O desafio da perda de complexidade da indústria brasileira

A regressão da participação da indústria no PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil é um fenômeno já bastante discutido (embora bem menos do que deveria, dada a sua relevância para as perspectivas futuras do País). Bem menos conhecido é o problema da dramática perda de complexidade da indústria nacional, entendida como a sofisticação tecnológica ou a capacidade de criação de uma rede produtiva sofisticada. Um artigo do economista Paulo Gala, publicado em seu sítio, proporciona uma oportuna e necessária introdução ao tema.

Professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP) e executivo-chefe da consultora Fator Administração de Recursos, Gala é especialista no assunto e tem se empenhado em divulgar ao público em geral conhecimentos fundamentais sobre as questões econômicas, em textos e vídeos postados no sítio e em sua página no Facebook. Em 2017, a editora Contraponto publicou o seu livro Complexidade econômica: uma nova perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações.

O artigo é ilustrado por um gráfico que mostra o que ele chama “a notável evolução da complexidade brasileira no período que vai do início dos anos 60 até o início dos 90 e o também incrível retrocesso observado depois dos anos 2000” (abaixo).

Em linhas gerais, Gala observa:

1) O salto tecnológico e de complexidade da indústria brasileira foi proporcionado pelos grandes movimentos criados na era Vargas, o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, o “milagre econômico” e o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND). Isto se deu apesar dos excessos, com endividamento público, emissão monetária inflacionária e desequilíbrios internos e externos. Nos anos 60, as importantes reformas institucionais (modernização da lei trabalhista, reforma do sistema financeiro, criação da correção monetária, do SFH etc.) lançaram as bases para o crescimento do país na década seguinte.

2) Como grande parte desses investimentos foi apoiada no endividamento externo de empresas estatais, o País pagou a conta na década de 1980, com o segundo choque do petróleo e o aumento dos juros da era Volcker (1979), passando toda a década pagando os custos desse ajustamento. Não obstante, as exportações cresceram a um ritmo explosivo, o crédito se ampliou fortemente, as manufaturas brasileiras começam a conquistar mercados no mundo e o País melhorou o seu perfil exportador, até então excessivamente dependente de café e bens agrícolas.

3) Na década de 1990, iniciou-se uma nova transição econômica, marcada pela abertura da economia, o controle da inflação, a privatização, uma melhora fiscal e novos marcos regulatórios. O período 1990-1999 ficará na história como uma grande fase de ajustamento com crescimento baixo, mas importantes reformas institucionais da economia brasileira.

4) O País voltou a crescer no início dos anos 2000, mas em ciclo puxado por consumo, construção civil e o boom de commodities. Nos últimos 10 anos, os empresários brasileiros se especializaram em produzir commodities, bens agrícolas, serviços não sofisticados e prédios. Os negócios que mais prosperam foram shopping centers, construção de prédios comerciais e residenciais, lojas de varejo de todo tipo (cabelereiros, restaurantes, vestuário, concessionárias de automóveis etc.), além de grandes obras de infraestrutura, petróleo, etanol, café e minério de ferro. O preço dos serviços domésticos também aumentou fortemente, contribuindo para a apreciação do câmbio real. Essa combinação de alta de preços de serviços, alta de preço de commodities em dólares e apreciação cambial aumentou muito a rentabilidade das atividades de importação em geral, serviços, varejo, construção civil e produção de commodities. Com isso, a produção doméstica de manufaturas e bens industriais perdeu muita rentabilidade e regrediu em relação aos patamares observados nos anos 90.

5) A partir da crise de 2008, a indústria brasileira sucumbiu à concorrência internacional, aos aumentos de custo de produção em reais (principalmente salários) e à forte apreciação do câmbio nominal e real. A expansão de PIB observada no pós-2008 foi toda baseada em serviços não sofisticados e construção civil (quadro típico de “doença holandesa”). A demanda por bens industriais foi totalmente suprida por importações. Sem estímulos para produzir domesticamente o empresário industrial brasileiro passou a ser importador, montador ou simplesmente encerrou seus negócios. Houve uma enorme perda de complexidade produtiva da economia brasileira. A produtividade total da economia caiu e vai continuar caindo, até que as manufaturas domésticas se recuperem.

6) O quadro para o futuro é alarmante, pois graças ao que se conhece como histerese (em física e economia) [retardo na resposta a um estímulo externo – n.e.], a reconstrução do tecido produtivo brasileiro será lenta e dolorosa. A grande desvalorização cambial observada em 2015 não produzirá imediatamente a reconstrução do setor brasileiro de bens transacionáveis não commodities.

Gala conclui com a pergunta do trilhão:

“Como resolver esse problema nos próximos anos? Dado que os salários nominais não vão cair, só existem dois caminhos: desvalorização cambial e aumento de produtividade. A desvalorização já está ocorrendo pela via de mercado. O aumento de produtividade poderá vir pelo aumento do investimento em infraestrutura e pela sofisticação tecnológica do tecido produtivo brasileiro (aumento da complexidade econômica): novos mercados e novos produtos, especialmente de natureza industrial. Num mundo ultracompetitivo como o atual não será tarefa fácil. Talvez com uma onda de pesados investimentos em infraestrutura e câmbio bem mais desvalorizado seja possível. Sem esse caminho o crescimento deve ficar estagnado por aqui. Esses resultados mostram, conforme já discutido, algo já amplamente debatido no Brasil com diversos outros nomes: desindustrialização, doença holandesa e reprimarização da pauta exportadora. A enorme perda de espaço da indústria brasileira no PIB nos últimos 20 anos significa algo muito simples: regressão de nossa complexidade econômica. As reformas iniciadas nos anos 90 com abertura comercial, privatizações e estabilizacão da inflação não produziram os resultados esperados; não houve aumento sustentado de nossa renda per capita; não houve aumento da complexidade da economia brasileira, em contraposição ao que se viu no Sudeste Asiático e Leste Europeu.”

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