Gota D’Água na turbina

Decio Michellis Jr. *

“Res, non verba.”

(Realidade, e não palavras.)

No século passado, era prática comum nos conteúdos televisivos o aviso: “esta é uma obra de ficção: qualquer semelhança com fatos ou pessoas terá sido mera coincidência”. O motivo: as “ficções realistas” até podem ocorrer no contexto da realidade sem violar a normalidade do mundo e, serem confundidas com eventos reais.

Depois veio os reality shows, transmitido ao vivo, 24 horas por dia, que trouxeram consigo a idéia de serem “a novela da vida real”, histórias aparentemente sem roteiro, mas com muita trama. E já temos telenovelas que transmitem, por exemplo, uma cirurgia plástica de verdade em uma das atrizes, provando que a dramaturgia não tem fronteiras.

A presença da televisão nos domicílios do Brasil é de 95,7% (são 75 milhões de aparelhos), com posse média de equipamentos 1,37/domicílio. O aparelho só perde para o fogão, existente em 98,4% das residências. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (IBGE/ PNAD) de 2009 e do PDE 2011-2020 do MME.

Em 1950 eram 1.000 receptores de TV no país, em 1960 – 621.919, em 1970 4,2 milhões, em 1980 14,1 milhões, em 1991 27,7 milhões e em 2000 39 milhões de televisores.

Estas TVs representam aproximadamente consumo médio 149 kWh/ano, ou aproximadamente 10% do consumo de energia nas residências. E equivalem a uma usina hidrelétrica 3.300 MW (1.276 MWh/h) ou 30% de uma usina similar à Belo Monte.

Apesar da responsabilidade em matéria ambiental ser objetiva (a reparação do dano ambiental independe de culpa), não é conhecido nenhuma iniciativa que procure ofertar junto com a compra de um novo televisor a correspondente oferta de geração de energia elétrica para mantê-lo funcionando com opções ambientalmente mais amigáveis ou de menores impactos socioambientais. Se assim fosse, ao comprar uma TV LCD de 42, R$ 1.500,00 em média, sonho de consumo de boa parte da população brasileira, seria necessário um investimento adicional de R$ 2.953,26 (para abastecimento da TV por eólica) ou R$ 4.650,00 (para solar fotovoltaica) acrescidos dos custos de manutenção.

Em 2010 as TVs bateram recorde em faturamento: R$ 18,3 bilhões no mercado publicitário. A internet mais R$ 1,3 bilhões (juntas arrecadaram somente no mercado publicitário, o equivalente a 66% do que todas as geradoras de eletricidade em operação faturam por ano no Brasil).

Parece que estamos assistindo a comercialização do consenso. Noam Chomsky, em seu livro Manufacturing Consent, afirma que a mídia de massa tem seus discursos pautados segundo interesses específicos privados e de governo no intuito de buscar apoio mais amplo da sociedade nos vendendo idéias e modos de vida. Igualmente Walter Lippmann, prospecta a “fabricação do consenso”, na forma de praticar a democracia: aqueles que se consideram capazes de tomar as melhores decisões em nome do bem comum da sociedade, desenvolveram mecanismos de controle social, maneiras de direcionar a opinião pública, já que o cidadão médio não seria capaz de fazer as escolhas corretas.

Fazem uso de instrumentos comprovadamente eficazes: entre outros a presença de atores famosos. Com isto se diferenciam no mercado do marketing político ao criar um pseudo-debate público, utilizando argumentos questionáveis e meias-verdades, sem oportunidade ao teste do contra-argumento.

Este produto político (o consenso da sociedade sobre um determinado tema) promete se tornar a nova marca no setor de terceirização do embate midiático, um negócio muito bem-sucedido e potencialmente lucrativo.

Com a liberdade de expressão artística, assegurada pela Constituição Federal de 1988, parece não haver mais limites entre ficção e realidade. Assistimos principalmente nas telenovelas, personagens reais e fictícios numa trama e enredos complexos onde no merchandising social (motivo de orgulho para as grandes emissoras locais) a arte procura imitar a vida.

Como tudo está sujeito a interpretação, nunca se pode garantir uma completa fidelidade. Ao contrário das obras de ficção (mesmo as que praticam o merchandising social), onde os cenários são virtuais ou digitais, a necessidade de construção da usina de Belo Monte é 100% real. Raramente são filmadas na floresta cenas com atores. Em Belo Monte as partes interessadas e os diretamente impactados pelo empreendimento (os atores reais) convivem com o desafio de atender as necessidades futuras de energia elétrica sustentável e de baixas emissões de gases de efeito estufa com as medidas de mitigação, compensação e indenização apropriadas ao porte e localização do mesmo.

O Brasil é um país que já faz a diferença, aliando crescimento à preservação de recursos naturais e das populações indígenas. Somos hoje em matéria de conservação e na matriz elétrica o que a maior parte dos países desenvolvidos gostariam de ser amanhã.

Em nossa realidade, diferente das peças de ficção, os responsáveis por quase três décadas de desenvolvimento do projeto de Belo Monte consideraram todas as possibilidades técnicas e economicamente viáveis de reduzir os impactos da obra, o que na prática significou a redução de 48% da energia que poderia ser gerada pelo projeto original de nome “Kararaô”. É uma solução inteligente, responsável, consciente e motivada pelo bem comum.

O setor elétrico brasileiro construiu aproximadamente 1.000 barragens, algumas com mais de 120 anos em operação (a legislação ambiental brasileira tem apenas 28 anos). O Brasil consolidou progressivamente em seus projetos as melhores práticas de gestão socioambiental de eficácia comprovadas internacionalmente.

Partindo da crença midiática de que tudo pode ser feito, o limite é nossa imaginação, o fornecimento de energia elétrica, bem indispensável à sadia qualidade de vida, exige um comprometimento cada vez maior com a inovação e a competitividade não só econômica, mas também socioambiental. Exige cada vez mais tecnologia, novos modos de geração e distribuição de conhecimento, diversidade tecnológica e aumento da capacidade de observação e aprendizado sobre impactos socioambientais das novas tecnologias.

Isto sim, é estar verdadeiramente empenhado em achar soluções para o desenvolvimento sustentável do Brasil.

Enquanto em peças publicitárias como as do “Movimento Gota D’Água” não se preocupam com coisas como a viabilidade técnica e econômica das propostas, o setor elétrico brasileiro está no caminho oposto para valorar os efeitos e perdas de cunho social, cultural e psicológico que usinas hidrelétricas geram às populações sob sua influência para, a partir desse conhecimento, propor o conjunto de ações mais eficaz para minorar e/ou compensar as interferências geradas.

Como consumidores precisamos considerar nas nossas escolhas (consumo consciente, a redução, o reuso e a reciclagem) a demanda indireta ou oculta de recursos naturais, com destaque sobre os não renováveis. Ou seja, considerar a energia (incluindo a elétrica), a água, os recursos minerais, os transportes e os processos produtivos e seus impactos no meio ambiente para orientar as nossas decisões de consumo em todos os produtos, bens e serviços que adquirimos.

Para um mundo melhor, mais consciente e solidário, mais do que aparecer com soluções emocionalmente defensáveis, é importante ser sustentável e socioambientalmente responsável, tendo por objeto iniciativas cuja efetividade seja inquestionável. É preocupante a facilidade com que a maior parte das pessoas adere de forma acrítica, aceitando o papel menos nobre de uma democracia, a de se comportar como massa de manobra. Com o progresso da Ciência, a mente humana está livre para investigar, questionar, e se necessário invalidar aquilo que não puder ser comprovado, ou que não apresente um mínimo de coerência. Realidade, e não palavras.

Refs.: http://blog.nei.com.br/index.php/2011/11/23/gota-dagua-na-turbina/ e http://www.cerpch.unifei.edu.br/noticias/gota-dagua-na-turbina.html (22/11/11) .

(*) Diretor de energia do Departamento de Infraestrutura da FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e assessor especial de meio ambiente da Rede Energia.

One comment

  1. Parabéns!! Toda atividade humana moderna causa algum impacto. O que temos a fazer é analisar TODOS os aspectos e usar nossos conhecimentos, inteligência e tecnologia para diminuir ao mínimo ou, quem sabe, até compensar de outra forma esse impacto. Outro dia vi uma reportagem que dizia que até um parque eólico pode causar uma interferência a, digamos, uma rota migratória de uma determinada ave. Ou seja, até aquela solução “inocente” pode trazer algum transtorno. Para pensar…

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