"Liborgate": quando a perversão supera a esperteza

“Os bancos, tais como presentemente constituídos e administrados, não são confiáveis para desempenhar qualquer função pública importante, que seja contrária aos interesses percebidos dos seus quadros. Os bancos atuais representam a encarnação do comportamento de busca de lucros levado aos seus limites lógicos, no qual a única pergunta feita pelos escalões superiores não é saber quais os seus deveres ou suas responsabilidades, mas o que podem sair ganhando.”

As palavras acima não foram escritas pelos editores deste sítio, nem, tampouco, por qualquer dos cada vez mais numerosos críticos da indisfarçável disfuncionalidade do sistema financeiro internacional, em sua presente forma. Seu autor é ninguém menos que o respeitado Martin Wolf, editor sênior do Financial Times, o porta-voz por excelência da City de Londres, referindo-se ao escândalo de manipulação da taxa de juros Libor, que está espalhando ondas de choque por todo o mundo financeiro global.

O escândalo, que alguns já chamam “Liborgate”, veio à tona em 27 de jnho, quando se anunciou que o megabanco britânico Barclays pagaria multas no valor conjunto de 450 milhões de dólares, a autoridades reguladoras do Reino Unido e dos EUA, depois de admitir que altos executivos da casa estiveram mancomunados com funcionários encarregados do cálculo da Libor, para manipular os índices em favor das operações do banco. Uma investigação conduzida pelo Departamento de Justiça dos EUA revelou que o esquema vinha operando, pelo menos, desde 2005, e a dimensão da tramoia pode ser vislumbrada pela admissão de um dos operadores, de que cada ponto base (0,01%) de manipulação da taxa assegurava aos envolvidos ganhos de “cerca de um par de milhões de dólares” (Baseline Scenario.com, 8/07/2012).

A Libor (London Inter-Bank Offered Rate), estabelecida pela Associação Bancária Britânica (BBA), é a taxa de juros básica que determina os juros das operações de overnight e, por extensão, de uma vasta variedade de operações financeiras em todo o mundo, aí incluídos títulos públicos e corporativos, hipotecas, empréstimos de cartões de crédito, crédito escolar, hipotecas etc. – sem falar nos mercados de derivativos. As estimativas do montante de ativos diretamente relacionados à Libor variam entre 360 trilhões e 800 trilhões de dólares (a maior parte, derivativos), o que dá uma ideia da dimensão do problema.

Até agora, além da multa imposta ao Barclays, o escândalo só resultou nas demissões do presidente e do executivo-chefe do banco, Marcus Agius e Bob Diamond. Em um depoimento perante uma comissão de inquérito do Parlamento britânico, Diamond saiu pela tangente, mas admitiu: “Eu não posso sentar-me aqui e dizer que ninguém na indústria sabia sobre os problemas com a Lior. Havia um problema ali e ele deveria ter sido tratado de uma forma mais abrangente.”

Em sua defesa, o Barclays divulgou e-mails internos de 2008, os quais sugerem que a manipulação teria sido incentivada pelo Banco da Inglaterra, interessado em manter a Libor em níveis baixos, durante a crise de 2007-2008. Em seu depoimento no Parlamento, o vice-governador do Banco da Inglaterra, Robert Tucker, admitiu que teve conversas com Diamond, em 2008, mas que jamais havia feito qualquer sugestão que pudesse ser interpretada como um apoio tácito à fraude.

O escândalo não se limita ao Barclays. O estatizado Royal Bank of Scotland (RBS) também foi apanhado no esquema e tem pendente contra ele uma multa equivalente a 193 milhões de dólares. Além destes, o estão sendo investigados pelo menos outros 15 megabancos, entre os quais o Citigroup, HSBC, UBS, Lloyd’s e Deutsche Bank. As investigações estão sendo realizadas nos EUA, Canadá, Europa, Japão e Cingapura.

As dimensões do escândalo são de tal monta que, nos dois lados do Atlântico, começou a ganhar corpo um forte movimento no sentido de se reintroduzirem, imediatamente, medidas reguladoras das atividades bancárias, inspiradas na Lei Glass-Steagall, que até a década de 1990 estabeleceu uma separação entre os bancos comerciais e de investimento, nos EUA, e cuja abolição representou um marco crucial na desregulamentação financeira global.

Até mesmo o Financial Times publicou um inusitado editorial, em 4 de julho, afirmando a necessidade de introdução de regras do gênero: “O ethos mais herbívoro [sic] dos bancos de varejo – com a sua ênfase na administração paciente – está marginalizado. Isto parece levar, inelutavelmente, à proliferação de atividades de trading socialmente questionáveis e a abusos como o escândalo da Libor… Com todos os benefícios da diversificação, as tensões culturais entre os bancos de investimento e de varejo só podem ser solucionadas com a separação total de ambos, de acordo com linhas formais ao estilo da Glass-Steagall.”

Em um contundente artigo no Daily Telegraph de 7 de julho, o economista-chefe da consultora Prosperity Capital Management, que escreve regularmente no jornal, afirmou que “não há outra alternativa”. Em um parágrafo magistral, ele sintetizou:

A reimposição da separação evitaria que os bancos de investimento apostassem com os depósitos comuns e os exporia à plena força do mercado. De um golpe, o nosso sistema bancário seria muito mais seguro e o problema dos “muito grandes para quebrar” ficaria, em grande medida, resolvido. É claro que isto seria um anátema para os “titãs bancários” que contam com o dinheiro do governo para sobreviver e de quem, por sua vez, os políticos recebem doações de campanha e confortáveis empregos após o término de suas carreiras políticas. Mas, agora, depois de muitos anos de torpor econômico induzido pelos bancos, e após esse chocante escândalo da Libor, o nosso profundamente corrosivo status quo bancário se encontra, finalmente, sob séria ameaça… O público britânico está desesperado para ver medidas que domem os nossos bancos e tornem mais seguro o nosso sistema financeiro. Chegamos a uma encruzilhada histórica.

Na Itália, o não menos respeitado colunista econômico do Corriere della Sera, Massimo Muchetti, afirmou que a manipulação da Libor representa uma associação para o “crime organizado”, que deveria ser investigada e julgada em âmbito internacional. Em sua coluna de 6 de julho, ele afirmou:

O assunto, porém, envolve uma reforma política. Nós, europeus, abandonamos a sábia cautela dos anos 30 – a Lei Glass-Steagall nos EUA, a Lei Bancária de 1936 na Itália -, para retornar à atividade bancária como sendo uma empresa para maximização de lucros, segundo o modelo da década de 1920. Talvez, seja hora de estourar a bolha, voltar aos bancos comerciais como infraestrutura econômica, como entidades de utilidade pública estritamente reguladas e com lucros moderados. A especulação financeira deve ser deixada a outras entidades, com acionistas diferentes e sem proteção pública. Talvez, seja chegada a hora de se entender que o maior monopólio se chama City de Londres, e o segundo maior, Wall Street, onde quatro ou cinco bancos controlam todo o edifício dos derivativos financeiros. Aí está a fonte de contágio, e não na Grécia. Nós devemos defender-nos desta fonte.

Nos EUA, em um artigo publicado em numerosos jornais, em 10 de julho, o ex-secretário do Trabalho Robert Reich (governo Clinton) disse que as ondas de choque do escândalo chegarão, fatalmente, a Wall Street:

(…) Quase certamente, Wall Street está envolvida na mesma prática, inclusive os suspeitos de sempre – JP Morgan Chase, Citigroup e Bank of America -, porque cada grande banco participa na determinação da taxa Libor e o Barclays não poderia tê-la manipulado sem o envolvimento voluntário deles. De fato, a defesa do Barclays tem sido a de que todos os grandes bancos estavam manipulando a Libor da mesma maneira, e pelas mesmas razões. (…)

No que diz respeito a Wall Street e ao setor financeiro, em geral, a maioria de nós padece da fadiga da indignação, combinada com um cinismo esmagador de que nada jamais será feito para deter esses abusos, porque Wall Street é muito poderosa. Mas a fadiga e o cinismo são atitudes que cumprem a si mesmas; nada será feito se sucumbirmos a elas. A alternativa é sermos incansáveis e inflexíveis, em nossa exigência de que a [Lei] Glass-Steagall seja reinstituída e os maiores bancos sejam divididos. A questão é se o desdobramento do escândalo da Libor proporcionará munição e energia suficientes para que, finalmente, o trabalho seja feito.”

Independentemente do seu desfecho, o “Liborgate” demonstra de forma categórica que a corrupção é intrínseca ao sistema financeiro existente. Ou seja, não haverá forma de superação da presente crise global se o sistema não for profundamente reformado e as finanças, reconduzidas – com a força necessária – à sua função original, há muito abandonada, de apoiar as atividades produtivas da economia real.

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