O “apagão” de doadores do Greenpeace

 

Após a forte repercussão negativa do prejuízo de 3,8 milhões de euros com operações financeiras especulativas “sem fins lucrativos”, a notória ONG ambientalista Greenpeace sofreu outro duro impacto: uma debandada de quase 500 mil doadores em todo o mundo. Irritados com o citado escândalo e outros fatos constrangedores recentemente revelados sobre os procedimentos da organização, muitos dos seus apoiadores decidiram suspender a ajuda que davam à entidade.

O mais recente fato constrangedor envolvendo o Greenpeace foi a revelação de que, nos últimos dois anos e meio, o seu chefe de campanhas, Pascal Husting, voou semanalmente entre o Luxemburgo, onde reside a sua família, e Amsterdam, Holanda, onde fica a sede da entidade. O fato em si não seria tão problemático, sendo corriqueiro entre executivos empresariais de alto nível (e o Greenpeace funciona como uma “multinacional verde”), exceto pelo detalhe de que o Greenpeace tem como uma de suas atividades principais o combate às emissões de carbono supostamente responsáveis pelo “aquecimento global”. Uma das bandeiras da ONG é a de que os executivos europeus evitem os aviões para distâncias inferiores a 1.000 quilômetros, preferindo utilizar o eficiente sistema ferroviário continental. O detalhe interessante é que a família de Husting está a apenas 359 quilômetros de Amsterdam.

Em entrevista ao jornal espanhol El País (28/06/2014), Husting justificou a preferência pelo transporte aéreo, alegando que “ir de trem me custa 12 horas, porque cruzo três países, mas agora compreendo que foi um engano. (…) Peço desculpas a todos os que nos apoiam”.

Husting trabalha no Greenpeace há 20 anos e é ex-diretor da ONG na França. Atualmente, coordena a descentralização da entidade, que pretende esvaziar a sua sede na Holanda para concentrar as atividades em outros países, sempre com o seu enfoque contrário a projetos e atividades econômicas importantes, alegadamente, por promoverem as “mudanças climáticas”.

“Teremos escritórios em Washington, Taipé, Roma, Sydney, Hong Kong ou Copenhague, entre outras, mas levou mais tempo de que eu pensava para pôr isso em prática. De uma organização baseada na Holanda, passaremos a ser uma rede global. Nosso pessoal trabalhará de outra forma e, esta semana, eu pegarei o meu último voo. Depois, usarei o trem. A sacudida das críticas, que foram muitas, serviu de incentivo para acelerar as mudanças”, disse ele.

O novo escândalo aprofunda o descrédito e a desmoralização do Greenpeace, o que se reflete no fato de que a ONG já perdeu 454 mil doadores em todo o mundo. Até mesmo aliados da entidade, como Egbert Tellegen, um dos figurões do ambientalismo internacional e membro da ONG Milieu Defensie (braço holandês dos Friends of the Earth), fizeram críticas públicas à organização. Apesar de considerar o caso do prejuízo multimilionário com a especulação financeira como um caso menor, Tellegen afirmou que “o caso dos aviões mostra a falta de atitude crítica ante esse tipo de contaminação. Mas o Greenpeace não é o único. Há cientistas muito comprometidos que não fazem nada mais do que voar para denunciar como se destrói o ambiente. Falta modéstia no mundo do meio ambiente, seja em universidades, governos ou grupos ecologistas”.

Outro “fogo amigo” partiu de Jan Paul van Soest, assessor de sustentabilidade para entidades públicas e privadas na Holanda, que disse temer que o dinheiro arrecadado pelo Greenpeace e desperdiçado por manobras financeiras desastrosas seja reflexo da má administração da ONG: “As pessoas podem pensar que o Greenpeace perdeu o norte, quando a transferência de cifras nada tem a ver com os seus objetivos. (…) Pode-se ser uma empresa de âmbito internacional com uma missão social, mas é preciso saber administrá-la. A exigência de transparência aumentou para qualquer organização, e eles não podem ficar atrás.”

Segundo a revista alemã Der Spiegel, as transações especulativas do Greenpeace foram feitas por meio da Monex Europe, entidade financeira com sede no Reino Unido e subsidiária da Holding Monex mexicana. Segundo a publicação, o Greenpeace teve ciência de que tais iniciativas eram um erro já em 2013, mas optou por manter segredo até que os resultados da auditoria realizada pela empresa estadunidense KPMG fossem divulgados, o que deve ocorrer no relatório anual, previsto para este mês.

Um membro do Instituto de Relações Internacionais Clingendael, consultado pelo El Pais, deu uma visão que espelha a percepção dos principais promotores do ambientalismo no mundo sobre os recentes fatos controversos envolvendo o Greenpeace: “Vemos as ONGs, especialmente as mais conhecidas – Greenpeace, Anistia Internacional ou Human Rights Watch -, como a consciência coletiva da sociedade. Não notamos que elas se transformaram – eram grupos de pressão de fora do sistema, mas passaram a fazer parte dele. (…) O Greenpeace já é adulto e o seu desejo de melhorar o mundo não é incompatível com os controles de qualidade que ele exige dos outros. (…) Em um cenário onde os estados só podem trabalhar em colaboração com outros atores internacionais, entre eles as ONGs, não se pode colocar o dedo no olho, sem pensar que se está também na mira do público.” 




One comment

  1. E isto é pouco, perto dos crimes cometidos em todo o mundo por esta organização anti-humana:

    http://townhall.com/columnists/pauldriessen/2014/07/15/greenpeace-showcases-its-antihuman-side-n1862066

    São na verdade criminosos.

    JFB

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