Katrina, dez anos depois

New-Orleans-AP

Há dez anos, o furacão Katrina devastou Nova Orleans. Dificilmente, as cenas dantescas da destruição da cidade serão esquecidas por quem as presenciou, mesmo pela televisão ou internet. De forma oportunista, a tragédia foi apropriada pela indústria do catastrofismo climático, como se fosse uma demonstração dos seus prognósticos alarmistas e infundados. Em especial, o ex-vice-presidente estadunidense Al Gore a retratou nas cenas iniciais do controvertido documentário que lhe valeu um Oscar de Hollywood. De nossa parte, em recordação à tragédia, republicamos a nota publicada na edição de 7 de setembro de 2005 do boletim Resenha Estratégica, onde recorremos aos depoimentos de várias autoridades e especialistas, para apresentar um quadro mais realista dos acontecimentos.

O Katrina e a crise civilizatória

“A destruição de Nova Orleans é responsabilidade do governo mais incompetente da história dos EUA e, talvez, de toda a história. Os estadunidenses estão percebendo rapidamente que foram enganados pela soberba de superpotência.”

(Paul Craig Roberts, ex-secretário assistente do Tesouro no Governo Reagan, Counterpunch, 3/9/2005.)

A tragédia que se abateu sobre o Golfo do México com a passagem do furacão Katrina, cujas dimensões e conseqüências ainda estão longe de poder ser avaliadas, explicita uma vez mais o que talvez seja o sintoma mais dramático da presente crise civilizatória global: o abismo cada vez mais fundo entre os interesses e a agenda política das classes dirigentes e as necessidades e aspirações da grande maioria das populações do planeta. Por uma ironia suprema, que parece ter saído das páginas do Antigo Testamento ou de Platão, a catástrofe atingiu em cheio a maior potência econômica e militar da história, onde uma casta de ideólogos da força bruta e do poderio imperial se apoderou das instituições do Estado, levando a um paroxismo o abandono do princípio do bem comum preconizado na Declaração de Independência e na própria Constituição dos EUA.

O contraste não escapou ao jornal inglês The Daily Mail, cujo editorial de 2 de setembro sinaliza:

Aqui está uma superpotência que pode esmagar ao seu bel prazer uma ditadura insignificante – mas fica de tal forma atolado no desdobramento da guerra que se vê incapaz de responder de forma minimamente adequada às agruras de dezenas de milhares de seus próprios cidadãos engolfados por uma calamidade natural.

Embora esteja sendo considerado a pior catástrofe natural da história dos EUA, o Katrina está longe de ser o mais forte furacão a fustigar a região do Golfo do México. Em 1965, a hoje devastada Nova Orleans foi atingida pelo furacão Betsy, que inundou a cidade e causou a morte de 70 pessoas. Quatro anos depois, a região foi varrida pelo Camille, o mais forte até hoje registrado, com ventos de mais de 350 km/h, que deixaram 275 mortos nos estados do Alabama, Louisiana e Mississipi. E, a despeito dos comentários alarmistas e infundados sobre uma hipotética intensificação dos furacões pelo fenômeno do aquecimento global, a atual temporada de furacões ainda não se compara à registrada no final da década de 1930 e na de 1940.

Pelo menos para Nova Orleans, os maiores danos não decorreram do impacto direto do Katrina, que apenas “raspou” a cidade, mas do rompimento dos diques que represam as águas do lago Pontchartrain, que se romperam em três lugares na manhã da segunda-feira 29, permitindo a inundação de 80% do perímetro urbano. A vulnerabilidade dos diques vinha sendo motivo de preocupados alertas de diversas autoridades e organismos. Passemos a palavra ao economista Paul Craig Roberts, um correligionário do presidente George W. Bush:

Antes de 11 de setembro, a Agência Federal de Manejo de Emergências advertiu que Nova Orleans era um desastre esperando para acontecer. O Congresso autorizou o Projeto de Controle de Enchentes Urbanas do Sul da Louisiana (SELA), para proteger o estratégico porto, as refinarias e a grande população. Entretanto, após 2003, os recursos para o SELA foram desviados para a guerra no Iraque. Durante 2004 e 2005, o (jornal) Times-Picayune de Nova Orleans publicou nove artigos sobre a prioridade da guerra no Iraque sobre a proteção contra furacões em Nova Orleans. Cada especialista e jornal, em lugares tão distantes como o Texas, via a catástrofe de Nova Orleans se aproximando. Mas o presidente Bush e seu governo insano preferiram a guerra no Iraque a proteger os estadunidenses em casa. A guerra de Bush deixou o Corpo de Engenheiros do Exército com apenas 20% do orçamento para proteger Nova Orleans contra uma inundação do lago Pontchartrain. Em 18 de junho de 2004, o gerente de projetos do Corpo, Al Naomi, disse ao Times-Picayune: “Os diques estão cedendo. Se não obtivermos o dinheiro para levantá-los, não poderemos controlar a subsidência.”

O rompimento dos diques de Nova Orleans representa a mais trágica amostra da crescente deterioração da infra-estrutura física dos EUA, sobre a qual os especialistas vêm alertando há mais de uma década, e o seu impacto sobre a vida nacional. A importância vital da cidade para a economia estadunidense é explicitada em um artigo do editor do sítio Stratfor, George Friedman (1°/09):

Uma maneira simples de pensar sobre o complexo portuário de Nova Orleans é que daí sai para o resto do mundo o grosso das mercadorias agrícolas e entra o grosso das mercadorias do industrialismo. A cadeia de mercadorias da indústria alimentícia global começa aqui, assim como o industrialismo estadunidense. Se essas instalações se forem, haverá mais que mudanças de preços de produtos: a própria estrutura física da economia global teria que ser refeita… O deslocamento da população é a crise que Nova Orleans enfrenta. É também uma crise nacional, porque o maior porto dos EUA não pode funcionar sem uma cidade ao seu redor. Os processos e negócios físicos de um porto não podem ocorrer um uma cidade fantasma e, neste momento, isto é o que é Nova Orleans. Não se tratam de instalações e não se trata de petróleo. Trata-se da perda da população de uma cidade e da paralisação do maior porto dos EUA.

A prioridade para o Iraque na agenda de Bush contribuiu para agravar a tragédia, já que cerca de 40% dos efetivos e equipamentos da Guarda Nacional do Alabama, Louisiana e Mississipi estão no Iraque. Por conseguinte, foi preciso mobilizar unidades de outros estados para as operações de socorro, o que, somado à inércia demonstrada pelas autoridades federais, deixou os flagelados entregues à sua própria sorte nas 72 horas após o desastre, consideradas as mais críticas pelos especialistas em resposta a desastres de grande porte. Uma evidência do despreparo foi o fato de que, nas primeiras horas após a inundação apenas sete helicópteros da Guarda Costeira estavam disponíveis para o atendimento imediato das vítimas – isto em um país onde existem mais de 10.000 helicópteros militares.

Em uma premonitória entrevista à emissora de televisão WGNO, em 1° de agosto último, o tenente-coronel Pete Schneider, da Guarda Nacional da Louisiana, antecipou que a indisponibilidade dos equipamentos destacados para o Iraque seria problemática no caso de um grande desastre natural: “A Guarda Nacional precisa daquele equipamento em casa para apoiar a missão de segurança doméstica.”

Não menos chocantes foram os relatos de violência entre os sobreviventes de Nova Orleans, que contrastam visivelmente com a virtual ausência deles após a tsunami que varreu o oceano Índico em dezembro. Entrevistada pela agência Reuters em Colombo, Sri Lanka, o país mais atingido pelo maremoto, a cingalesa Sajeewa Chinthaka fulminou (2/09): “Estou enojada. Depois da tsunami, nosso povo, mesmo aqueles que perderam tudo, queriam ajudar os outros que estavam sofrendo. Nenhum turista atingido pela tsunami foi assaltado. Com o que está acontecendo agora nos EUA, podemos ver facilmente onde está a parte civilizada da população mundial.”

Embora alguns comentaristas tenham recorrido até mesmo aos falaciosos conceitos de Thomas Hobbes para justificar a violência dos saqueadores e estupradores diante da ausência das instituições do Estado nos dias imediatamente seguintes ao desastre, a explicação mais provável para tal comportamento talvez resida na própria ideologia anglo-saxã-protestante, que privilegia o individualismo e a competição exacerbados. Em entrevista a O Globo (5/09), o engenheiro Moacir Duarte, especialista em ações emergenciais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, apontou:

Desde que o homem vive em sociedade a solidariedade, e não a barbárie, é a norma em grandes eventos catastróficos. Se não fosse isso, não sobreviveríamos. O que vemos em Nova Orleans é uma exceção, um provável sintoma do individualismo característico da sociedade americana.

Em sintonia com semelhante processo mental, tanto o prefeito de Nova Orleans, Ray Nagin, como a governadora da Louisiana, Kathleen Blanco, determinaram que a polícia municipal e a Guarda Nacional interrompessem o atendimento aos flagelados para caçar os saqueadores que rondavam pela cidade devastada. Tanto a governadora como, depois, o presidente Bush, enfatizaram que os saqueadores deveriam ser tratados com “tolerância zero”, ou seja, fuzilados à primeira vista, independentemente de serem pessoas desesperadas em busca de gêneros de primeira necessidade ou oportunistas à cata de produtos de valor.

Da mesma forma, o diretor da FEMA, Michael Brown disse à rede CNN (2/09) que o número de vítimas fatais da inundação, estimado na casa dos milhares, se deve a “um monte de gente que não deu ouvidos aos alertas antecipados. Eu não julgo os motivos pelos quais as pessoas preferiram não sair, mas, você sabe, havia uma ordem de evacuação de Nova Orleans”.

O que Brown não disse foi que as pessoas que ficaram na cidade o fizeram pela absoluta falta de condições de deixá-la pelos seus próprios meios, já que não houve qualquer esforço das autoridades de todos os níveis nesse sentido.

Em um magistral artigo divulgado em 1° de setembro no sítio Empire Burlesque, o jornalista estadunidense Chris Floyd, foi ao cerne da questão:

Onde estavam os recursos públicos – a manifestação física do compromisso da cidadania com o bem comum – que poderiam ter mitigado grandemente os efeitos brutais desse desastre natural?… Mas, por mais culpada, criminosa e asquerosa (loathsome) que seja a Administração Bush, ela é apenas a apoteose de uma tendência dominante na sociedade estadunidense, que vem ganhando força há décadas: a destruição da idéia de um bem comum, um setor público cujos benefícios e responsabilidades sejam compartilhados por todos e dirigidos pelo consenso dos governados… Na medida em que o militarismo áspero e agressivo e o brutal ethos corporativo que Bush tem injetado na corrente principal da sociedade estadunidense continue a espalhar o seu veneno, veremos menos e menos recursos disponíveis para nutrir o bem comum. Na medida em que o processo político se torna mais e mais corrupto, sempre mais uma criação de manipuladores da elite e seus covardes carregadores de malas, veremos os pobres e fracos e, até mesmo a classe média, serem atirados mais e mais à parte baixa da sociedade, onde cada tempestade que passe – econômica, política ou natural – irá ameaçar os seus lares, seus modos de vida e a sua própria existência.

Em outro indignado libelo, o jornalista Alexander Cockburn, editor do sítio Counterpunch, disparou (3/09):

As conseqüências do Katrina são a cobrança por décadas de estupidez, cobiça, rapinagem e racismo. Minha idéia é que a tendência rumo à catástrofe realmente ganhou força na era Reagan. Foi quando a noção de que esta sociedade seria, de algum modo profundo, um esforço coletivo orientado para o melhoramento humano… foi atirada à lata de lixo. Uma vez que você deixe de acreditar no melhoramento universal, você pára de investir em defesas sociais, como programas de saúde ou controle de enchentes. Você constrói o seu condomínio brilhante na colina, coloca uma cerca ao redor dele e cancela o serviço de ônibus local para que os pobres não cheguem até você. (…)

No New York Times de 5 de setembro, o economista Paul Krugman foi igualmente preciso:

Mas a inépcia letal do governo federal não foi apenas uma conseqüência da incapacidade pessoal do sr. Bush; foi uma conseqüência da hostilidade ideológica à própria idéia de usar o governo para servir o bem público. Por 25 anos, a direita tem denegrido o setor público, nos dizendo que o governo é sempre o problema e não a solução. Por que deveríamos ficar surpresos com que, quando precisássemos de uma solução governamental, ela não viria?

A tragédia do Katrina e a invasão do Iraque são duas faces de uma mesma moeda de soberba oligárquica, que, ao longo da História, tem sido a causa principal da derrocada dos grandes impérios.

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