“O Brasil precisa de um projeto”

Em sua coluna no jornal O Globo de 25 de outubro, o jornalista Lauro Jardim reproduz uma precisa síntese do ex-ministro Delfim Netto, que reflete a essência do drama brasileiro nas últimas décadas: “O Brasil só cresceu quando teve um projeto. Hoje, o Brasil não sabe onde está e nem sabe para onde quer ir.”

Com suas virtudes e defeitos, o veterano Delfim, aos 92 anos, é testemunha e representante de uma época em que o País tinha um projeto nacional e suas elites dirigentes, com suas idiossincrasias e divergências, compartilhavam majoritariamente a ideia da afirmação do Brasil como uma Nação a caminho do pleno desenvolvimento pelos seus próprios meios, capaz de mobilizar os seus amplos recursos humanos e naturais na solução dos seus problemas, vastos mas não insuperáveis.

O abandono dessa ideia-força, prevalecente no meio século transcorrido entre os governos de Getúlio Vargas e Ernesto Geisel, em troca da subordinação caudatária do País à dinâmica da “financeirização” da economia mundial, a partir da década de 1980, consolidada na seguinte, está na raiz da estagnação inercial que o tem impedido de galgar um patamar superior na escala civilizatória, ao contrário de países que largaram de condições iguais ou inferiores e, nas últimas décadas, lograram dar esse salto qualitativo e quantitativo.

O próprio Delfim encarna um exemplo relevante dessa transformação: em seu tempo de ministro da Fazenda e do Planejamento, ele mantinha reuniões regulares com as lideranças produtivas, em especial, de São Paulo, em almoços na então poderosa FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), nas quais “sentia o pulso” do empresariado, para levar em conta as suas expectativas na condução da política econômica do governo. Hoje, a indústria brasileira encontra-se em queda livre na participação no PIB (Produto Interno Bruto) e na escala de relevância global, e as reuniões virtuais do titular do “Superministério” da Economia se dão, preferencialmente, com representantes do setor financeiro, cujos interesses monopolizam a formulação das políticas públicas.

De fato, desde o governo de Fernando Henrique Cardoso, o rentismo estéril tem sido hegemônico, com a conversão dos títulos da dívida pública no negócio mais lucrativo do País, proporcionando aos rentistas um confortável “capitalismo sem risco”, mas cujos efeitos são ruinosos para a maioria dos setores produtivos da economia e da sociedade em geral. Sem surpresa, o serviço da dívida tem consumido anualmente entre 40-50% do orçamento nacional, com todas as demais rubricas de despesas discricionárias sendo subordinadas a essa prioridade sacrossanta.

Definitivamente, o Brasil não terá como deixar o pântano da estagnação se insistir nesse rumo. Para tanto, precisa recuperar com urgência as suas capacidades produtivas e o crédito soberano do Estado, em prol do Bem Comum, e não apenas dos acionistas e clientes VIP das instituições financeiras. Mas nada disto poderá ser feito sem a retomada do impulso do projeto nacional abandonado há quatro décadas.

No mesmo contexto, vale recordar a advertência do general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, em seu artigo publicado no “Estadão” de 10 de julho (“Falta-nos um projeto nacional”): “Somos um país com mais de 200 milhões de habitantes, cuja população contém em si própria riquezas geradas desde 1500, decorrentes da miscigenação em que as três raças se mesclaram, cada uma delas aportando características ímpares. A criatividade, a alegria de viver, a tolerância, a adaptabilidade, a resiliência, a religiosidade, o sentido de família, o patriotismo, enfim, esses e outros atributos são como uma vasta produção de frutos, à espera de serem colhidos e colocados na grande cesta da nacionalidade brasileira. Esse enorme cartel de singularidades vive sobre uma base física que metaforicamente constitui uma arca plena de riquezas, sobre as quais estamos sentados, desconhecendo o conteúdo e tampouco sabendo como abri-la.”

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