Inflação crescente: o dilema dos bancos centrais

Levou muito tempo, mas no final até a Reserva Federal estadunidense admitiu que subestimou e interpretou mal o surto inflacionário, que foi mais amplo e mais persistente do que o esperado. Agora, o desafio para todas as grandes economias é como corrigir em tempo as ações ditadas pela leitura “transitória” da inflação.

Durante anos, as políticas dos bancos centrais basearam-se em três princípios bastante “subjetivos” e pouco científicos. O primeiro é a meta arbitrária de 2% como taxa de inflação anual, que não foi questionada, porque, devido à recessão, os preços estavam caindo. O segundo aspecto diz respeito ao fantasma das “expectativas de inflação”. Os banqueiros afirmam que as expectativas impulsionam a inflação e os bancos centrais impulsionam as expectativas. Então, tudo sob controle. O terceiro princípio é a chamada “forward guidance”, ou prescrição futura, com a qual os bancos centrais sinalizam as taxas de juros, por exemplo, por meio do controle dos juros dos títulos públicos.

Entretanto, com a Grande Crise Financeira de 2008 e, depois, com a pandemia de Covid-19, os bancos centrais abriram as torneiras de liquidez com as várias “flexibilizações quantitativas” (quantitative easing). Resgates imediatos e necessários para o sistema, mas, no longo prazo, a política do dinheiro fácil “viciou” as finanças e também a economia, aumentando o endividamento e a propensão a riscos maiores.

A injeção de liquidez no sistema, ou seja, a compra de títulos públicos, foi bem mais consistente nos EUA, com a alta do balanço do “Fed” de US$ 4,17 trilhões, aumento de 210% entre 2019 e dezembro de 2021. Aumento maior que na zona do euro, onde o balanço do Banco Central Europeu (BCE) aumentou em 3,9 trilhões de euros, alta de 185%.

Já no verão passado, teria sido oportuno reconhecer que os fatores “transitórios” foram acompanhados por problemas de longo prazo. Não se pode justificar tudo com a pandemia e seus efeitos. As empresas descreveram a natureza persistente das interrupções em suas cadeias de suprimentos. A escassez de mão-de-obra qualificada também se aprofundou. Em essência, os empresários, ao contrário de muitos economistas acadêmicos, argumentavam que esses dois problemas não seriam resolvidos tão cedo.

É certo que os bancos centrais carecem de ferramentas para desbloquear as cadeias de suprimentos ou aumentar a participação da força de trabalho. Mas a permanência na mentalidade inflacionária transitória corre o risco de desencadear as chamadas “expectativas de inflação”, que implicam na persistência de taxas de inflação significativamente acima do que a economia e os mercados podem tolerar. A economia crescente dos últimos meses, agora corroída pela inflação de 6% ou mais, pode ser fortemente empurrada para a compra de bens, mas muito rapidamente para se transformar em novos investimentos e mais produção, alimentando, assim, a própria inflação.

Esperar para agir significa arriscar uma recessão mais acentuada, com volatilidade de mercado e repercussões negativas para a economia global. É um modelo conhecido: dentro da armadilha da curva de inflação, corre-se o risco de apertar fortemente a política monetária, atingindo duramente a demanda e o emprego e afastando as empresas já em dificuldades. Para os mercados, surgiriam situações de iliquidez desestabilizadoras.

Em novembro, o presidente do “Fed”, Jerome Powell, promoveu uma mudança repentina na política monetária, anunciando uma redução nas compras mensais de ativos, o que é conhecido como “tapering” (afinando) da flexibilização quantitativa. Porém, ele não explicou por que o erro persistente da natureza “temporária” da inflação e quais serão as ferramentas de apoio à economia real.

Por seu lado, o BCE, como anunciou a presidente Christine Lagarde, pretende manter uma posição de esperar para ver, acreditando firmemente na “transiência” da inflação, que deverá eventualmente voltar a ancorar-se nos fatídicos 2%.

No entanto, se as pressões inflacionárias se generalizarem, um novo aperto mais cedo do que o esperado pode ser necessário para todos e alguma “frenagem” desordenada na política monetária não pode ser descartada.

Nessa situação, no entanto, é fundamental que os principais bancos centrais comuniquem cuidadosamente as suas ações políticas, para não provocar confusão e reação exagerada dos mercados, o que teria efeitos deletérios em toda parte, especialmente, para as economias emergentes e em desenvolvimento altamente endividadas. Portanto, ao contrário da sincronicidade de antes da pandemia, o desalinhamento contínuo entre o “Fed” e o BCE não é um bom presságio.

Por outro lado, se a inflação permanecer mais alta do que se pensava, as taxas reais ficarão ainda mais baixas do que antes, o que implicaria uma postura ainda mais expansiva da política monetária. Além disso, impactaria negativamente os rendimentos reais, desencadeando um inevitável conflito social em torno de salários e pensões.

Sem dúvida, não há soluções fáceis. No entanto, se os bancos centrais foram superintervencionistas nos últimos 15 anos, agora, eles não podem se tornar muito cautelosos, na linha de esperar para ver. Nesta situação, são os governos e os parlamentos que têm de intervir de forma decisiva e definir as prioridades das intervenções. São chamados a favorecer ativamente a economia real, as empresas produtivas, o emprego e os rendimentos dos cidadãos, e a libertarem-se do “abraço” demasiado prolongado e sufocante da alta finança.

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