 2021, o Standard & Poor’s 500 subiu 12%; o Bloomberg Commodity Index, que acompanha todas as commodities e produtos alimentícios, subiu 19% em um ano. No mesmo período, os preços dos imóveis nos EUA aumentaram 12%.

Tudo isso é decorrente de um insaciável “apetite” por lucros sempre maiores. Afinal, o excesso de liquidez, os juros quase negativos e os baixos rendimentos oferecidos pelos títulos tradicionais, como os títulos do Tesouro estadunidense, têm atiçado os investimentos especulativos, tanto que, em vez de comprar títulos públicos, as grandes empresas financeiras preferem comprar títulos corporativos ou aqueles já considerados especulativos.

O perigo real reside em uma possível mudança repentina nas avaliações. De fato, o “Fed” teme que algum evento possa redefinir rapidamente os preços de ativos, ações, títulos ou outros instrumentos financeiros. Assim como no caso do Archegos, quando determinadas ações foram vendidas para cobrir prejuízos operacionais, causando uma queda repentina e acentuada do seu valor.

Em outras palavras, há temores de que os especuladores possam mitigar o seu “apetite pelo risco” e reduzir o frenesi de ações e negociações mais arriscadas. O sistema está “viciado” e precisa de doses cada vez mais fortes, que correm o risco de provocar um colapso em um momento de abstinência. Assim como o viciado precisa de ajuda profissional, o financiamento especulativo precisa de intervenção corretiva de governos e Estados, quando isto se faz necessário.

O FSR relaciona outros riscos de vulnerabilidade do sistema: o agravamento da pandemia de Covid-19 e o aumento das taxas de juros para fazer frente ao aumento da inflação. Até mesmo o presidente do “Fed”, Jerome Powell, manifestou certa preocupação com o aumento dos preços em alguns setores, como o imobiliário, e admitiu que “não é realmente bom que os preços nos EUA subam tanto”.

Portanto, não surpreende que o “Fed” procure repassar a terceiros as causas dos riscos de sua vulnerabilidade financeira, em primeiro lugar, à Europa e aos países emergentes: “Desdobramentos negativos nas economias de mercado emergentes, estimulados em parte por um aumento nas taxas de juros de longo prazo, podem ter repercussões nos Estados Unidos” No entanto, eles se esquecem de reconhecer as suas responsabilidades. Na verdade, o desenvolvimento econômico desses países é geralmente determinado pelas políticas monetária e financeira dos Estados Unidos.

Mesmo as medidas tomadas pela China para conter a especulação no mercado imobiliário, dizem, podem criar situações de estresse financeiro interno com repercussões globais, inclusive nos próprios Estados Unidos.

Em última análise, o FSR apresenta uma série de análises e preocupações, algumas das quais também podem ser compartilhadas. No entanto, são declarações escritas que podem, no máximo, provocar discussões midiáticas e acadêmicas, mas não levam a ações efetivas por parte das instituições apropriadas, como seria necessário.

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