Nobres selvagens e a Antropologia do atraso

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A Antropologia brasileira representa o que há de mais atrasado no pensamento científico neste campo. A afirmativa é de um veterano da área, o antropólogo estadunidense Napoleon Chagnon, em entrevista à Folha de S. Paulo (22/02/2015), a propósito do lançamento da edição nacional do seu último livro,Nobres selvagens: minha vida entre duas tribos perigosas: os ianomâmis e os antropólogos (Editora Três Estrelas, 2015) – cujo título já proporciona uma boa ideia do que os seus leitores poderão esperar. Nele, o polêmico cientista, professor das universidades de Columbia e Missouri, traz novas conclusões de suas pesquisas com índios ianomâmis, que habitam a região da fronteira com a Venezuela, no Norte do País, e desanca os antropólogos nacionais e sua visão idílica e ideológica dos indígenas.

Chagnon estuda os ianomâmis do Brasil e da Venezuela desde 1964, e em um período de 35 anos, no qual fez 25 viagens à região habitada por esses índios, fez contatos pioneiros com diversas tribos isoladas – que enxerga como sendo uma janela para as sociedades pré-históricas. Sem surpresa, ele passou a ser antipatizado por diversos colegas de profissão, ao publicar em 1968 o livro Yanomamö: The Fierce People (“Ianomâmis: o povo feroz”, não lançado no Brasil), no qual tratou amplamente da violência entre os índios, rompendo com a imagem idealizada do “bom selvagem” vendida à opinião pública pelos antropólogos e indigenistas.

De fato, Chagnon se afastou da corrente principal da antropologia indigenista ao longo de sua carreira, pois acredita que muitos de seus colegas estão mais interessados em fazer política do que ciência, e acabou se aproximando dos geneticistas. Segundo ele, os seus críticos são marxistas, que crêem que todos os conflitos humanos se explicam pela luta de classes ou por disputas materiais, e não por motivos mais animalescos, como a procura pelo sucesso sexual. O antropólogo, no entanto, assegura que nenhum dos seus críticos conseguiu apontar falhas nos seus dados, publicados na revista Science em 1988, quando mostrou que os homens ianomâmis que haviam cometido assassinatos eram os que mais tinham mulheres e descendentes – e que a vontade de capturar mulheres era o que motivava a violência entre os índios.

Segundo ele:

A ideia de que o comportamento humano tem uma natureza biológica, moldada pela evolução, além da cultura, sofreu muita oposição nas últimas décadas de quem tem uma visão marxista. Está havendo uma mudança de paradigma, mas os antropólogos brasileiros são o último reduto dessa oposição e sempre tentaram impedir meu trabalho.

Marxistas não gostam de explicações que não envolvam a luta por recursos materiais. Para eles, isso explica tudo. Eles diziam, por exemplo, que a causa da guerra entre os ianomâmis era a escassez de proteína – uma tribo atacaria a outra em busca de carne. Nossas observações mostraram, porém, que não havia correlação. Eles tinham abundância de proteína; lutavam, na verdade, por mulheres.

Chagnon ainda acusou os antropólogos latino-americanos de não gostarem de trabalho de campo:

Eles gostam de argumentos teóricos, de ficar sentados nas suas cadeiras na universidade fazendo ativismo. No entanto, para entender o mundo, você tem de coletar informações a fim de testar suas previsões e teorias. Essa é a base do método científico. A tendência pós-modernista é dizer que não há verdade, que tudo é social ou político. Isso é a morte da ciência.

Um dos alvos de suas críticas é líder ianomâmi Davi Kopenawa, a quem acusou de ser manipulado por seus mentores e conselheiros políticos (a maioria antropólogos e representantes de ONGs), que ditam tudo o que ele deve declarar. Segundo ele, muitos jornalistas brasileiros compartilham de sua percepção sobre Kopenawa, pelo fato de as suas entrevistas costumarem ser “mediadas” por antropólogos, mas sabem que seria impopular afirmar tais impressões publicamente.

Chagnon também respondeu às críticas de Davi Kopenawa sobre a não devolução de amostras de sangue coletadas entre os ianomâmis, em 1967, para estudos científicos genéticos, e que estão em bancos de universidades estadunidenses. O antropólogo mostrou-se “simpático a esse pedido”, mas destacou que 99% das amostras coletadas são de tribos venezuelanas e que seria “irresponsável” entregá-los a ianomâmis brasileiros, como Kopenawa: “Uma tribo ficaria muito assustada de saber que seus vizinhos têm o sangue de seus ancestrais, eles acreditam que isso poderia ser utilizado para fazer magia negra, por exemplo.”

O antropólogo afirmou que as lideranças ianomâmis, sob influência de antropólogos indigenistas, tornaram impossível a coleta de sangue de índios por qualquer pesquisador na atualidade, pois foram convencidos de que isso seria um crime terrível cometido por estudiosos no passado. Esta posição radical impede que pesquisadores da área biomédica possam fazer estudos que possam beneficiar a saúde dos ianomâmis e que dependam de exames de sangue.

Por fim, Chagnon afirmou gostar “muito dos ianomâmis”, mas criticou as suas lideranças, destacando que esses índios merecem “merecem ser mais bem representados. É nítido que eles precisam de instituições que permitam acesso à medicina moderna, por exemplo. Eles precisam de ajuda”.

Como seria de se esperar, Chagnon tem sido alvo de intensos ataques de antropólogos, indigenistas e simpatizantes. Em 2000, ele e outros colegas foram acusados pelo jornalista Patrick Tierney, no livro Trevas no Eldorado (Editora Ediouro, 2002), de terem transmitido sarampo deliberadamente aos ianomâmis. No entanto, a acusação foi investigada pela Associação Americana de Antropologia, que inocentou Chagnon e os demais pesquisadores citados.

Mais recentemente, ele foi atacado pelo cineasta brasileiro José Padilha, no seu documentário Os segredos da tribo(2010). Segundo Chagnon, Padilha lhe prometeu fazer um “filme equilibrado”, mas realizou entrevistas com ianomâmis direcionadas contra ele, de modo a criar a impressão de que os índios o odiavam. O antropólogo assegurou ainda que Padilha recusou-se a atender as suas ligações, após o lançamento do documentário e, na apresentação do filme no festival de Sundance (EUA), convidou apenas desafetos de Chagnon para o debate – dentre os quais Terence Turner, que o acusou de ser “o Mengele das tribos ianomâmis”.

Chagnon encerrou a entrevista assegurando que, mesmo aos 78 anos, segue muito ativo e que se “os antropólogos brasileiros não gostam do meu trabalho, ainda não viram nada [risos]”. Ele afirmou ainda que está para publicar vários artigos em revistas importantes, como a Science, mostrando o impacto de conceitos da biologia, como o parentesco, na organização tribal dos ianomâmis. Tais estudos serão muito bem vindos em uma área do conhecimento onde a ideologia tem sido muito valorizada, em detrimento da Ciência.

2 comments

  1. Ele podia voltar para onde ele veio, estamos cheios de ongs e de cientistas piratas que nos roubam e implantam pragas no nosso país. Depois que os americanos destruíram a sua biodiversidade e a própria população indígena ficam se arvorando em dar lições no terceiro mundo. Faça-me o favor.

  2. O reportagem filmado pela jornalista brasileira Sandra Terena titulado QUEBRANDO O SILENCIO merece atencao. O pai da jornalista e indigena terena. No documentario tambem aparecem indigenas brasileiros com formacao academica. O objetivo a convencer a outros indigenas brasileiros de acabar com a tradicao do infanticidio. Para entender o que escrevem os indigenas nos EUA para comunicar-se, consulta INDIAN COUNTRY TODAY. Um film documentando problemas contemporaneos nas reservas indigenas dos EUA: “A Kind Hearted Woman PBS”. —- A “genetica” somente e um fator parcial. Veja : DR. YVETTE ROUBIDEAUX , indigena Sioux duma reserva em South Dakota: Professora de Medicina, Diretora do “Indian Health Service” con 2,000 medicos indigenas financiado ao ano com $ 4 bilhoes, para servicio de saude (con deficiencia) de 2 milhoes de indios e esquimales. O compositor de boleros romanticos (500+) mas conhecido, um indigena Maya de Yucatao/Mexico ARMANDO MANZANERO , veja youtube video titulado DOMINGO MANZANERO MIA. — Indio pode: Veja youtube video ESPERANZA AZTECA PRELUDIO TE DEUM: Solista filarmonico idade 5 !

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