México: unidade nacional e política como forma superior de caridade

Embora as pesquisas de opinião tenham previsto com bastante precisão o resultado da eleição presidencial no México, o pleito de 1º. de julho demonstrou que o que estava em jogo não era uma mera mudança de governo, mas uma maciça revolta contra um sistema que por mais de duas décadas atrelou o destino do país aos ditames da “Nova Ordem Mundial” decretada pelo presidente estadunidense George H.W. Bush, no início da década de 1990. O resultado foi a imposição a ferro e fogo de um desastroso modelo econômico neoliberal, que trouxe a reboque ataques violentos contra a família e os valores culturais mais preciosos do país.

A troca da orientação favorável à justiça social e ao progresso, que caracterizava o sistema político-econômico mexicano, pela miragem da chamada “modernidade”, teve um desfecho trágico: destruição da soberania política e financeira, corrupção generalizada, o poder paralelo dos carteis de drogas e uma pandemia de miséria, com 54 milhões de pessoas (43,6% da população) na pobreza e clamando por justiça social – quadro que deixou o país à beira da desintegração.

A esmagadora vitória de Andrés Manuel López Obrador (mais conhecido como AMLO), líder do Movimento Nacional de Regeneração (Morena), com 53% dos votos válidos, contra 37% amealhados pelos dois candidatos identificados com o sistema atual, dos tradicionais Partido de Ação Nacional (PAN) e Partido Revolucionário Institucional (PRI), lhe conferem uma forte base de legitimidade para promover uma mudança histórica, reforçada por uma base parlamentar sem precedentes, com maioria na Câmara dos Deputados e no Senado, além de dez dos 31 governadores de estados.

Tal legitimidade abre-lhe a possibilidade de promover a unidade do país, condição sine qua non para enfrentar a monumental tarefa de reconstrução econômica e moral de uma nação devastada. Unidade há muito ansiada, e que não poderá deixar pendente a reversão das desintegradoras políticas malthusianas do aborto e da ideologia de gênero – que atingem os aspectos mais profundos da alma mexicana –, presentes nos temas eleitorais e reconhecidamente promovidas do exterior pelo conglomerado financeiro mundial, no caso, representado pelo megaespeculador George Soros e suas abastadas fundações “filantrópicas”.

O reconhecimento da virtual união nacional ficou evidenciado já na noite de 1º de julho, quando, mesmo antes do anúncio oficial dos resultados, os dois candidatos derrotados se anteciparam em reconhecer a vitória de López Obrador. Tanto José Antonio Meade, candidato da coalizão liderada pelo PRI, como Ricardo Anaya, do PAN, enfatizaram o seu compromisso de continuar trabalhando pelo bem do México, tendo o segundo admitido honestamente: “Os cidadãos queriam uma mudança e a viram no programa de López Obrador.”

A corrupção “não tem perdão”

Após a divulgação dos primeiros boletins oficiais, López Obrador se reuniu com partidários no Zócalo, a praça central da Cidade do México, para agradecer o apoio e fazer um esboço rápido do seu programa de governo, cujo aspecto mais significativo foi o compromisso moral fundamental do seu governo: “não mentir, não roubar e não trair o povo.”

E afirmou:

A transformação que iremos realizar consistirá, basicamente, em banir a corrupção do nosso país. Não teremos problemas em alcançar este propósito, porque o povo do México é herdeiro de grandes civilizações e, por isso, é inteligente, honesto e trabalhador. A corrupção não é um fenômeno cultural, mas o resultado de um regime político em decadência. Temos a certeza absoluta de que esse mal é a principal causa da desigualdade social e econômica e da violência que sofremos. Consequentemente, erradicar a corrupção e a impunidade será a missão principal do novo governo.

Sob nenhuma circunstância, o próximo Presidente da República permitirá a corrupção ou a impunidade. Sobre isso, não se enganem: quem quer que seja, será punido. Eu incluo nisto companheiros de luta, funcionários, amigos e familiares. Um bom juiz começa em casa. Tudo o que for poupado no combate à corrupção e na abolição de privilégios será destinado a promover o desenvolvimento do país.

No contexto da era da “globalização”, com as estruturas políticas corrompidas pelo sistema financeiro e seus cientistas políticos e “engenheiros sociais”, que reduziram a política a uma conformidade com os pólos do “politicamente correto”, têm-se tentado pregar uma variedade de rótulos na figura de López Obrador e seu movimento: messiânico, populista, caudilhista, comunista e outros do gênero.

Um exemplo é o editorial da revista britânica The Economist, reproduzido no jornal O Estado de S. Paulo de 3 de julho, intitulado “Uma nova era no México”:

O resultado era previsível, mas mesmo assim foi chocante. Andrés Manuel López Obrador, de 64 anos, o carismático político populista, conquistou a presidência do México num triunfo esmagador e democrático. Sua margem de vitória sugere que ele terá um poder sem precedentes. Como nos EUA e em outros países da Europa, um eleitorado revoltado repudiou a elite política estabelecida. E, no caso do México, os eleitores apoiaram um político de esquerda imprevisível.

Não obstante, o texto cita um especialista estadunidense em assuntos mexicanos, Duncan Wood, diretor do Mexico Institute de Washington, admitindo que “as pessoas estudarão essa eleição no México durante décadas”.

Na verdade, o que para o Establishment oligárquico anglo-americano parece incompreensível não constitui mistério algum. Além da rejeição ao sistema expressada na sua maciça votação, López Obrador ganhou a confiança da população, porque a maioria dos cidadãos se sentiu acolhida por um líder que, na última década, se empenhou em construir um movimento social autêntico, tendo percorrido literalmente todos os municípios do país, convivendo de perto com a população e conhecendo os seus problemas e dando o exemplo do compromisso anunciado na Plaza del Zócalo.

Tudo isso é um reflexo de uma sede mundial para que a política seja exercida como uma forma superior de caridade, conceito que tem sido enfatizado pelo papa Francisco, como o cerne vital da reconstrução da política na Ibero-América, que abriga a maior população católica do mundo. O próprio López Obrador mencionou, em várias oportunidades, as veementes condenações do Pontífice à corrupção, que considera tal câncer como um ato sem perdão.

Nesse contexto, é significativo o apoio imediato oferecido ao novo presidente pelos bispos mexicanos. Em um comunicado divulgado em 2 de julho, a Conferência Episcopal do México (CEM) ofereceu-lhe a sua colaboração:

Saudamos e parabenizamos, com respeito e proximidade, o senhor Andrés Manuel López Obrador, a quem os resultados preliminares do Instituto Nacional Eleitoral declararam vendedor. Somos todos chamados a colaborar positivamente com as nossas autoridades eleitas.

Só podemos criar melhores condições de desenvolvimento para todos, se nos envolvermos em primeira pessoa, na melhoria dos nossos municípios, estados e toda a República Mexicana. Nenhum governante, por si só, tem todas as ideias e todas as soluções. É nossa responsabilidade continuar a participar civicamente, sempre com respeito pelos direitos humanos e pelo verdadeiro bem comum.

Conclamamos a todos os crentes a unir-nos em oração, para agradecer e consolidar este momento cívico-político. Os católicos, em especial, exortamos a que redobrem o seu compromisso para que o testemunho da nossa dedicação e generosidade ilumine a vida social, com o Evangelho da vida, da paz e da solidariedade.

Continuaremos implorando a proteção maternal de Nossa Senhora de Guadalupe, que nos impele a construir um México reconciliado, justo e fraterno, que reivindique a dignidade dos mais pobres e excluídos, a vida do nascituro, o bem das nossas famílias e a autêntica liberdade religiosa.

Por um México industrial

No final do ano passado, o Morena apresentou o “Projeto Nacional 2018”, o plano do que será a reconstrução da economia física do país: grandes obras de infraestrutura, recuperação da soberania energética e alimentícia, criação de 7 milhões de empregos produtivos, construção maciça de moradias, serviço de saúde digno, melhoria da educação pública e outros itens.

Em outras palavras, o objetivo é construir um México industrial, o ideal de uma nação soberana congelado há três décadas. Este modelo constava dos planos dos governos mexicanos, antes que o país fosse convertido em uma virtual colônia dos tubarões financeiros e submetido pelo poder anglo-americano, em uma concretização da ameaça do então conselheiro de Segurança Nacional Zbigniew Brzezinski (Governo Carter, 1977-1981), de que os EUA não permitiriam o surgimento de “outro Japão ao sul da fronteira”.

Porém, vivemos outros tempos: a “Nova Ordem Mundial” e sua filha dileta, a “globalização”, estão em crise e é cada vez mais evidente o surgimento de fatos que anunciam o advento de uma nova ordenação do poder global, que vai tomando forma aos poucos, contra a reação do poderio anglo-americano a ela. Neste contexto, os eventos no México terão repercussões bem além das suas fronteiras.

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