Governo ensaia volta dos grandes reservatórios

Diante do enorme risco de desabastecimento energético, decorrente da grande estiagem deste ano e da queda da participação das hidrelétricas na matriz de energia brasileira, o governo federal parece ter optado pela retomada das usinas com reservatórios adequados. Segundo informações do jornal O Estado de S. Paulo (29/09/2014), pelo menos três empreendimentos – dois em construção e um em análise – deverão operar com reservatórios que permitam um maior acúmulo de água (rebatizados como “reservatórios de regularização plurianual”), sugerindo uma reversão do virtual banimento dos grandes reservatórios, como concessão às pressões do movimento ambientalista.

Os empreendimentos em pauta são as usinas de Sinop, com potência de 400 megawatts, no rio Teles Pires, Mato Grosso; São Roque (146 MW), no rio Canoas, Santa Catarina; e Arraias (93 MW), no rio Palma, Tocantins. Estes projetos receberão barragens que permitirão um maior acúmulo de água, ao contrário das numerosas usinas construídas nas últimas décadas com reservatórios insignificantes, chamadas “a fio d’água”. Embora não tenham uma grande capacidade de geração, terão condições de garantir uma oferta regular de energia por todo o ano, mesmo nas épocas de seca, já que serão capazes de “reter energia” nos períodos chuvosos, em forma de água.

As novas barragens deverão ser construídas próximo às cabeceiras dos rios, permitindo a outras hidrelétricas planejadas rio abaixo a se beneficiarem do mesmo recurso. “Vamos fazer tudo o que for possível, erguendo essas usinas onde tivermos condições técnicas e ambientais para isso (…). Há outras possibilidades em rios no Norte do País. Estamos estudando esses projetos.”, afirmou o secretário de Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia, Altino Ventura Filho.

Contudo, previsivelmente, o governo já tem sido cobrado pelos impactos ambientais resultantes da retomada das grandes barragens. A própria reportagem destaca este aspecto, observando que o alagamento de uma área maior tem a sua “fatura ambiental”. O texto compara as novas usinas com a de Belo Monte, no rio Xingu, com uma potência total de 11.233 MW e um reservatório de 503 km², contra 337 km², no caso da usina de Sinop, no rio Teles Pires. E reconhece que, mesmo tendo uma potência de geração muito superior, Belo Monte será prejudicada pela ausência de um reservatório maior (o projeto original previa uma área 2,5 vezes maior), fazendo com que a sua geração caia drasticamente nas épocas de estiagem, cerca de quatro meses por ano, para pouco mais de 1.000 MW, devido à sua incapacidade de reter água suficiente para sustentar uma geração maior.

Segundo a reportagem, a retomada dos empreendimentos com grandes reservatórios é um desejo da própria presidente Dilma Rousseff, que defendeu a medida durante o Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, no ano passado. “Temos de enfrentar o fato de que, se nós continuarmos a fazer hidrelétricas a fio d’água, se nós continuarmos a ter essa arquitetura de hidrelétricas, teremos aumento das térmicas”, disse a presidente, na ocasião.

Os entraves para o governo ampliar o número de hidrelétricas com grandes barragens estão espelhados no Plano Decenal de Energia (PDE), documento elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), que apresenta as prioridades de expansão do sistema elétricos nos próximos dez anos. A versão atual estabelece que, até 2023, a capacidade instalada das hidrelétricas subirá 36% em relação à atual, de 87,6 mil MW – representando 67% do total gerado pelo sistema elétrico brasileiro, de 130,8 mil MW. No entanto, no mesmo período, a capacidade de armazenamento dos reservatórios aumentará apenas 2%. Este aumento, contudo, pode ser maior, já que o PDE é revisado anualmente, abrindo a possibilidade de alteração do planejamento atual.

É de se esperar que o governo que assumirá em 2015 mantenha a determinação de colocar um ponto final na submissão ao ambientalismo-indigenismo, que tem sido a marca das últimas décadas.

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