Integração industrial dos BRICS na pauta

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Na semana passada, ocorreu em Moscou uma reunião dos ministros da Indústria e Comércio Exterior dos países do grupo BRICS (Brasil-Rússia-Índia-China-África do Sul). O objetivo do evento foi apreciar estratégias comuns de crescimento, discutir meios para ampliar as suas balanças comerciais e estabelecer metas para ampliar a integração dos membros do grupo, com ênfase no setor industrial.
Na ocasião, o anfitrião, ministro da Indústria e Comércio da Federação Russa, Denis Manturov, propôs uma ampliação da cooperação industrial intrabloco, com o uso de mecanismos de eficácia já comprovada pela Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO, na sigla em inglês) e pela União Econômica Eurasiática (UEE).
“Nosso potencial industrial é significativo e isso explica a necessidade de nos encontrarmos. A cooperação no setor entre as nações que compõem o grupo ainda não está plenamente desenvolvida e precisamos atuar neste sentido”, disse ele (Sputnik, 21/10/2015).
Manturov propôs que os BRICS adotem uma combinação de princípios e normas reais já utilizadas por associações e organizações internacionais, tanto para ampliar a cooperação industrial, como para abrir novas oportunidades comerciais e de investimentos. Como exemplo, citou que, em 2014, a UNIDO executou sete projetos industriais no Brasil, Bielorrússia, Quirguistão e Armênia, todos com fundos aportados pela Rússia. Entre eles, destacou a associação com o Brasil na esfera de tecnologia e de defesa para estimular iniciativas de pequenas e médias empresas (PMEs). Segundo ele, a iniciativa demonstrou que o uso dos mecanismos da agência pode ser um instrumento adicional para conseguir os mesmos objetivos que almejam os BRICS.

De fato, os membros do grupo detêm em conjunto um terço da produção industrial mundial e, em função da imprevisibilidade dos desdobramentos da crise global, e a despeito das diferenças de objetivos entre eles, a integração de esforços em vários segmentos industriais oferece enormes possibilidades a serem exploradas – inclusive, para reduzir uma competição predatória intrabloco – se houver a necessária determinação política.
O Brasil foi representado no evento pelo secretário de Desenvolvimento da Produção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Carlos Gadelha, que deu à Sputnik News a entrevista a seguir.
Sputnik – Que propostas foram levadas pelo Brasil para esta reunião dos ministros do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do grupo BRICS?
Carlos Gadelha – Esta reunião é um marco histórico, porque foi a primeira reunião dos BRICS para discutir a integração do desenvolvimento industrial. Enquanto já houve cinco reuniões do comércio e diversas reuniões no âmbito financeiro, que geraram a criação do Banco dos BRICS, entre outras iniciativas, esta aprofunda a agenda dos BRICS colocando na pauta o desenvolvimento industrial e o desenvolvimento tecnológico e inovação. Ela representa um marco nessa estratégia que desde 2008 tinha mais um enfoque diplomático, depois financeiro, e agora entra numa agenda industrial.

S – No âmbito dos BRICS, o que está sendo feito por Rússia e Brasil para aumentarem a proporção de suas exportações de manufaturados em relação às exportações de commodities?

CG – Este foi o tema central. No acordo se prevê o desenvolvimento de diversos segmentos produtivos. Eu destacaria a própria agregação de valor aos recursos naturais, como é o caso dos produtos minerais e da química, a questão toda envolvendo o setor aeroespacial e defesa, petróleo e gás, e todas as indústrias relacionadas à saúde, como a farmacêutica e a de equipamentos médicos. Coloca-se na agenda a necessidade de fortalecimento dos BRICS, e particularmente daqueles países cuja pauta produtiva é mais dependente de matérias-primas, para que gere maior valor agregado e para que a manufatura tenha um peso mais decisivo. Na relação com a Rússia nós colocamos uma meta ambiciosa de levar o nosso fluxo comercial do patamar de US$ 6 bilhões para US$ 10 bilhões, ou seja, o fluxo de importação e exportação com a Rússia. A ideia é que, em vez de ter exportações competitivas, vamos ter importações e exportações complementares, para que a gente entre de modo competitivo no mercado global. Mais do que uma queda de braço ou uma articulação onde um ganha e outro perde, é que, se nós integrarmos os dois sistemas produtivos, ou o dos países do BRICS como um todo, nós estaremos mais fortes para competir no mundo.

S – Foram estabelecidas metas de crescimento industrial do BRICS como um todo e de cada um dos seus membros nesse encontro de Moscou?
CG – Não, porque este foi o primeiro encontro. O grande marco foi de que a agenda industrial comece a fazer parte dos BRICS. Foi assinada uma declaração que já coloca o elemento tecnológico e de inovação, ou seja, toda a questão da agregação de valor no centro da estratégia, e já cita setores em áreas prioritárias como a da saúde, a de equipamentos médicos, de recursos naturais, entre outras áreas. Ela representou um avanço importante, a partir da qual projetos concretos serão realizados. Ao mesmo tempo se colocou uma agenda mais aprofundada na área da mineração.

S – O senhor mencionou o Novo Banco de Desenvolvimento, o Banco dos BRICS, que tem sede em Xangai, na China. Esta instituição será chamada a participar do crescimento industrial dos cinco países BRICS?

CG – Com certeza. A ideia é que a partir desta agenda de desenvolvimento industrial os mecanismos do bloco sejam acionados para apoiar a agenda. Envolve tanto os mecanismos do bloco quanto os mecanismos próprios de cada país, como os bancos de desenvolvimento. Há uma articulação, por exemplo: a área de infraestrutura, de transporte, a indústria automobilística e de transporte ferroviário, foi indicada como algo muito importante. O Brasil hoje tem programa de investimento de US$ 60 bilhões em infraestrutura e logística, e este programa pode arrastar e representar um mercado importante para as indústrias de bens de capital e de equipamentos dos BRICS, que fornecem equipamentos básicos para toda a área de transporte e logística.

S – O senhor falou sobre a meta de expandir de US$ 6 bilhões para US$ 10 bilhões o volume de transações comerciais entre Brasil e Rússia. Há um lapso de tempo que o senhor estabeleça para que se atinja esta meta?

CG – Ela serve como uma meta mobilizadora. Nós já estamos nos preparando para ter este avanço no contexto atual, e eu coloco um horizonte de dois a três anos para podermos atingir esta meta, dependendo dos fatores externos, a questão cambial, questões macroeconômicas, mas é uma meta a ser perseguida imediatamente pelos dois países.

S – Que opinião o senhor leva sobre este encontro dos ministros da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior realizada em Moscou?
CG – A impressão é de que a parceria é muito concreta, todos os membros do BRICS com representação de altíssimo nível. Foi uma reunião em que foi dada grande importância, pois houve, inclusive, uma relação com países da Eurásia. Então, há muita crença de que frente a todos estes acordos globais que estão no cenário atual, de que essa integração produtiva do BRICS venha a ser, talvez, o elemento mais estruturante para fortalecer o bloco e para permitir, inclusive, um avanço na relação entre o Brasil e a Rússia e os demais países dos BRICS.

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