Greenpeace e FHC, de mãos dadas pelo “desenvolvimento zero”

Entre os dias 22 e 24 de março, teve lugar em Manaus (AM) a terceira edição do Fórum Mundial de Sustentabilidade (FMS). O evento, dedicado a delinear a agenda das grandes organizações ambientalistas para a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), reuniu a tradicional mescla de nomes ilustres do ambientalismo internacional e palestrantes nacionais. Entre estes, o destaque ficou com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que se dispôs a ser o primeiro signatário de uma campanha do Greenpeace para proibir totalmente o desmatamento no País.

Como de hábito, o Fórum contou com um forte financiamento por parte da iniciativa privada, de pesos pesados como a Coca-Cola, Ambev, Goodyear, Natura e outros. Dentre os notáveis convidados, além de FHC, lá estiveram o ex-primeiro-ministro francês Dominique de Villepin, a ex-premier norueguesa Gro-Harlem Brundtland (coordenadora do célebre relatório Nosso futuro comum, que lançou o conceito de desenvolvimento sustentável), e o diretor-executivo do Greenpeace Internacional, Kumi Naidoo.

O evento serviu de plataforma para a mais nova campanha lançada pelo Greenpeace, que completa 20 anos de presença no Brasil: a proposta de uma iniciativa popular para a adoção de uma “Lei do Desmatamento Zero”. Para dar maior visibilidade à campanha, a ONG trouxe ao País o seu navio Rainbow Warrior, que ficou ancorado no porto de Manaus durante o evento. Em entrevista ao portal IG (24/03/2012), Naidoo qualificou o novo Código Florestal como “um desastre colossal”. Do alto de sua arrogância, disparou, explicitando o alvo primário da campanha, os produtores agropecuários brasileiros: “Se de fato a maioria da população brasileira não quer esse código e assinar a proposta do Desmatamento Zero, o tiro sairá pela culatra para o agronegócio, que tem feito uma campanha tão agressiva. O mesmo ocorrerá com os políticos que assinaram contra a defesa da floresta e a favor de negócios, pois ficariam em uma situação muito embaraçosa.”

Com uma esdrúxula argumentação, Naidoo, que é natural da África do Sul, afirmou que a aprovação do novo Código Florestal seria uma ameaça ao continente africano: “O fato é que a África já sente os efeitos das mudanças climáticas, e não esperamos que o Brasil, um país que sempre nos deu apoio em questões políticas e sociais muito difíceis, ameace a África da mesma maneira que os Estados Unidos e a Europa fazem.”

Ademais, como não poderia deixar de ser, ele atirou contra a usina hidrelétrica de Belo Monte, para ele, mal a ser evitado, propondo substituí-la por fontes “renováveis”. “Vocês não precisam da Belo Monte para ter energia. Não precisa de tanta destruição”, afirmou (PortalAmazônia.org.br, 24/03/2012).

Por outro lado, o ex-presidente FHC teve uma nova oportunidade de reafirmar a sua antiga adesão à agenda “verde” global, sendo o primeiro a assinar a petição da “Lei do Desmatamento Zero”. Além disso, se reuniu reservadamente com os dirigentes da ONG e fez uma “autocrítica”, afirmando que poderia ter feito mais pelo meio ambiente em seu governo (Brasil Econômico, 23/03/2012).

A pronta adesão de FHC à iniciativa não surpreende, pois ele é um veterano apoiador da “agenda verde” global, desde a sua militância nos conclaves do Diálogo Interamericano, na década de 1980.

Em relação à Rio+20, o ex-presidente engrossou o bloco dos que, diante do que se configura como um fiasco do evento, no tocante à pretensão de consolidar a “agenda verde”, têm repetido o chavão de que a hora é de ação, e não de debate: “Sabemos o que tem que ser feito e como ser feito. Mas o problema é que isso é urgente. E isso ainda não foi entronizado pela sociedade brasileira nem pelas sociedades de outros países (O Estado de S. Paulo, 23/03/2012).”

Além disso, menosprezou a orientação do governo brasileiro para a conferência, que privilegia os aspectos do desenvolvimento sobre os ambientais, ressaltando o tema central do ambientalismo internacional no momento, as mudanças climáticas supostamente induzidas pelo homem: “A questão social está ligada à questão ambiental, mas tem que fazer a ligação. Na África, em Durban [conferência climática COP-17, em dezembro último], os africanos insistiram na pobreza, na questão social, e isso vai aparecer no Rio, mas não podemos perder o foco. Se não cuidarmos do ambiente, quem vai pagar o pato são os mais pobres. A questão central é a do efeito estufa (Agência Estado, 23/03/2012).”

Desafortunadamente, outras adesões à proposta do Greenpeace foram anunciadas no evento. A produtora Conspiração Filmes anunciou que filmará gratuitamente uma série de comerciais de TV, contando com artistas como Camila Pitanga e Marcos Palmeira. Ambos são notórios ativistas ambientais, sendo que a primeira integra o conselho consultivo do WWF-Brasil e o segundo foi um dos protagonistas do controvertido vídeo Gota d’água, uma infame peça propagandística contra o projeto de Belo Monte, divulgada na Internet, no final do ano passado, e prontamente desqualificado por estudantes universitários, engenheiros e pesquisadores (Alerta Ambiental, 1/12/2011).

Outra adesão digna de nota foi a do ex-premier de Villepin, que se mostrou determinado a engrossar a pressão internacional em auxílio à campanha do Greenpeace contra o novo Código: “Estou atento ao debate sobre o Código Florestal brasileiro. Ele é muito importante para o futuro não só do Brasil, mas do resto da humanidade. É preciso definir códigos em todo o mundo.”

Por sua vez, Almir Suruí, líder da tribo paiter suruí, afirmou que o desempenho do governo Dilma Rousseff na área ambiental é “péssimo”, e que “O Código Florestal vai dar incentivo ao desmatamento. E as terras indígenas estão nas regiões que serão mais afetadas”. Em 2007, a tribo assinou um convênio com a empresa Google, para a divulgação em tempo real de imagens e informações das terras da reserva (Alerta Ambiental, 8/03/2012).

Como tem sido uma constante desde o início da ofensiva ambientalista-indigenista contra o Brasil, no final da década de 1980, todas essas iniciativas mal conseguem disfarçar a intenção final dessa insidiosa agenda intervencionista, que é a de transformar a Região Amazônica em uma vasta área de “desenvolvimento zero”.

O currículo “verde” de FHC

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não é nenhum neófito nas causas ligadas à politização dos temas ambientais. Ao contrário, desde o início da década de 1980, ainda senador, quando se tornou membro fundador do Diálogo Interamericano (DI), ele tem sido um ativo interlocutor dos altos círculos do Establishment oligárquico internacional, em numerosos foros de discussões que estabeleceriam as tendências políticas globais, nas décadas seguintes.

Como é sabido, o Diálogo foi criado em 1982, como uma iniciativa conjunta entre o Departamento de Estado dos EUA e a família Rockefeller, para funcionar como uma espécie de “filial” da Comissão Trilateral para as Américas, cumprindo funções semelhantes de orientação de pautas políticas favoráveis aos interesses do Establishment. Dos seus debates, por exemplo, saíram propostas que se tornariam políticas de governo em muitos países ibero-americanos, como a debilitação das Forças Armadas, sob o pretexto da sua submissão ao poder civil, a abertura econômica indiscriminada, a legalização das drogas entorpecentes e a institucionalização do ambientalismo.

No relatório de 1989 (The Americas in 1989: Consensus for Action), a organização deu grande destaque à questão ambiental. Entre outras propostas, decidiu-se que “o desenvolvimento sustentável deveria ser o objetivo de todos os projetos de investimentos”. Para tanto, “os Estados Unidos, o Canadá e as agências multilaterais devem cooperar em tais esforços de planejamento de longo prazo, proporcionando recursos financeiros, tecnologia e assessoria técnica”. Na ocasião, Fernando Henrique era membro do Comitê Executivo do DI.

No mesmo ano em que foi fundado o DI, foi criado também o World Resources Institute (WRI), que tinha como uma de suas funções principais a introdução dos temas ambientais nas políticas de ajuda financeira de agências multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e as agências de desenvolvimento dos países do G-7. Em 1991, o WRI divulgou o chamado Pacto por um Novo Mundo, documento que, entre outras diretrizes, concluía que os países da Ibero-América deveriam reduzir os seus orçamentos militares para permitir a utilização destes recursos em programas ambientais. Entre os signatários do documento, alinhavam-se o então senador Al Gore e FHC.

Em maio de 1999, já na Presidência da República, FHC encontrou tempo em sua agenda para receber uma delegação do Greenpeace, encabeçada pelo então diretor-executivo do Greenpeace Internacional, Thilo Bode, que lhe foi comunicar oficialmente a nova campanha da organização na Amazônia. Na ocasião, FHC o advertiu sobre possíveis reações “nacionalistas” contra a atuação da ONG. Segundo relatou à Folha de S. Paulo (1/06/1999) o então diretor-executivo do Greenpeace Brasil, Roberto Kishinami, “a preocupação do presidente é que, embora a Amazônia seja um tema de interesse global, ela é antes de tudo um tema brasileiro e que sempre levanta alguma sensibilidade nacionalista”.

Em dezembro de 1997, por ocasião de sua visita de Estado ao Reino Unido, FHC se comprometeu formalmente com o príncipe Philip, presidente emérito da ONG WWF Internacional, a manter sob proteção permanente pelo menos 10% da área correspondente à Floresta Amazônica. Na oportunidade, ele foi agraciado com o título de Cavaleiro da Ordem do Banho.

Em 2000, a presidente do WWF-EUA, Katherine Fuller, revelou que o então presidente do conselho de administração da ONG, Roger Sant, que também presidia a empresa energética AES, havia levantado mais de 200 milhões de dólares, para ajudar FHC “a implementar sua promessa de proteger 100 milhões de acres [cerca de 42 milhões de hectares] de florestas da Amazônia – quase o triplo do que já está atualmente sob proteção (WWF-US Annual Report 2000)”.

Embora não tenha sido possível verificar a veracidade da informação, a presença de Sant na cúpula de uma das principais ONGs do aparato ambientalista constitui outra evidência da promiscuidade entre o big business transnacional e a agenda “verde” internacional – e, não menos, da familiaridade de FHC com tais círculos.

One comment

  1. FHC além de vender o País para a banca internacional ao praticar taxas de juros estratosféricas, entregou o mesmo para o aparato ambientalista alienígena. Agora como ex-presidente, continua com mentalidade colonizada ao se servir de porta-voz das ongs transnacionais e se entregar de “corpo e alma” ao sofisma etno-ecoxiita.

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