“Máfia Verde” apontado como guia da política ambiental brasileira

Duas extensas reportagens apontam o livro Máfia Verde: o ambientalismo a serviço do Governo Mundial, de Lorenzo Carrasco, Silvia Palacios e Geraldo Luís Lino, do conselho editorial deste Alerta, como uma grande influência sobre o entorno do presidente Jair Bolsonaro e sua política ambiental.

O livro, originalmente lançado em 2001, teve 12 edições, com mais de 22 mil exemplares vendidos, tendo a mais recente, revisada e ampliada, sido lançada em 2017 (houve também duas edições em espanhol). A obra teve o propósito de descrever a agenda “verde-indígena” controlada pelo Establishment oligárquico anglo-americano, em sua estratégia de obstaculização do pleno desenvolvimento e controle de recursos naturais de países como o Brasil, como parte da “Nova Ordem Mundial” decretada pelo então presidente estadunidense George H.W. Bush (1989-93).

Baseadas em entrevistas com Carrasco e com representantes do aparato ambientalista-indigenista que opera no Brasil, além de uma leitura pelo menos atenta do livro, ambas são surpreendentemente objetivas, dada a notória inclinação da maioria dos jornalistas em favor de tais causas.

A motivação para as reportagens veio do comentário feito no Twitter, em 22 de agosto, pelo general Eduardo Villas-Bôas, assessor especial do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI), no auge da troca de chumbo entre Bolsonaro e o presidente francês Emmanuel Macron, em torno das queimadas na Amazônia. Na ocasião, afirmou: “A questão ultrapassa os limites do aceitável na dinâmica das relações internacionais. É hora do Brasil e dos brasileiros se posicionarem firmemente diante dessas ameaças, pois é o nosso futuro como nação que está em jogo. Vamos nos unir em torno daqueles que têm procurado trazer à luz a verdade sobre essas questões ambientais e indigenistas. Me refiro ao Ministro Ricardo Salles, Aldo Rebelo, Evaristo de Miranda, Luiz Carlos Molion, Lorenzo Carrasco, Denis Rosenfield, Professor Francisco Carlos, General Rocha Paiva, General Alberto Cardoso e o General Heleno (Alerta Científico e Ambiental, 22/08/2019).”

A primeira foi publicada em 12 de outubro no sítio Nexo Jornal, com o título “O livro que influencia a visão ambiental do governo”. Segundo o autor, jornalista Camilo Rocha:

A penetração do trabalho do escritor foi relatada ao Nexo por fontes da área ambiental. Pesquisas na internet comprovam seu alcance. A obra é citada em sites ligados ao agronegócio e redes de apoiadores do governo. Seu autor aparece como palestrante e debatedor em eventos do setor agropecuário. Também já foi convocado a dar depoimentos em CPIs no Congresso, a convite de membros da bancada ruralista.

“Sempre vi esse livro nesse meio de produtores ou sindicatos rurais”, disse ao Nexo Rodrigo Junqueira, ambientalista da ONG brasileira ISA (Instituto Socioambiental). “Não sei se o presidente leu, mas certamente o conjunto de assessores dele leu. Eles acreditam piamente que existe essa estratégia internacional. Dá para ver isso quando [Bolsonaro] diz que as pessoas não querem a ‘porra da árvore’, mas o que está embaixo dela.” Segundo o ambientalista, são ideias que antes eram consideradas “meio ridículas”, mas que hoje são defendidas com orgulho. Entre defensores do meio ambiente, a obra era tida como “surreal”, na categoria das teorias da conspiração. Segundo ele, o livro nunca teve centralidade em discussões, mas acabou adotado por formadores de opinião entre pessoas “que não entendem o que uma sociedade civil faz”.

O jornalista afirma que “o livro de Carrasco também briga com o consenso científico a respeito das mudanças climáticas causadas pelo homem ao chamar o aquecimento global de ‘manipulação pseudocientífica’”. E dá voz a Carrasco, que admite que o mundo experimenta uma crise ambiental, “mas não pelas causas que estão alegando. O problema real é que há uma desigualdade social enorme. A miséria, a falta de saneamento, é a pior crise ambiental pelas políticas monetárias e financeiras sustentado pela nova ordem mundial”. Ademais, diz, o discurso ambientalista parte de uma perspectiva europeia: “É muito mais fácil falar que a crise é por causa dos combustíveis fósseis. Na África, o consumo desses combustíveis significa progresso. Querer reduzir isso diz respeito a uma realidade nórdica.”

O artigo recorda, igualmente, o processo movido em 2000 pelo WWF-Brasil contra o Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa), entidade hoje presidida por Carrasco, por “divulgar uma série de informações inverídicas, caluniosas e, até mesmo, insanas” a seu respeito, e pedindo uma vultosa indenização por “danos morais”. Em nota, a assessoria de imprensa da ONG informou:

(…) Recorremos à Justiça para nos defender de uma campanha difamatória que se utilizava de inverdades contidas no livro ‘Máfia Verde’ e em outros materiais de comunicação”. Na ação, foi solicitada busca e apreensão de “materiais difamatórios (…) que atingiam a honra, imagem e bom nome da nossa organização”. A ONG acrescentou que “respeita a liberdade de expressão, mas não concorda com a disseminação de inverdades”.

Lamentavelmente, nem a ONG nem o jornalista informam o desfecho da ação, que foi julgada improcedente pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), em 2009, depois de resultados idênticos nas duas instâncias inferiores do Judiciário. A propósito, vale recordar parte da lapidar sentença do juiz Paulo Maurício Pereira, da 24ª Vara Cível do Rio de Janeiro:

Inexiste prova concreta de que as informações emitidas pela ré [MSIa] são falsas ou distorcidas, certo que não é só ela que emite tais opiniões, resumindo-se tudo na discussão envolvendo o que os nacionalistas chamam de “política imperialista das grandes potências mundiais” e “política de internacionalização da Amazônia”, matérias que de há muito vêm sendo discutidas pela imprensa, inclusive por membros do governo e militares brasileiros, estes pelo dever que têm de resguardar nossas fronteiras e soberania. (…)

Ao final, o jornalista ecoa uma crença vigente entre certos ambientalistas, de que Carrasco teria sido responsável por uma quase saída do Brasil do acordo climático de Paris:

Ambientalistas ouvidos pelo Nexo acreditam que as ideias de Carrasco quase levaram o Brasil a se retirar do Acordo de Paris. Em um texto publicado na época da conferência COP21, o autor mexicano havia declarado que a implementação do corredor Triplo A faria parte do acordo a ser assinado no encontro.

Em realidade, trata-se de um boato difundido por seu colega Claudio Angelo, dirigente da ONG Observatório do Clima, publicado na edição de abril deste ano da revista Superinteressante (“As forças ocultas por trás da política de desmatamento”), segundo o qual “o mexicano inventou que o corredor fazia parte de um plano da Coroa britânica para internacionalizar a Amazônia”.

O que Carrasco escreveu sobre o famigerado Corredor Triplo A, idealizado pelo antropólogo Martín von Hildebrand, fundador e diretor da ONG colombiana Fundación Gaia Amazonas, na edição de 30 de abril de 2015 deste Alerta, foi:

Independentemente da tramitação dessa mirabolante iniciativa ambiental-diplomática abraçada pelo presidente [Juan Manuel] Santos, há um plano mestre para agregar como zonas transfronteiriças as reservas indígenas e áreas de proteção ambiental, que têm sido gradativamente delimitadas e criadas na Região Amazônica, principalmente, no Brasil. Trata-se do mais sério intento daquele aparato intervencionista internacional para segregar um vasto território amazônico, cujo desenvolvimento socioeconômico passaria a ser virtualmente determinado em um âmbito supranacional, pela rede de ONGs ambientalistas e indigenistas vinculadas ao Establishment anglo-americano e seus parceiros europeus, que já exerce uma desmedida influência sobre a formulação das políticas públicas brasileiras.

Na ocasião, Santos pretendia, realmente, apresentar o projeto à conferência COP-21, em Paris, como uma iniciativa trinacional, com a Venezuela e o Brasil, mas a reação de setores institucionais brasileiros, em especial, as Forças Armadas, inviabilizou a pretensão, para grande irritação do aparato ambientalista-indigenista.

“Bíblia de ruralistas”

A segunda reportagem foi publicada na Folha de S. Paulo de 14 de outubro. Apesar do título, “Autor da bíblia de ruralistas critica ONGs estrangeiras, Greta e globalismo”, a jornalista Patrícia Campos Mello também produziu um texto objetivo e isento do ranço exibido por colegas engajados, como Claudio Angelo. Em suas palavras:

Guia de muitos sindicatos de produtores rurais no país, o livro Máfia Verde chegou a ocupar o primeiro lugar na lista dos mais vendidos no tema ambiente na livraria virtual Amazon nas últimas semanas. E exerce grande influência sobre o entorno do presidente Jair Bolsonaro, que cita muitas das expressões popularizadas pelo livro, como dizer que as reservas indígenas são “zoológicos humanos”.

Na entrevista concedida à jornalista, Carrasco afirmou que “a Amazônia está sendo invadida de uma maneira diferente; os países com experiência colonial não intervêm militarmente, eles usam um novo colonialismo, ambiental, e os agentes são as ONGs”.

Ela comenta:

Para ele, a reação internacional às queimadas faz parte da guerra travada por potências mundiais por meio de ONGs. “A Amazônia estava já controlada pelas ONGs, e Bolsonaro entrou com uma agenda diferente, de soberania. É claro que elas iam reagir por meio dessa repercussão internacional das queimadas.”

Assim como a família Bolsonaro, ele não poupa críticas ao cacique Raoni e à ambientalista sueca Greta Thunberg. “Levar o cacique Raoni para uma reunião com [o presidente francês Emmanuel] Macron é brincadeira, ele não é líder nem da própria maloca, não tem o respeito dos caciques caiapós”, diz. “É preciso permitir que cientistas que discordam da teoria do aquecimento global participem da discussão, é um assunto sério demais para deixar uma garota (Greta Thunberg) discutir, isso é sentimentalismo.”

Assim como o do Nexo Jornal, o artigo também menciona o processo movido pelo WWF-Brasil contra o MSIa, repetindo a nota oficial da ONG.

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