No Foro de São Petersburgo, Rússia aponta novo caminho para civilização

A 24ª edição do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo (SPIEF, na sigla em inglês), em 2-5 de junho, demonstrou a centralidade da Rússia na reorganização do sistema econômico e de poder global, proporcionando um palco para que políticos, empresários e acadêmicos russos compartilhassem com colegas de dezenas de países uma visão que denota um entendimento dos problemas mundiais incomparavelmente mais aguçado do que o oferecido nos convescotes das elites “globalistas” no Fórum Econômico Mundial (WEF), atualmente engajados no delirante cenário do “Grande Reset”.

Como na sua contraparte de Davos, os participantes do Fórum de São Petersburgo demonstraram uma grande preocupação com o formato da economia pós-pandemia, mas o foco da maioria das apresentações foi a economia real e os seres humanos que a representam. Como afirmou o assessor do presidente Vladimir Putin, Maxim Oreshkin: “Estamos vendo, agora, uma profunda transformação ao redor do mundo, que continuará globalmente durante décadas. Esta é uma revolução de ecossistema – rumo a uma economia construída em torno de consumidores, em torno de pessoas. Não é mais algum tipo de produto que está no centro da economia – isto é secundário. As pessoas e suas necessidades estão em primeiro lugar.”

Ou, em oportuno contraponto, o presidente do conselho assessor da Câmara de Comércio Russo-Britânica, Charles Hendry: “O desafio que enfrentamos é que a política afasta as pessoas, e o nosso mundo está horrivelmente dividido. Estamos nos movendo na direção errada. Como se constroem pontes entre as pessoas? Nós precisamos encontrar novas maneiras de construir essas pontes.”

No Ocidente, que costuma ignorá-lo, praticamente, o SPIEF só foi notado pelas repercussões da afirmativa do ministro da Fazenda russo, Anton Siluanov, de que seu país pretende “zerar” os ativos em dólares do fundo soberano nacional, mantendo as suas reservas em euros, yuans, ienes, libras esterlinas e ouro. Mais uma evidência da determinação russa de dar adeus ao sistema financeiro baseado no dólar estadunidense. Este ano, menos de 50% das exportações russas foram efetuadas em dólares.

Em realidade, o SPIEF funciona como uma ponta-de-lança da diplomacia russa para reforçar o impulso de transformação da ordem mundial para um marco cooperativo e não hegemônico entre Estados nacionais soberanos com direitos equivalentes.

Em uma conferência proferida em Moscou, em 9 de junho, após a conclusão do Fórum de São Petersburgo, o chanceler Sergei Lavrov afirmou que a Rússia é plenamente consciente do seu poderio militar e da sua influência mundial, mas não tem qualquer pretensão de impor a sua visão do mundo a outras nações: “Não temos o fervor messiânico com o qual nossos colegas do Ocidente estão tentando espalhar a sua ‘agenda democrática baseada em valores’ por todo o planeta. Há tempos, está claro para nós que a imposição de fora de um certo modelo de desenvolvimento não produz nada de bom (RT, 09/06/2021).”

Em uma entrevista com representantes de agências de noticias internacionais, realizada no âmbito do Fórum, o presidente Vladimir Putin fez uma referência direta aos Estados Unidos, que, segundo ele, estão atuando como um império e seguindo os passos da antiga União Soviética:

Eu lhes direi, como cidadão da ex-União Soviética. Qual é o problema dos impérios? Eles se acham tão poderosos que podem se dar ao luxo de cometer pequenos erros e falhas. Que podem comprar alguns, amedrontar outros, fazer acordos com terceiros, dar presentes a outros, ameaçar outros ainda com navios de guerra. Pensam que isso resolverá seus problemas. Mas a quantidade de problemas está crescendo. Chega o momento em que já não conseguem lidar com eles. Os Estados Unidos estão, em passo seguro, em passo firme, seguindo claramente o caminho da União Soviética (Sputnik Brasil, 05/06/2021).

Em essência, para qualquer observador minimamente atento e objetivo do cenário mundial, é difícil subestimar o peso da Federação Russa na reconfiguração da ordem de poder global em curso. De fato, o mundo encontra-se em meio a uma autêntica repaginação civilizatória, com a perspectiva de consolidação de um novo paradigma de relações internacionais baseado na cooperação para o desenvolvimento e no respeito às soberanias e às aspirações nacionais, em um marco multipolar de potências com certo peso específico, em contraposição ao marco hegemônico unipolar centrado na superpotência estadunidense e seus tentáculos na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Apesar de a China caminhar a passos largos para tornar-se a maior economia e ser a força propulsora da integração física e econômica do eixo eurasiático, o novo centro de gravidade geoeconômico e geoestratégico do planeta, a Rússia, com um décimo da população e um oitavo do PIB (Produto Interno Bruto) chinês, mas com a prerrogativa de ser uma potência cristã genuinamente eurasiática e impulsionada por um verdadeiro renascimento espiritual no período pós-soviético, tem sido uma catalisadora fundamental para as transformações globais.

A propósito, as duas potências têm desenvolvido um entendimento cada vez mais estreito na construção do novo paradigma “ganha-ganha”, em oposição aos jogos geopolíticos de “soma zero” característicos do moribundo molde unipolar. Não é por outro motivo que ambas são rotuladas como “potências revisionistas” pelos centros de poder de Washington e seus prepostos em Londres e Bruxelas.

Por suas idiossincrasias históricas, a Rússia tem sido mais “pró-ativa” na contestação ao quadro unipolar, enquanto a China atua com perfil mais baixo, por conta da suas relações econômico-financeiras simbióticas com os EUA. A ação de Moscou tem sido determinante, por exemplo, no Oriente Médio, onde a sua intervenção militar em favor do governo da Síria, em 2015, foi crucial para impedir o domínio do país pelas hordas jihadistas mobilizadas pelos EUA e seus aliados da OTAN, como parte de um plano para derrubar os governos seculares dos países islâmicos da região, sempre de olho nos seus vastos recursos naturais. Neste particular, é notável o contraste entre a normalização gradual da vida no país, refletida na recente realização de eleições presidenciais – com a reeleição de Bashar al-Assad – e o fato de os EUA se obstinarem em manter uma presença militar em um terço do território sírio, sob o pretexto do “combate ao terrorismo”.

Vale registrar que a Rússia tem mantido relações construtivas com praticamente todos os países da região, inclusive Israel, a despeito do belicismo permanente de Tel Aviv contra a Síria e o Irã, que têm tido papéis vitais no redesenho do Grande Oriente Médio.

Da mesma forma, Moscou e a Igreja Ortodoxa Russa têm envidado esforços para reduzir a dramática “descristianização” do Oriente Médio, tendência que teve início com a destruição do Iraque de Saddam Hussein e prosseguiu com a emergência do jihadismo sintético do Estado Islâmico, criação dos serviços de inteligência da OTAN. Tal preocupação tem sido um dos fatores relevantes da aproximação entre o Kremlin e o Patriarcado de Moscou e o Vaticano.

No campo da diplomacia econômica, Moscou acaba de marcar um ponto de grande importância com a virtual conclusão do gasoduto Nord Stream 2 (Rússia-Alemanha), alvo de uma acirrada campanha de pressões contrárias por parte de Washington. De forma emblemática, o secretário de Estado estadunidense Antony Blinken admitiu que seu governo considera a construção como “um fato consumado” (RT, 07/06/2021). Agora, afirmou, a intenção de Washington é assegurar, junto à Alemanha, o que será possível fazer para “garantir” que a Rússia mantenha o pagamento das taxas de trânsito à Ucrânia pelo uso do seu território para a passagem da rede de gasodutos que leva gás natural russo a vários países europeus. Mas, claro, para não perder a pose, Blinken disse também que seu governo se reserva o direito de reconsiderar a decisão de não impor sanções à operadora Nord Stream 2.

Igualmente, a Rússia tem se destacado na campanha global contra a pandemia de Covid-19, com a pronta disponibilidade da vacina Sputnik V, já aprovada em mais de 66 países – aos quais o Brasil acaba de se juntar -, inclusive, com a assinatura de acordos de transferência de tecnologia com vários deles. Uma das mais eficientes e de melhor custo/benefício disponíveis, a vacina russa foi adquirida até mesmo por países europeus que não esperaram o aval da União Europeia – invariavelmente, acorrentada aos fantasmas da Guerra Fria -, casos da Hungria, Áustria, Eslováquia, Polônia e Dinamarca.

Pelo exposto, foi de suma relevância a participação do presidente brasileiro Jair Bolsonaro no evento, como referido em outra nota neste sítio.

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