Bolsonaro no Fórum de São Petersburgo: importante guinada diplomática

A participação do presidente Jair Bolsonaro na 24ª edição do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo (SPIEF) foi a primeira de um chefe de Estado brasileiro. O fato reveste-se de grande importância para o que parece configurar uma guinada diplomática potencialmente crucial para o Brasil, até há pouco prisioneiro de  uma política externa pautada pelas delirantes idiossincrasias do ex-chanceler Ernesto Araújo, discípulo do “guru” Olavo de Carvalho e aferrado a um virtual alinhamento automático com os Estados Unidos de Donald Trump, por ele considerado como o “salvador” da civilização ocidental.

Do lado russo, o convite ao presidente brasileiro denota a importância atribuída ao aprofundamento de laços políticos e econômicos com países de grande relevância potencial para o estabelecimento da nova ordem global cooperativa e não hegemônica, que Moscou vem se empenhando em consolidar a partir do eixo eurasiático compartilhado com a China. Os outros chefes de Estado e governo convidados foram o presidente argentino Alberto Fernández, o chanceler austríaco Sebastian Kurz e o emir do Catar, Tamim bin Hamad Al-Thani. Kurz participou em pessoa e Al-Thani, por conferência de vídeo, enquanto os sul-americanos enviaram mensagens de vídeo.

Em sua mensagem, Bolsonaro ressaltou a importância estratégica do SPIEF como vetor do impulso construtivo russo:

Agradeço o convite do Presidente Putin para participar deste Fórum, que é o principal evento de economia e negócios de toda a Eurásia. Felicito sua realização como parte do esforço internacional de resposta à tripla urgência de reconstruir a saúde, a economia e a sustentabilidade globais.

O Fórum de São Petersburgo é a caixa de ressonância da nova paisagem geopolítica e geoeconômica em construção na Eurásia, região de importância decisiva e crescente, no epicentro das grandes transformações do mundo de hoje.

No contexto dos desafios da recuperação econômica impostos pela pandemia, o Fórum contribui para a criação de novas parcerias e para a consolidação de antigos vínculos, fundamentais na construção de um futuro próspero e ambientalmente sustentável (Presidência da República, 04/06/2021).

E destacou a intenção do Brasil de “expandir e aprofundar as relações de amizade e cooperação com todos os países da região euroasiática, em particular com nosso anfitrião, a Rússia, parceira de longa data de meu País”.

Em relação às perspectivas de ampliação dos intercâmbios comerciais, Bolsonaro ressaltou a posição brasileira como grande produtor de alimentos, capaz de “garantir a segurança alimentar de um sexto da população mundial”.

E colocou o dedo na questão ambiental, que tem motivado toda sorte de contenciosos com as potências hegemônicas ocidentais, capitaneadas pelos EUA e a União Europeia (UE): “A agricultura brasileira atende aos mais altos requisitos sanitários e de sustentabilidade. Apenas 27% de nosso território é utilizado pelo agronegócio. Temos orgulho de conservar 84% de nosso bioma amazônico e 66% de nossa vegetação nativa.”

Depois de mencionar que o Brasil é o maior importador de fertilizantes russos, Bolsonaro apontou para o aspecto crucial da cooperação tecnológica:

Mas há amplo potencial para diversificar nossa pauta comercial. O comércio entre Brasil e Rússia pode e deve incorporar o alto grau de desenvolvimento de nossas economias, de modo a abranger produtos de maior valor agregado em proporções crescentes. (…)

Continuemos trabalhando juntos para desenvolver a parceria tecnológica entre nossos países e expandir as parcerias nas áreas de defesa, espaço, energia e saúde. O Brasil está aberto a novas oportunidades de cooperação em alta tecnologia, a exemplo da nanotecnologia e materiais avançados, da inteligência artificial e da biotecnologia [grifos nossos].

A participação de Bolsonaro no SPIEF se dá em um momento de definições para o Brasil, sob o fogo cerrado das ingerências do governo dos EUA e da UE na formulação de políticas sobre a estratégica Região Amazônica, como parte de um empenho para enquadrar unilateralmente o País na agenda da “descarbonização econômica”, da qual o governo do presidente Joe Biden se apresenta como um campeão global. Interferência que, da parte de Washington, não ocorria desde o governo de Jimmy Carter (1977-1981) em torno da questão dos “direitos humanos”, levando o presidente Ernesto Geisel (1974-1979) a romper o acordo militar com os EUA, vigente desde o início da década de 1950.

De grande relevância para esse contexto foi a realização da conferência de chanceleres do grupo BRICS (em formato de videoconferência), na qual foi decidida a implementação imediata de um Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Vacinas, que será detalhada na reunião dos ministros da saúde do grupo, em julho (Poder360, 02/06/2021).

Igualmente, a declaração final do encontro ressaltou o comprometimento do grupo com o multilateralismo como vetor fundamental de uma ordem baseada na “cooperação mutuamente benéfica”: “O multilateralismo deve promover o direito internacional, a democracia, a equidade e a justiça, o respeito mútuo, o direito ao desenvolvimento e a não intervenção nos assuntos internos de qualquer país, sem critérios duplos (MRE, 01/06/2021).”

A se confirmar a guinada diplomática, o País estará dando um grande passo para colocar o seu enorme peso específico em favor do impulso de consolidação do ordenamento internacional cooperativo e não hegemônico que está sendo construído a partir da Eurásia, para o qual o Brasil poderá representar um poderoso elemento agregador na região sul-americana.

x

Check Also

Brasil: hora de pensar diferente

Os últimos números da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar (PNAD) sinalizam os tempos tempestuosos que ...