No Canadá, comunidades indígenas se revoltam contra o neocolonialismo ambiental

Matthew Ehret*

N. dos E. – O presente artigo foi originalmente publicado no sítio da Strategic Culture Foundation. A sua publicação neste Alerta tem como objetivo mostrar aos leitores nacionais que o Brasil não é o único país a ter problemas com as novas formas de colonialismo disfarçadas de “boas intenções” ambientalistas e indigenistas. Pela sua leitura, depreende-se que os componentes canadenses do Establishment anglo-americano tiveram uma larga experiência prática com a promoção do ambientalismo-indigenismo, antes de atuarem ativamente para implementá-lo no Brasil, a partir da década de 1980.

Nas últimas semanas, a luta pela construção de um gasoduto de 670 km e 6,6 bilhões de dólares, para transportar gás natural liquefeito (GNL), da província de Alberta a portos da Colúmbia Britânica, ganhou as manchetes nacionais no Canadá e tem prejudicado um importante componente da economia do país. Por mais popular que seja uma manchete, a história não é exatamente o que parece. A grande mídia tem manifestado uma tendência a distorcer fatos importantes, para ocultar a realidade da disputa estratégica que se vincula diretamente à participação do Canadá na Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, em inglês) da China, bem como a um esforço sistêmico para manter as comunidades nativas do Canadá na miséria, pobreza e dependência, sob um dúbio nó górdio de “eco-colonialismo” que teve início há mais de 70 anos.

Porém, antes de desfazermos esse nó, precisamos estabelecer quatro fatos verdadeiros da história relatada pela grande mídia:

Fato 1: Os protestos, que começaram na Colúmbia Britânica em solidariedade à tribo Wet’uweten, em cujas terras passa o gasoduto Coastal GasLink, se espalharam pela Costa Leste e o Centro do Canadá.

Fato 2: Centenas de linhas de tráfego ferroviário de carga, bem como ferrovias federais e municipais de passageiros, pontes e estradas em todo o Canadá foram fechadas por manifestantes.

Fato 3: A crise atingiu um nível de intensidade tal, que o primeiro-ministro Justin Trudeau se viu forçado a cancelar a sua campanha internacional para obter o apoio de países pobres, em sua tentativa de colocar o Canadá no Conselho de Segurança da ONU, e retornar para enfrentar o problema.

Fato 4: Nem Trudeau, nem qualquer partido da Oposição tem capacidade ou vontade para realmente solucionar o problema.

Aqui, termina a verdade assume a criatividade jornalística.

Falácia imperial: nativos = ambientalistas anticapitalistas

A maioria dos órgãos de imprensa que tratam dessa história tenta transmitir a ideia de que comunidades nativas do Canadá estão lutando contra grandes conglomerados petrolíferos, em defesa da Mãe-Natureza. Eles tentam retratar as Primeiras Nações do Canadá [denominação geral oficial dos povos indígenas do país – n.e.], como se estivessem agindo unanimemente em oposição a mais um estupro de suas terras por capitalistas ocidentais que estão destruindo o meio ambiente.

No entanto, ao aprofundar-nos na dinâmica e no longo arco da história que molda os problemas de subdesenvolvimento do Canadá e as epidemias de drogas, desemprego e suicídio entre os nativos, surge um quadro muito diferente.

A primeira rachadura na narrativa popular me impressionou quando ouvi Keean Bexte, da Rebel Media, perguntar a um punhado de manifestantes contra o gasoduto em Alberta, por que eles não estavam respeitando o voto democrático dos conselhos das Primeiras Nações, que apóiam o projeto. Certamente, o entrevistador deve ser apenas mais um direitista mentindo para defender as grandes petroleiras!

Não, não estou mentindo. Não apenas todos os chefes eleitos que representam os 20 grupos em cujo território o gasoduto será construído votaram em peso a favor do projeto, mas cinco dos seis grupos nacionais eleitos dos Wet’Suet também votaram a favor. O único ponto de resistência, que alimentou os bloqueios em todo o país, veio de cinco dos 13 chefes hereditários que votaram contra.

O fato de a maioria dos manifestantes entrevistados pela Rebel News não ser nativa foi outra anomalia que não ocorreu apenas em Alberta, mas em todo o Canadá. Em caso após caso, constatou-se que a grande maioria dos organizadores dos bloqueios era formada por estudantes universitários de inclinação “ecoanarquista” implantada nos departamentos de Sociologia de universidades de Ontario e Quebec, com muito pouca consciência das questões nativas genuínas ou mesmo uma consciência do que, eventualmente, estará fluindo pelos dutos; a maioria dos entrevistados presumia que a resposta fosse “petróleo” – algo bem diferente do GNL.

Então, o que os verdadeiros nativos dizem sobre esse projeto?

Troy Young, um líder da juventude Wet’uen, afirmou: “Se os ambientalistas forem bem-sucedidos, será uma das maiores apropriações culturais da história da Colúmbia Britânica.”

A conselheira das Primeiras Nações, Karen Ogen Toews, uma das fundadoras da Aliança das Primeiras Nações para o GNL (First Nations LNG), declarou: “Se o nosso povo está vivendo na pobreza, a maneira de superá-la é por meio de qualificação adequada, educação profissional e empregos. Minha consciência está limpa.”

Crystal Smith, conselheiro-chefe da Nação Haisla, disse: “As Primeiras Nações ficaram de fora do desenvolvimento de recursos por muito tempo, mas [neste projeto] estamos envolvidos. Fomos consultados e garantiremos que haja benefícios para todas as Primeiras Nações. Estou cansado de gerenciar a pobreza. Estou cansado de comunidades das Primeiras Nações terem que lidar com questões como suicídio, baixo desemprego ou oportunidades educacionais. Se essa oportunidade for perdida, ela não voltará.”

Esses testemunhos começam a abordar, realmente, a questão real em pauta: a luta pela independência econômica e a dignidade das comunidades nativas, que têm sido sistematicamente obstaculizadas desde a Lei Indígena de 1876 (1876 Indian Act).

Subdesenvolvimento do Canadá

Mais de um século de neocolonialismo resultou no fato de o Canadá, a segunda maior nação do mundo, ter menos habitantes que a área metropolitana de Tóquio, 80% dos quais concentrados em apenas seis cidades situadas dentro de 100 km da fronteira com os EUA.

Os inuítes estavam começando a emergir na sociedade industrial moderna, durante e após a II Guerra Mundial, como observou um relatório da Comissão Real de 1994 sobre a história do relacionamento do Canadá com os inuítes:

O efeito da melhoria da assistência médica introduzida após a II Guerra Mundial foi que a taxa de mortalidade começou a declinar e a população inuíte, entre meados e o final da década de 1950, começou a aumentar gradualmente… Em Inukjuak, havia um posto de saúde, uma igreja, uma escola, um posto de comércio de peles, uma loja, um porto etc. Então, lentamente, os esquimós estavam se tornando parte de toda a sociedade. Mesmo que a maioria das pessoas ainda estivesse caçando, esta não era sua principal fonte de alimento. Muitos estavam recebendo algum tipo de benefício, como salário, abono de família ou pagamentos de seguridade para idosos, como todos os outros canadenses que se beneficiam da rede universal de seguridade social.

Na mente do Império Britânico, essa trajetória tinha que parar, e uma operação foi montada em 1953, no gabinete do Conselho Privado, e aplicada pela RCMP [Real Polícia Montada do Canadá], para convencer os nativos de que a tecnologia ocidental era incompatível com os seus ecossistemas culturais naturais, sendo cada vez mais incentivados a viver em reservas bastante fora da esfera do resto da vida econômica da América do Norte. De acordo com esse raciocínio, nenhuma habilidade ou educação avançada seria necessária em seus estilos de vida “naturais” de caçadores-coletores. Assim como com a política neocolonial do pós-guerra em relação à África, foram oferecidos baldes de incentivos monetários e fiscais… desde que os inuítes permanecessem em suas reservas e parassem de tentar desenvolver padrões de vida mais altos ou acreditar que deveriam tentar se integrar à sociedade ocidental.

O Projeto de Realocação do Alto Ártico

Essa política racista assumiu a forma do projeto de Realocação do Alto Ártico de 1953-1958, supervisionado pela RCMP, com o qual as famílias de Inukjuak, em Quebec, eram transportadas para os desabitados fiordes Grise, na Ilha Ellesmere, e Resolute, nas Ilhas Cornwallis. Esses inuítes foram informados de que tinham que ser “reabilitados” em seus “ecossistemas nômades naturais”, e eles sofreram muito. No referido relatório da Comissão Real de 1994 sobre o projeto, um idoso oficial da RCMP disse que “não entendia por que os inuítes não recebiam alojamentos na base para morar e por que os fartos alimentos disponíveis na base não foram disponibilizado para eles”. O relatório prosseguia: “Os militares foram informados de que os inuítes estavam lá para se reabilitarem… para aprenderem a sobreviver por conta própria e voltar ao seu antigo modo de vida. O projeto era para ver se eles poderiam sobreviver naquele ambiente do Alto Ártico, onde os inuítes haviam vivido em épocas anteriores… Temperaturas de -55oF [-48ºC] eram comuns no inverno.”

Em 1987, as famílias sobreviventes e seus filhos entraram com uma ação contra o Governo Federal, afirmando que “existem evidências esmagadoras de que a principal razão, se não a única, para a mudança de inuítes para o Alto Ártico, era o desejo do Canadá de reivindicar os seus direitos à soberania sobre as Ilhas do Ártico e arredores”.

Jogando os inuítes no Grande Tabuleiro de Xadrez

 O uso e abuso dessas famílias inuítes denotam o papel perverso do Canadá no grande tabuleiro de xadrez do Império Britânico. Apesar de o fato não ser muito apreciado hoje em dia, o Império Britânico (como agora) sempre procurou sabotar o crescimento industrial (e, portanto, a independência econômica) dos Estados soberanos. Depois que os aliados russos do “Sistema Americano” de Abraham Lincoln venderam o Alasca para os EUA, em 1867, e construíram depois a ferrovia Transiberiana, a oligarquia financeira britânica ficou mortalmente temerosa da forte intenção estratégica compartilhada por patriotas russos e estadunidenses, de conectar os continentes asiático e americano através do corredor do Estreito de Bering. Então, o papel dos nativos canadenses tornou-se extremamente vital para obstruir esse processo.

Durante a II Guerra Mundial, o vice-presidente estadunidense Henry Wallace informou o chanceler soviético Viatcheslav Molotov da intenção de construir essa ligação ferroviária/rodoviária entre os dois continentes, recebendo um apoio entusiástico. Embora a Guerra Fria tenha inviabilizado a iniciativa, os planos estadunidenses de desenvolver o Ártico prosseguiram, com o estabelecimento da rede de radar DEW [Distant Early Warning – Primeiro Aviso Distante] e estratégias de exploração de recursos naturais, apoiadas por estadistas como os canadenses C.D. Howe (que foi “ministro federal de Tudo”) e W.A.C. Bennett (premier da Colúmbia Britânica, 1952-1972). Como o Canadá não tinha população no Alto Ártico, as reivindicações estadunidenses sobre o território ártico eram bastante fortes e, nas mentes do “Estado Profundo” canadense, precisavam ser neutralizadas a qualquer custo.

Nesse ambiente venenoso, o Programa de Realocação foi criado para criar “mastros de bandeira humanos”, com o objetivo de legitimar que as reivindicações árticas do Canadá. Embora o primeiro-ministro John Diefenbaker tenha encerrado esse programa racista em 1958 (substituindo-o pelo seu otimista projeto Visão do Norte) e tenha concedido aos nativos o direito de voto, em 1960, ele foi alvo de um golpe parlamentar do “Estado Profundo”, que forçou a sua saída, em 1963.

Desde então, a política dos “mastros de bandeira humanos” evoluiu para um programa “eco-colonial”, designando quase todas as terras do Norte do Canadá como vedadas a qualquer forma de desenvolvimento econômico genuíno. O nome desta política era “gestão de ecossistemas”, a qual impôs uma separação absoluta entre o progresso científico e tecnológico e o suposto “equilíbrio natural” ou homeostase matemática da natureza.

Vale ressaltar que o plano foi colocado em marcha em 1970, pelo pai de Justin Trudeau, Pierre (premier entre 1968-1979 e 1980-84), tendo bloqueado o desenvolvimento dos projetos hidrelétricos implementados sob a liderança de Bennett. Dali, essa doutrina de “apartheid tecnológico” se expandiu, implementada por Maurice Strong, o Clube de Roma, o World Wildlife Fund (WWF), a Munk School of Global Affairs e a Walter and Duncan Gordon Foundation, até hoje dirigida pelo ex-assistente de Pierre Trudeau, Thomas Axworthy.

A destruição de um povo

Hoje, as Primeiras Nações (metis, inuítes e outros grupos indígenas) experimentam taxas de suicídio 300% mais altas do que os não-indígenas. Os inuítes dispersos pelo Ártico encontram-se em maior desvantagem, pois as suas reservas raramente são conectadas a outras reservas por estradas e uma viagem a uma cidade pode custar milhares de dólares. Embora tenham acesso à televisão e ao álcool, há poucos empregos nesses virtuais campos de concentração isolados, uma perspectiva zero de melhoria ou mudança (e, portanto, muito pouco incentivo para se permanecer na escola). Nessas comunidades, as taxas de suicídio são nove vezes mais altas do que entre os não-indígenas, com 72,3 suicídios por 100.000 pessoas (contra oito por 100.000, no Sul do país), sendo particularmente concentradas entre os jovens de 15 a 24 anos. Infelizmente, as mulheres constituem o grupo mais atingido, atingindo uma dramática taxa de suicídios 22 vezes maior que a dos não-indígenas. Em média, o desemprego é cinco vezes maior entre os nativos e, obviamente, o uso de drogas e álcool é tão desenfreado quanto a violência doméstica contra as mulheres.

Essas estatísticas sombrias não são motivadas por qualquer suposta “inferioridade genética” dos povos nativos, como têm argumentado comentaristas racistas ao longo dos anos, mas são os efeitos de uma profunda vitimização cultural causada por gerações que vivem sob a engenharia social colonial britânica.

Para se entender melhor ao que me refiro, é proveitoso comparar a dinâmica cultural relativamente saudável dos inuítes russos, que compartilham muitas semelhanças com os seus parentes canadenses, mas sofrem menos feridas espirituais, abraçando o desenvolvimento tecnológico com muito mais entusiasmo e maior confiança em seus governos do que qualquer coisa vista no Canadá.

A nova Rota da Seda e a independência econômica para todos

Em recente entrevista, Ellis Ross, ex-chefe eleito da tribo Haisa e atual deputado provincial na Colúmbia Britânica, fez um duro ataque ao “eco-colonialismo e descreveu a importância do desenvolvimento do gasoduto:

“Um projeto é construído, então, eu tenho a capacidade de dizer ‘não’ ao financiamento proveniente de Ottawa. Quero dizer que isto é independência!  E sempre foi um sonho meu dizer a Ottawa: ‘Não preciso dos seus 5 a 7 milhões de dólares por ano. Eu posso manejar os meus. Eu posso manejar a minha própria infraestrutura, a minha própria água de esgoto. Eu posso lidar com tudo isso. Eu não preciso de vocês.”

Entrevistador: “Sem as condições que são impostas.”

Ross: “Exatamente! E os castigos! Se você consegue um superávit em qualquer um desses fundos, você é punido. Se você tem um déficit, é punido.”

Se Ottawa realmente se comportasse de um modo a se tornar um Estado nacional verdadeiramente soberano e oferecesse crédito produtivo por meio do Banco Nacional do Canadá, para ajudar as Primeiras Nações a desenvolver os seus recursos econômicos, Ross não teria chegado às conclusões enunciadas na entrevista. No entanto, uma vez que o governo federal canadense tem estado sob o controle de um “Estado Profundo” malthusiano desde a saída de John Diefenbaker, em 1963, apenas empréstimos ao estilo do Fundo Monetário Internacional (FMI), com condicionantes estritos, têm sido oferecidos, mantendo as Primeiras Nações em situação de miséria durante décadas. Por isso, líderes nativos que buscam libertar os seus povos de tais condições se viram inclinados a seguir a abordagem descrita por Ross e pelos 20 grupos que apoiam o gasoduto Coastal Gas Link.

O projeto é inteiramente vinculado à Iniciativa Cinturão e Rota chinesa, que tem evoluído para proporções impressionantes, com grandes projetos de infraestrutura “ganha-ganha” de longo prazo, que já envolve 160 países e segue se ampliando. A principal parceira da China nesta visão para o século XXI é a Rússia, que embarcou em uma extensão da Rota da Seda Polar e tem os seus próprios e ousados ​​planos de desenvolvimento do Ártico, promovidos pelo presidente Putin, que estão influenciando os planos canadenses para a sua própria fronteira Norte não desenvolvida, de maneira semelhante aos planos estadunidenses para o Ártico, nas décadas de 1940-50.

A China tem declarado em várias ocasiões, que deseja colaborar com todos os países no âmbito da BRI, incluindo o Canadá e os EUA! Pequim tem trilhões de dólares para gastar, tecnologia para oferecer e um mercado cada vez maior, ávido por bens e recursos de outras nações ocidentais que desejam escapar do modelo “pós-industrial” de consumismo, dominante desde a mudança de paradigma de 1968. O Canadá poderá capturar essa oportunidade, ou os seus homens de Estado ignorantes da sutil dinâmica prevalecente terão o mesmo destino do bem-intencionado, mas politicamente ingênuo Diefenbaker, que, há seis décadas, não conseguirão levar adiante a sua grandiosa visão para o país?

* O autor é jornalista, conferencista e fundador do sítio Canadian Patriot Review.

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