Inflação e bolha especulativa, “mix” de alto risco

O Banco Central Europeu (BCE) diz que não quer tomar decisões “precipitadas” sobre política monetária; a Reserva Federal estadunidense anuncia aumentos das taxas de juros, mas apenas nos próximos meses. De fato, com essas atitudes, os dois principais bancos centrais do mundo destruíram a sua “joia”, muito elogiada nos últimos anos, a da “comunicação”, que deveria ter representado a sua mais importante ferramenta de política monetária. Ou seja, bastaria comunicar quais poderiam ser os próximos passos para “orientar” com toda calma os mercados e os investidores.

Ao contrário, e isto não é um desdobramento positivo, os mercados têm se movimentado de forma independente e, antecipando possíveis aumentos futuros das taxas de juros, já começam a mostrar dúvidas e menos interesse nos títulos públicos. Eles estão aumentando o custo do dinheiro, criando uma instabilidade mundial e condições adversas para o refinanciamento das dívidas corporativas e estatais.

Por exemplo, após os títulos de dez anos, os títulos alemães de cinco anos, pela primeira vez em anos de juros negativos, também registraram juros positivos. Como resultado, o “spread” (prêmio) dos títulos italianos também subiu para 170 pontos base.

Os efeitos são visíveis internacionalmente. Como já relatado, o Banco Mundial expressou recentemente temores de insolvência em países emergentes, que foram induzidos a se endividarem cada vez mais.

Nas chamadas economias avançadas, os sinais de alterações negativas importantes, no que diz respeito às valorizações dos títulos privados e públicos, são normalmente expressos pela evolução dos credit default swaps (CDS), ou seja, seguros de risco de insolvência. Isso se manifesta pelo aumento do número de CDS e seus preços, em especial, daqueles relativos a títulos corporativos, obrigações de empresas.

Por exemplo, nos EUA, em janeiro, os CDS chegaram a 197 bilhões de dólares, um aumento acentuado em relação aos US$ 123 bilhões de dezembro passado. Segundo a International Swaps and Derivative Association (ISDA), esse nível foi alcançado em março de 2020, em meio à crise da pandemia e aos resgates de “flexibilização quantitativa” da Reserva Federal. Observe-se que, no início de 2022, o balanço do “Fed” era de US$ 1,5 trilhão a mais que um ano antes. Até o índice Markit North American Investment Grade CDX, uma cesta de CDS usada para avaliar o risco de crédito, também atingiu os seus máximos anuais.

Nesse cenário, o crescimento da inflação tornou-se o principal foco de preocupações e debates. É certo que é, mas não se deve subestimar nem por um segundo o risco representado por bolhas financeiras de vários tipos, que, com o aumento do custo do dinheiro, entramos em situação de fibrilação. Vários financistas, como Jeremy Grantham, cofundador da GMO, um dos maiores fundos de gestão patrimonial do mundo, estão alertando para isso. Está acontecendo no mercado imobiliário estadunidense, onde em 2021 os preços dos imóveis subiram 17% e os aluguéis, 14%. Estas são tendências que lembram a crise das hipotecas “subprime” de 2008.

Uma cifra revela todo o drama da bolha. O Instituto de Finanças Internacional (IIF), associação global de instituições financeiras privadas, estima que a dívida global atingiu US$ 295 trilhões no final de 2021, US$ 36 trilhões acima dos níveis pré-pandemia. Isto equivale a pouco menos de 350% do PIB mundial (contra 282% no início da crise financeira global). Só no período de pandemia, este percentual teria aumentado 35%, o que explica em que medida a chamada recuperação global tem sido dependente da dívida, mas também revela uma grande vulnerabilidade.

E ainda: a capitalização dos mercados acionários estadunidenses como múltiplo do PIB atingiu o máximo histórico de 2,8 em meados de 2021, frente ao pico de 1,9 da chamada “bolha das pontocom” (empresas ativas na internet e setores afins), em 2000.

Além disso, enquanto em 2020 o saldo dos balanços dos governos das economias do G-20 apoiou a procura agregada de 8,8% do PIB do grupo, agora, o Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que em 2021 este valor tenha baixado para 7,9% e, em 2022, deverá descer ainda mais, para 5,9%.

É claro que a combinação de um forte aumento da inflação com o anunciado aumento das taxas de juros tornará cada vez mais difícil manter e gerenciar as bolhas financeiras.

Há quem olhe para o passado em busca de ideias e possíveis saídas. No entanto, nos momentos mais difíceis do passado, a inflação não se misturou, como hoje, com bolhas especulativas exageradas e pirâmides de dívidas. Por exemplo, em 1971, o presidente Richard Nixon impôs controles de salários e preços, em meio à crise de energia. Uma medida de proteção que não resolveu o problema principal e se apresentou de forma virulenta, um pouco mais tarde. De fato, a seguinte intervenção contra a inflação, do presidente Jimmy Carter e do presidente da Reserva Federal Paul Volcker, fez com que a taxa interbancária overnight subisse para 22% no final de 1980, afetando duramente os orçamentos de muitos países, incluindo a Itália e, em especial, as economias emergentes.

Hoje, as intervenções corretivas são ainda mais difíceis, pelo fato de a reforma financeira, tornada indispensável pela crise de 2008, não ter sido realizada. É óbvio que não podemos pensar em continuar a adiá-la. Qualquer mudança só pode começar a partir daí, separando as finanças especulativas da economia real, para ajudar e proteger esta última.

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